TANZANIA

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terça-feira, 8 de maio de 2012

Era uma vez um rato na minha cozinha


Este post necessita de um prefácio para que a seguinte estória faça sentido para aqueles que não me conhecem tão bem: eu sou vegetariana.


Há cerca de três ou quatro noites eu ouvi um barulho suspeito ao entrar em minha cozinha, sacos plásticos sendo revirados em um dos cantos. Imediatamente pensei: rato.

Não sou uma expert em ratos, mas tive meu período em Magoma com cerca de 30 ratos (que eu carinhosamente chamava de hamsters) me fazendo companhia todas as noites, incluindo no chuveiro (hamsters voyers).
Nunca tive ratos em minha casa quando sou a responsável pela limpeza e organização, mas aqui recebo muitos PCs, que não são exatamente as pessoas mais organizadas que já conheci, e em Magoma meus problemas com ratos começaram quando uma família tanzaniana se mudou para a casa e começou a deixar um banquete disponível para os ratos todas as noites (a comida ficava até em pratos, o que me fazia imaginar os hamsters com babadores lavando suas mãos antes das refeições).


Voltando à minha cozinha, mais tarde naquela noite, Kristin, coordenadora de projeto de Korogwe que estava dormindo aqui, entrou (mais) branca no meu quarto e disse: “eu vi o rato”. Claro que ela não ficou na cozinha tempo suficiente para me indicar seu paradeiro (é nessas horas que tenho vontade de perguntar “você é uma mulher ou é um rato?”).

Pois bem, o dono da casa tinha alguns galões cheios de milho que ficavam na cozinha e como era impossível manter a limpeza em volta deles eu decidi me livrar dos galões com a real desculpa de que estavam me trazendo problemas com ratos. Precisei da ajuda de três homens para movê-los, mas uma vez livre dos galões o espaço ficou muito bacana. Sem ratos (eu pensei), sem teias de aranha e sem poeira.

Como por duas noites não vi ou ouvi sinal do rato imaginei que ele havia realmente ido embora. De qualquer maneira resolvi blindar a cozinha, tapando cada buraco (na porta e no teto) e reorganizando tudo para manter ratos distantes. Feliz, pensei “livre do rato e com uma cozinha mais bonita. Essa foi fácil!”.

Quase...


Esta manhã decidi fazer um suco e achei meus tomates comidos e alguns pedaços de saco plástico que até ontem continham alguma coisa. Procurei em todos os cantos da cozinha, da sala, iluminei os cantos mais remotos com a lanterna e... nada.

Chamei o fundi (pessoa que conserta coisas, em Swahili) para me trazer veneno. Como amanhã vou a Dar es Salaam seria um bom momento para deixar veneno na cozinha já que Usiku (minha cachorra) estará fora da casa por três dias.

Bom, lembram do prefácio deste blog? Pois é, eu sou vegetariana. E isso significa que eu detesto, não suporto, odeio mais do que tudo... matar coisas. Se precisar eu mato, especialmente porque muitos dos PCs morrem de medo de insetos e aí sobra pra mim. Mas antes tento capturar o inseto e levá-lo para longe.

Enquanto o veneno não vinha comecei a pensar em alternativas:
1.     Emprestar um gato de alguém? (talvez isso também matasse o rato, mas aí seria uma coisa mais natural e eu acreditava que o rato fugiria rapidamente ao ouvir os miados e tudo se solucionaria sem derramarmos uma gota de sangue).
2.     Já sei! – pensei. Tenho que bater um papo com o rato e usar minhas capacidades de negociação adquiridas no CEAG para convencê-lo que sua melhor opção seria se render e deixar a casa, o que salvaria sua vida e me pouparia muito trabalho. E assim comecei a conversar com o rato, que eu acreditava estar escondido na cozinha, mostrando a ele meu desejo de ajudá-lo a ter uma vida melhor na liberdade do mundo exterior e longe dos meus tomates, enumerei algumas das possibilidades infinitas que ele teria fora da minha casa e... nem sinal do rato (hum, talvez a FGV não tivesse ratos em mente quando elaborou aquele curso)...


Quando o fundi e o veneno chegaram ele me disse que havia um buraco no fundo do freezer velho, que também pertence ao dono da casa (e como não funciona é usado como mesa). Decidi aproveitar sua presença para dar uma olhada.
Afastamos o freezer e meus ouvidos treinados identificaram o barulho dos sacos plásticos. Com um cabo de vassoura começamos a fuçar no buraco até que o rato saiu correndo. Pausa: ele era até bonitinho, pequeno, cinza escuro, com potencial para ser um bom hamster.

O fundi queria matá-lo com o cabo de vassoura, mas eu pulei na frente dele e disse que poderíamos capturar o rato com uma bacia (vegetariana, lembra?). E assim, senhoras e senhores, começou o espetáculo.

O rato corria pela cozinha e tentava se esconder e eu atirava a bacia enquanto o fundi o assustava com o bastão. Sob o fogão, atrás dos tanques de água, correndo pelas cestas de comida, sob o fogão novamente – parecia uma prova de percurso com obstáculos. E a bacia voava para lá e para cá, eu e o fundi pulávamos com o rato correndo entre nossas pernas e o rato corria pela sua vida.
Depois de pelo menos meia hora nós três estávamos cansados. Chamei Kristin (aquela branquinha da primeira noite) para reforçar nosso time com mais uma bacia e abri a porta da cozinha que vai para a rua para tentar induzir o rato a correr para a liberdade (também conhecida como quintal). Me posicionei no corredor que ele vinha usando desde que a “luta” começou e dei o ok para o fundi. O cabo de vassoura entrou em ação, o rato correu, Kristin pulou para trás e eu joguei a bacia. E sucesso! Ganhei um rato como prêmio!

Aí foi só levar a bacia para o quintal e assistir ao rato correndo para bem longe, limpar a sujeira, pagar o exausto fundi e comemorar.


Como não consigo evitar uma analogia, tenho que dizer que a saga do rato me lembra um pouco do nosso trabalho por aqui. Eu queria ajudá-lo. O rato queria salvar sua vida e ter comida suficiente. Meus parceiros estavam engajados. O rato não confiava em mim (o que aquela pessoa quer comigo?). Eu confiava nos meus parceiros já que tive o cuidado de escolher pessoas com quem formei relacionamentos (conheço o fundi desde que me mudei para Korogwe e a Kristin tem sido uma PC ponta-firme nos últimos nove meses). E foi necessária uma estratégia, posicionamento correto e muito empenho para conseguirmos algum resultado.

O resultado não é permanente (mais ratos podem surgir) e exige manutenção, mas estaremos aqui e prontos para eles quando eles chegarem. E no final todos saíram ganhando: o rato ganhou sua liberdade e se manteve vivo. Eu me livrei do rato. A Kristin evitou futuras surpresas desagradáveis ao entrar na cozinha à noite. O fundi recebeu TZS10,000, (cerca de US$6) o que é mais do que as pessoas fazem em uma semana por aqui.

Final feliz =)


Pp. enquanto tudo isso acontecia, Usiku, minha cachorra caçadora, aproveitava o sofá e dormia como um bebê...

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O que nos torna únicos


A temporada oficial 2Seeds 2011/2012 terminou no último fim de semana. Ainda temos sete PCs trabalhando em seus projetos, os que decidiram estender seu compromisso até junho, mas o compromisso inicial de 9 meses foi cumprido e com seu fim, treze PCs partiram.

Engraçado notar como esta escolha de palavras importa. Há momentos aqui na Tanzânia em que não tenho certeza se tudo vai dar certo, mesmo sendo otimista e idealista por natureza. Há momentos em que me pergunto se mesmo vivendo em regiões de paz, todos vão sobreviver. E não me refiro a sobreviver fisicamente apesar das idas ao hospital para testes de malária (o caso da Lindsay, que descrevi no começo do ano, foi particularmente assustador) ou dos meios de transporte que se parecem com carrinhos de montanha russa fora do parque de diversões. Me refiro à capacidade de sobreviver psicologicamente à experiência e de sair daqui melhor.

Este trabalho é tudo no mundo, menos fácil. Os relacionamentos que formamos com as comunidades, o grau de imersão em uma realidade tão distinta, o desejo de fazer tudo dar certo e a tristeza quando algumas coisinhas nos escapam, a necessidade de sermos orientados por nossos valores a cada minuto de todos os dias, tudo isso, torna a experiência intensa. Aqui colocamos nossos cérebros, corações e almas em nossos projetos – e às vezes não é suficiente.

Mas por que estamos aqui se é assim tão difícil? Por que eu, que vim para ficar quatro meses, vivo aqui há dois anos e tenho mais um (pelo menos) pela frente?

O que torna a 2Seeds única é a oportunidade que criamos para que cada pessoa seja o seu melhor. Ser medíocre por aqui simplesmente não faz sentido. Por que alguém ficaria tão longe de tantas pessoas que ama, das suas comidas favoritas, dos namorados (atuais e futuros), das piscinas azuis, das pistas de dança, de QUEIJO e dos biquínis coloridos para ser medíocre? São tantas as coisas que não temos aqui que eu poderia tornar este meu mais longo blog e ainda assim não estaria perto de enumerar a metade. Mas a coisa que temos, que nos trouxe aqui e não nos deixa voltar pra casa antes da hora, vale tanto que mesmo transbordando de saudades os olhos ainda brilham com a perspectiva de conquista-la: aqui podemos mudar o mundo.

A hora de voltar varia de pessoa para pessoa e quanto tempo é suficiente é uma equação que eu ainda estou batalhando para resolver. Treze PCs cumpriram seu tempo, sete perseguem a missão de consolidar seus projetos nos próximos dois meses. Um brinde aos que deixaram o chão carquejado e voltaram ao mundo das geladeiras (colocando assim, vocês é que deveriam brindar a nós). Todos nós sobrevivemos! (ufa)

sábado, 21 de abril de 2012

Tabora ya Korogwe – baldes que carregam nutrientes


Tabora é o nome de uma grande cidade aqui na Tanzânia, longe de nossos projetos, e de uma pequena vila perto de Korogwe, que esconde uma população Zigua, tribo de língua complicada, e duas coordenadoras de projeto, Rachael e Ros.

Tabora ya Korogwe, como chamamos a vila para diferenciá-la da cidade, tem menos de 2000 habitantes e nos surpreende pelo quão politizadas as pessoas são. Há alguns meses, descontente com a administração, a população trancou a sala que abriga a sede municipal (representada por um executivo denominado pelo governo e um administrador eleito pela vila) e simplesmente impediu que os dois trabalhassem. O cadeado se mantém na porta e sem administração oficial, Tabora se tornou nossa vila anárquica.

Rachael e Ros formaram um grupo de care-takers, conceito que usam para designar as pessoas que tomam conta de crianças e são responsáveis pela sua nutrição. Como a Tanzânia é uma sociedade bastante tradicional (e patriarcal), normalmente quem toma conta das crianças são as mulheres, mas ainda assim as coordenadoras preferem usar o termo care-takers porque gostam de deixar a porta aberta para homens que (quem sabe um dia?) queiram assumir o papel. O grupo atualmente tem seis mamas (mães) que estão aprendendo a melhorar a nutrição de seus filhos através do cultivo, em pequenos jardins atrás de suas casas, de frutas e vegetais. A produção não é destinada à venda, mas contribuirá para o aumento do poder aquisitivo das pessoas já que cada tomate colhido do jardim significa uma economia de pelo menos TZS100. Haba na haba, hujaza kibaba (a versão em Swahili para “de grão em grão a galinha enche o papo”).

O Projeto Tabora começou em ritmo lento, mas desde que os treinamentos em nutrição começaram as mamas tem se mostrado mais ativas e algumas já começaram a colher frutos de seus jardins. As técnicas de cultivo integram conceitos de permacultura e ideias criativas para reuso de água, plantio de espécies complementares, e uso de garrafas que seriam consideradas lixo, mas que mantém a humidade do solo.

Eu estive esta semana em Tabora para o último treinamento e despedida de Rachael, que está voltando para os EUA. Foi necessário algum esforço para garantir que nossa facilitadora, que chamamos de Bibi Lishe (Senhora Nutrição), comparecesse. Ela havia cancelado sua participação, mas uma ligação ressaltando a importância de sua presença e algum trabalho na logística de trazê-la para a vila mudou sua decisão (o segredo é nunca aceitar um não como resposta).
Cozinhamos todas juntas uma porção de verduras, ressaltando o valor nutricional das folhas escuras, prestando atenção especial ao tempo de cozimento e à melhor maneira de garantir que os nutrientes “viajem” do jardim ao prato. O almoço nutritivo foi servido em uma bandeja, ao estilo tanzaniano, com uma porção de ugali de dona (pasta de milho menos branca e mais rica em fibras por usar farinha processada apenas uma vez, ao invés de duas como os tanzanianos preferem). A cada pedaço arrancado do monte de ugali, uma porção um pouquinho maior que o normal de verdura foi adicionada ao bolinho. E o corpo foi agradecendo a tão rara nutrição a cada mordida.

Hoje em Tabora, os jardins crescem nos baldes. E os baldes, mais do que água, carregam nutrientes que enchem os pratos das crianças.


Para saber mais sobre o Projeto Tabora (em inglês):

Kariakoo – um post mais business


Além dos sete projetos em vilas, temos dois projetos especializados focados em entender os elos da cadeia de valor dos agricultores de subsistência e em buscar maneiras de criarmos oportunidades para nossos parceiros. Projeto Especializado, o Projeto Kariakoo é o único sediado em Dar es Salaam, a maior cidade da Tanzânia (está para a Tanzânia, guardadas as devidas proporções, como São Paulo está para o Brasil – em opções, pobreza, desigualdade e caos). Indo mais longe, o Projeto Kariakoo é nosso único projeto localizado longe de Korogwe, a 5 horas de distância.

O primeiro time Kariakoo chegou à Tanzânia em 2011 sabendo que seu foco seria conectar agricultores a mercados, mas sem saber onde estariam suas oportunidades de criação de valor para os agricultores de subsistência. Assim, Aly, Ellie e Alex iniciaram seu trabalho formando conexões dentro do Kariakoo Market, maior mercado da Tanzânia e centro de distribuição de produtos agrícolas, e trabalhando com nossos excelentes parceiros para entender o funcionamento do mercado, os serviços disponíveis, como os agricultores poderiam assegurar melhores preços a vender seus produtos. Perceberam que mesmo com este conhecimento seria difícil transpor a distância que separa os agricultores do mercado devido à deficiência de conhecimento dos agricultores, que sem capacidade administrativa ou noções de economia facilmente perdiam as janelas disponíveis para obtenção de melhores preços. E em pouco tempo entenderam que o mundo das ONGs é muitas vezes terra sem lei, onde muitas organizações trabalham por um objetivo comum sem se comunicar e não raramente projetos de sobrepõem e erros se repetem.

Durante os últimos nove meses, Aly, Ellie e Alex trabalharam em quatro frentes para atuar nas três esferas identificadas acima:

1.     Co-criaram com o Projeto Bungu uma série de treinamentos em tomada de decisões e princípios de economia para facilitar o entendimento dos agricultores de subsistência de Bungu, excelentes produtores, da lógica dos mercados e de como tomar decisões com visão de longo prazo;
2.     Co-implementaram com os projetos Bungu e Bombo Majimoto um sistema de disseminação de preços para que os agricultores tivessem uma ideia de quanto poderiam obter por sua produção em diversos mercados na Tanzânia. Paralelamente, pesquisaram em meio aos sistemas de disseminação de preços disponíveis (implantados por outras organizações) o que melhor se encaixa à realidade dos nossos parceiros e estão neste momento conectando o sistema escolhido às vilas;
3.     Criaram, em parceria com o Projeto Korogwe (nosso outro projeto especializado do qual falarei mais em um outro post), um network de ONGs, com reuniões mensais para troca de ideias, informações e melhores práticas;
4.     Desenvolveram com os gerentes do mercado Kariakoo um sistema de catalogação de preços que disponibilizará informação através de um website que está sendo criado para o mercado.

Visitei os três coordenadores de projeto esta semana, como parte do meu plano para o fim da temporada e para a transição que nos espera. Aly, Ellie e Alex sabem que tiveram papel essencial na idealização de um projeto que ainda tem muito caminho a percorrer para gerar mudança para nossos parceiros. Às vezes temos a sensação de que andamos a passos de formiga por aqui, mas como o caminho importa tanto quanto o destino, precisamos desenhar cada passo como parte de uma longa caminhada. 


Para saber mais sobre o Projeto Kariakoo (em inglês):
http://thekariakooproject.wordpress.com/
http://www.2seeds.org/kariakoo/

terça-feira, 17 de abril de 2012

Bungu - a vila que as montanhas escondem


Esta temporada de despedidas tem me levado a rodar bastante para visitar todos os nossos projetos, falar sobre a transição com nossos parceiros e criar momentum para motivá-los a seguir em frente e buscar resultados. O discurso se repete: nosso destino é uma vida melhor, mas para chegar lá temos que abrir a trilha e seguir sempre em frente, sem andar para trás nem se perder. Estamos juntos neste caminho.

Ontem fui à Bungu, uma de nossas vilas nas montanhas (a outra é Lutindi). A belíssima vila parece um retiro espiritual que esconde excelentes agricultores, hábeis para plantar em penhascos inclinados e para usar as nascentes de água para irrigar suas plantações. Mas ainda que pela descrição e pela paisagem Bungu pareça uma vila cheia de recursos, as montanhas também escondem pobreza.

O clima temperado de Bungu atrai muitas ONGs, que veem nas montanhas uma relativa facilidade para trabalhar e fazem promessas que muitas vezes não são cumpridas. Uma das cenas mais chocantes da Tanzânia são as pilhas de recursos desperdiçados que se amontoam em tantos cantos, dinheiro usado para comprar materiais que nunca construirão nada, ou máquinas que nunca serão usadas enquanto pessoas passam fome sem ter nada.
Muitos agricultores de Bungu decidiram, depois de perder tempo e energia com diferentes ONGs, não trabalhar mais com nenhuma organização. Dois destes agricultores estão em nosso grupo em Bungu.

Semana passada, Abby, Pei e Jessica, as coordenadores de projeto de Bungu, decidiram perguntar a estes dois agricultores o por que de, não querendo se associar a qualquer ONG, eles estavam trabalhando conosco. E a resposta imediata foi: porque vocês estão aqui todos os dias. E formaram um grupo de excelentes agricultores dispostos a correr riscos para alcançar resultados.

A principal diferença do modelo 2Seeds está nos relacionamentos, baseados em confiança, que somos capazes de formar com nossos parceiros. Em Bungu, nossas coordenadoras carregam baldes de água na cabeça montanha acima, sobem e descem ladeiras diárias para visitar todas as vilas e ouviram, de cabeça e coração abertos, os desejos dos agricultores. Deste trabalho nasceu um pequeno e promissor grupo, que recebeu treinamentos em negócios, conceitos básicos de economia e tomada de decisões. Nós não dissemos aos agricultores: você agora faz parte deste grupo. Nós dissemos: nós vamos te oferecer treinamento e informação para que você decida conscientemente se quer trabalhar conosco. Dos doze agricultores convidados inicialmente, um decidiu que o grupo não atenderia suas expectativas.

A despedida de Abby e Jessica, que partem em uma semana (Pei fica até junho) foi animada por muita música e pilau (arroz com especiarias que é sinônimo de festa na Tanzânia). Belos discursos, algumas lágrimas e muitos sorrisos celebrando os primeiros passos de um projeto que, acreditamos todos nós, nos levará longe.


Para saber mais sobre o Projeto Bungu (em inglês):

Kwakiliga – a água que (só) se vê nos olhos


Kwakiliga é o nosso mais antigo projeto, começado em 2009 por Sam (o diretor de desenvolvimento de projetos que trabalha comigo) e Jesse (arquiteto formado por Stanford que não faz mais parte da organização).

Por uma sucessão de razões, incluindo o fato e que começamos em Kwakiliga antes de a organização estar conceitualmente formada e ter a experiência necessária para formar projetos sólidos, muitos projetos foram iniciados e descontinuados em Kwakiliga sem que resultados concretos fossem obtidos. Conscientes disso, esta temporada decidimos consolidar o grupo de agricultores com o qual trabalhamos, que chamamos de Kikundi (grupo em Swahili), mantendo apenas os participantes dedicados ao grupo e dispostos a tomar decisões coletivas e seguir um caminho comum. E fomos muito cautelosos ao planejar nossos próximos passos.

Domingo fui visitar Kwakiliga e passar a noite sob a brisa e a escuridão da vila de terra vermelha. Quase todos os membros do grupo compareceram (e chegaram pontualmente) à reunião semanal, que além de servir para a troca de informações foi a despedida de Sarah, uma das coordenadoras de projeto que mora na vila e que volta aos Estados Unidos no final do mês.

Passamos os últimos nove meses trabalhando com nossos parceiros de Kwakiliga no desenvolvimento do plantio de girassol. Treinamentos, pesquisa de mercado, projeções de lucratividade e muito planejamento que agora espera pelas chuvas para se tornar real – estamos em meados de abril e as chuvas de março ainda não começaram.
Kwakiliga é seca, provavelmente a mais seca de todas as nossas vilas. Não há rio ou poço artesiano e a chuva tem sido mais inconsistente ano após ano. Nossos parceiros, pessoas muito especiais, são muito magros, têm a pele curtida de sol e mesmo trabalhando em terra dura permitem que seus olhos brilhem com a perspectiva do sucesso futuro.


As pessoas não choram na Tanzânia, acho que a vida já é muito difícil e as despedidas muito frequentes, com as baixas expectativas de vida e a necessidade dos filhos de se mudar para estudar ou trabalhar se desejarem ter alguma perspectiva.

Domingo, em Kwakiliga, a chuva não veio.

Domingo em Kwakiliga eu vi água brotar nos olhos dos membros do Kikundi e das coordenadoras de projeto pela despedida que se aproxima. Só me resta desejar que a água se multiplique e que os céus, compadecidos pelas lágrimas, chorem também e com suas lágrimas deem uma chance ao girassol para florir.


Para saber mais sobre o Projeto Kwakiliga (em inglês):

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Bombo dos corações quentes

Bombo Majimoto é uma das vilas em que temos projetos no vale (as outras são Magoma/Kijango e Kijungumoto). Eu já descrevi aqui no blog a maneira particular como Bombo foi selecionada e ressaltei minha conexão com aquela pequena e isolada comunidade mais de uma vez. Eu batalhei para que tivéssemos um projeto em Bombo e minha visita à vila esta semana provou que foi uma boa escolha.

Bombo recebeu três coordenadores de projeto; Shosh, Erin e Jake. Eles ajudaram um grupo de doze agricultores a se organizar e hoje eles cultivam pimentões verdes. O grupo, que em sua maioria jamais havia cultivado vegetais, recebeu treinamento sobre a preparação da terra, o cultivo e, principalmente sobre o planejamento do investimento, o processo de tomada de decisão e o acesso a mercados, além de um empréstimo para a compra de sementes, químicos e pagamento de transporte.
O projeto se baseia no cultivo de vegetais durante o período de seca, para que os vegetais cheguem ao mercado antes de este ser “inundado” por produtos resultantes da estação de chuvas – Bombo fica a cerca de 60km de Korogwe em uma área bastante isolada, então o transporte dos produtos durante as chuvas é inviável já que a estrada fica intrafegável. Além disso, pela lei de mercado, o preço dos vegetais cai quando, após as chuvas, a oferta é muito grande.

Este começo de semana fui a Bombo ver um dos treinamentos e visitar as shambas (sítios). Sr. Mbazi, o consultor em agricultura de Magoma e um dos melhores profissionais que já conheci na Tanzânia, ensinou os agricultores a colher, separar seus produtos por qualidade e  embalá-los. Depois do treinamento fomos a uma das shambas avaliar o desempenho do grupo e aprender na prática como identificar os pimentões que estão prontos para colheita. A shamba escolhida foi a de Mama Tatu (Mãe Três – sim, este é seu nome), uma agricultora que nunca havia plantado pimentões, mas aprendeu cada lição ensinada nos treinamentos e será a primeira a vender frutos no fim desta semana.


Depois do treinamento passei algum tempo conversando com Shosh, Jake e Erin e ao final da tarde fui visitar Mama Tatu e Mama Lukia, uma senhora doce que foi a primeira mama a me receber em Bombo, um ano e meio atrás, e com quem tenho uma conexão muito forte. Mas quem disse que eu as achei em casa?
Ao chegar nas casas fui informada de que todos haviam ido a suas shambas e ao seguir o mesmo caminho e atravessar o rio me deparei com Mama Tatu e Mama Lukia, cada uma trabalhando em sua terra. O trabalho não é leve e irrigar com baldes meio acre exige dedicação. Passei o fim de tarde ajudando Mama Lukia, que irrigava enquanto seu marido aplicava inseticida, e juntas conseguimos finalizar um terço do sítio. Mama Lukia e seu marido não são mais crianças e o esforço era visível em seu semblante, enquanto ela me dizia “é pesado, mas eu não vou fracassar, nós vamos conseguir” para então me perguntar “você acha que a gente vai conseguir?”, pergunta que sempre terá um sim convicto (ou nem tanto) como resposta.

Claro que nem todos os agricultores estão em dia com suas shambas, como é o caso de Kasimu, um jovem que vive a dez passos de sua terra e ainda assim não se dedica ao projeto com a intensidade necessária. Mas o brilho no olho de Mama Tatu ao ter sua shamba sendo usada como exemplo e ao receber os muitos parabéns de todos nós pelo seu excelente trabalho mostra que o caminho está certo, e que para os que não tem medo de sol e trabalho duro há um caminho sendo desenhado pelas enxadas.

A noite acabou com Mama Lukia me preparando um banquete, muito acima de suas possibilidades, com ugali (pasta de milho), quiabo, feijão e laranja para sobremesa. Um jantar em família à luz do lampião de querosene que me aqueceu o coração e manteve a tradição de Bombo Majimoto – não apenas uma terra de água quente, como sugere o nome, mas de corações quentes e, agora, de oportunidades.


Para saber mais sobre o Projeto Bombo Majimoto (em inglês):
http://www.2seeds.org/bombomajimoto/
http://thebombomajimotoproject.wordpress.com/