domingo, 11 de maio de 2014

Por trás de toda tempestade se esconde um céu azul

Hoje é domingo, Sunday Funday como dizemos aqui (instituímos este dia para que tenhamos uma folga durante a semana, senão acabamos trabalhando sem parar).  Então eu não deveria estar trabalhando, mas é época de transição e preciso preparar o novo grupo de coordenadores de projeto para continuar o trabalho de seus antecessores enquanto preparo os antecessores para voltar pra casa e os parceiros para seguir adiante.

As coisas às vezes se complicam por aqui, para ser honesta mais com a sede da 2Seeds nos EUA do que com o trabalho na Tanzânia. Então às vezes me sinto no olho da tempestade e me canso de tentar explicar os mesmos conceitos tantas e tantas vezes. Estou no meio de um desses momentos.


Todo ano, dois coordenadores de projeto que se destacaram como líderes e profissionais, são escolhidos para ficar aqui um segundo ano, trabalhando comigo na administração do network como um todo e dando suporte aos coordenadores de projeto e aos parceiros. Este ano, os escolhidos foram Hailes e Cam, e estou começando a apresentá-los para as comunidades com que eles trabalharão. Sendo assim, hoje levei Cam a Tabora, projeto que estará sob sua responsabilidade a partir de agosto.


Confesso que estava com preguiça de passar a manhã em Tabora, ando cansada, mas o tempo é curto e preciso fazer o meu melhor sempre. Assim fomos tomar café-da-manhã com as oito mulheres e duas coordenadoras que formam o Projeto Tabora. Em Tabora, oito mulheres de personalidade forte e alma empreendedora produzem comida embalada (como batatas-fritas, amendoim com canela e pipoca) e vendem em Korogwe e Dar es Salaam. Além de geração de renda, um dos focos do projeto é nutrição, já que todas as mulheres são mães buscando comidas melhores para seus (muitos) filhos. O trabalho acontece em uma cozinha de bambu, que construímos com as mulheres e com a ajuda de parceiros de Kwak. E nossa reunião foi ali.

Mama Tabia com sua netinha Rehema (que está com malária), Mama Kitojo com seu barrigão de 8 meses de gravidez, Mama Eggie com seu jeito conciliador, Mama Salome com uma aparência muito mais saudável (ela costumava ser magra demais), Mama Asha com sua risada alta, Mama Mudi que anda mais presente e Mama Mwaliko com a pequena Hali ya Hewa (nascida há um mês) no colo – todas nos esperando com chai e chapati (chá e panquecas). A oitava mulher, Mama Hasani, havia ido à feira em outra vila comprar suprimentos.

Hali ya Hewa, pequenina e toda embalada em casacos e cobertores já que aqui há sempre o medo de as crianças ficarem doentes, me foi imediatamente entregue. A neném suava com suas sobrancelhas desenhadas à lápis para evitar mau-olhado (costume da Tanzânia).

Primeiro comemos, sempre um momento importante em uma comunidade que ainda vive a fome, ao som das risadas e brincadeiras  daquele grupo de mulheres que hoje encontrou sua identidade e tem um ar tão contagiante de triunfo que se manifesta com a repetição constante de “Wanawake wanaweza” (algo como “mulheres são capazes” ou “mulheres podem”). Foi então que as mulheres começaram a se apresentar, dizendo seus nomes, se autodenominando mulheres de negócios ou empreendedoras, e explicando seu papel dentro do grupo. A cada palavra meus olhos brilhavam, especialmente nos momentos em que ouvia “eu cuido da contabilidade e calculo lucro, custos e renda”,“eu cuido da nossa linha de produtos calculando o ROI e analisando prós e contras”, “eu cuido do relacionamento com os compradores”, ou ainda “eu marco quem está trabalhando e quem não está e procuro quem está faltando”.

A cada rodada de palavras, as mulheres falavam de sua história como grupo, dos momentos em que estavam tendo prejuízo e faziam as coisas sem pensar e sem saber o que estavam fazendo. De como quando começamos os treinamentos em negócios e empreendedorismo elas pensaram que estavam velhas demais pra aprender, que não dariam conta, e que seria mais uma série de treinamentos que não mudaria suas vidas (risos para Mama Tabia dizendo “kitchua kimeexpire”, algo como “a cabeça já passou do prazo de validade”). E foram seguindo, comentando os conceitos que aprenderam, falando de como vão seguir em frente até chegar a Maisha Bora (vida de qualidade).

Eu ouvia as vozes entusiasmadas, lembrava dos momentos de desencanto e fome que as vi passar e olhava para Hali ya Hewa nos meus braços pensando “esta menina vai viver em Maisha Bora”.


É difícil explicar o orgulho que senti hoje, vendo nossas parceiras de Tabora no controle de suas vidas e as coordenadoras de projeto de Tabora sentindo que fizeram a diferença e que cresceram. Comprovou que a estrutura que temos desenvolve capital humano e cria oportunidade para as pessoas serem o seu melhor.

São muitas as coisas que não tenho por ter decidido, há quatro anos, ficar aqui – algumas delas talvez eu nunca venha a ter, e são coisas importantes. Hoje, em Tabora, eu senti que vale a pena e o céu ficou azul. :)

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

2013 - um ano de realizações

2013 se encerra esta semana e nada mais justo do que fazer um balanço deste ano que foi tão importante para nosso trabalho aqui na Tanzânia enquanto nos preparamos para receber 2014.

2013 foi um ano de muitas realizações, o ano em que nosso trabalho tomou forma e ganhou cores e em que todos os envolvidos se complementaram para que alcancemos a tão sonhada Maisha Bora. Algumas de nossas pequenas vitórias:

  • O Projeto Bungu se consolidou com um ambicioso plano financeiro: pagamentos individuais mensais de pelo menos TZS15.000 (~US$9,5) que cobrem os custos de produção contínua e formam uma poupança para o grupo, que será responsável por se gerenciar financeiramente a partir de setembro de 2014;
  • O Projeto Kwakiliga, depois de 3 anos de seca e fome, iniciou e consolidou a criação de galinhas e formou uma poupança de mais de TZS1.000.000 (~US$625) que pagará parcialmente um novo ciclo de produção de ovos com a compra de 300 novas galinhas em janeiro. Coleta de água da chuva, irrigação por gotejamento e reflorestamento seguem firmes e fortes ao redor dos galinheiros;
  • O Projeto Tabora consolidou a sua produção com entregas rotineiras de pacotes de batatas fritas às lojas de Korogwe, além de expandir sua linha de produtos com amendoim doce, pipoca doce e frutas secas. As mulheres de Tabora também construíram um fogão de barro para reduzir o consumo de lenha;
  • O Projeto Lutindi fez uma grande venda de repolhos e pimentões no Kariakoo Market, o maior mercado da Tanzânia, e os agricultores focaram no pagamento de seus empréstimos para que evitemos dependência financeira;
  • O Projeto Masoko colocou o sistema de coleta e disseminação de preços no mercado Kariakoo em funcionamento e toda a operação tem sido seguida de forma extremamente eficiente pelos funcionários do mercado, incluindo um ambicioso plano de expansão para os próximos 6 anos e o mapeamento de todos os vendedores de frutas e vegetais;
  • O Projeto Kijungumoto focou em educação prática e garantiu que os agricultores tenham acesso às melhores práticas de gestão de negócios para que oportunidades surjam de suas pequenas hortas individuais;
  • O Projeto Bombo Majimoto ajustou seu ciclo de produção para melhor uso de dois de seus maiores recursos: acesso constante a água e bombas de irrigação. Os agricultores focaram em reduzir seus débitos para que em 2014 um novo ciclo de produção se inicie;
  • O Projeto Magoma, sempre minha casa, focou em integração de disciplinas e em permitir que diferentes parceiros foquem em suas áreas de expertise. Um grupo de pais se uniu ao projeto, a aprovação dos alunos nos exames nacionais (ao fim da sétima série) subiu de 21% para 98,6% em Kwata e os estudantes comeram no mínimo duas vezes por semana em ambas as escolas. Kwata e Kijango fecham o ano com dinheiro em caixa para cobrir os custos das refeições na escola até maio.
Pensando na organização como um todo e em todas as coisas que fazemos para fortalecer o network:
  • Nosso treinamento em negócios e empreendedorismo está arrasando e nossos parceiros estão prontos para se autodefinir pessoas de negócios;
  • O TZ Advisory Council, conselho formado por um parceiro de cada projeto, se mostrou pronto para exercer liderança de base e para engajar com a liderança dos EUA;
  • A capacitação profissional de nossos parceiros baseada em seu potencial para cada projeto está indo muito bem e construindo liderança baseada em mérito.
Assim fecha-se o ano de 2013, nos deixando aqui com desejo de quero mais, de conquistar Maisha Bora. Que venha 2014 com novas oportunidades para deixar a fome pra trás!





segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Destino: Maisha Bora

Trabalhando com agricultores de subsistência aqui na Tanzânia existe uma grande necessidade de tradução de conceitos - em idioma e cultura. Swahili, Kisambaa, Kizigua, Inglês, Português - as línguas de misturam, os pensamentos se confundem, as frases se formam em ziguezague. Assim, uma das ferramentas que uso para me fazer entender e para garantir que todos se entendam é a criação de analogias, que surgem em minha cabeça espontaneamente durante reuniões e conversas e divertem a mim, a PCs a aos parceiros Tanzanianos.

Minha analogia preferida começou a se formar em 2011 e foi crescendo, ganhando detalhes e se tornando a tradução do que fazemos aqui, dos objetivos de todos os membros da nossa rede, da nossa integração. Antes que eu possa explicá-la, preciso que o significado de Maisha Bora seja entendido. Maisha Bora, em Swahili, traduz literalmente como "Vida Qualidade". Maisha é a vida no sentido de dia-a-dia, a vida que vivemos e Ubora é o substantivo para qualidade, sendo Bora o adjetivo usado para descrever a alta qualidade de um produto ou de uma ação, tanto de forma absoluta, quanto em comparação a outros. Por exemplo: Um garçom chega à mesa e oferece três marcas de água. Ao escolher, o freguês pede água Kilimanjaro e diz "Ni bora zaidi" (é mais qualidade). Outro exemplo seria Kilimo Bora - Agricultura Especializada - o termo usado para agricultura com sementes tratadas e técnicas apuradas.

Destino: Maisha Bora

Nós, membros da rede da 2Seeds, estamos todos batalhando juntos para chegar a Maisha Bora. No momento em que nos tornamos membros da rede, do network, entramos no ônibus e iniciamos viagem. Trata-se de um ônibus Tanzaniano, como Burudani (minha companhia favorita de ônibus, que me leva a Magoma e a Kwakiliga), então não há limite de passageiros - sempre cabe mais um. A viagem não será fácil: a estrada é esburacada e longa, o ônibus precisa de manutenção e os passageiros vão precisar desatolá-lo ou comer poeira em alguns trechos (em minha cabeça é um ônibus Flintstones, e são nossas pernas que o fazem mover, mas ninguém aqui os conhece).

Para que possamos viajar é preciso que concordemos e planejemos o caminho a seguir (aqui entra gerenciamento de projetos e planejamento). Há muitos caminhos levando ao destino porém se cada passageiro tentar ir em uma direção ficaremos estagnados discutindo ao invés de mover-nos. E como em qualquer viagem, precisamos de um plano e de um mapa, para que chequemos no caminho se estamos na direção certa ou se precisamos acelerar (aqui entram metas e medição de resultados).

Quando novos parceiros são adicionados aos grupos ou novos coordenadores de projetos chegam à Tanzânia, eles chegam ao ponto de ônibus, mas como estamos na Tanzânia e não queremos perder velocidade, o ônibus reduz a velocidade mas não pára e temos que estender os braços para fora para ajudá-los a subir (aqui entram os períodos de transição com a troca anual de coordenadores de projeto e a necessidade de ajudá-los ativamente a entender os projetos e se acostumar ao ambiente).

Maisha ni safari ndefu (a vida é uma longa viagem). Por isso precisamos nos revezar ao volante e todos precisam aprender a dirigir o ônibus (aqui entra liderança distribuída). E como a viagem é comprida e ao chegarmos ao destino queremos nos estabelecer, é preciso que adquiramos no caminho um estoque de comida e bens, como as laranjas que são vendidas à janela do ônibus (aqui entram os conceitos-chave ensinados nos treinamentos e a necessidade de melhorarmos nossa capacidade e conhecimento).


Essa analogia simples e divertida é hoje a melhor definição de nosso trabalho como organização. Nós vivemos e trabalhamos com as pessoas que queremos ajudar, desenvolvemos capital humano e aprimoramos a capacidade de todos os envolvidos, encarando a vida como um caminho e as parcerias que formamos como o combustível que nos movimenta. Focamos em resultados, sempre lembrando que os meios importam tanto quanto os fins, e compartilhamos o sonho comum de proporcionar escolhas, para nós e para nossos parceiros.

Bem-vindos à estrada!


Colleen, Coordenadora de Projeto Senior, relembrando nossa metodologia em Tabora (thetaboraproject.wordpress.com).

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O noivado de Maria

Algumas semanas atrás fui a meu primeiro noivado na Tanzânia. Noivados não são muito comuns e são uma coisa de família, como um acordo. Por isso (e por não saber nem que ela estava pensando em casamento) fiquei surpresa quando Maria, minha amiga tanzaniana com quem dividi a casa em Magoma em 2010, me convidou para seu noivado.

A festa foi em Handeni, duas horas distante de Korogwe, e lá fui eu com minha saia de festa em um domingo de muito sol. Handeni é um pedaço de caatinga, planície sem fim e sem água povoada por tribos nômades, que esbanja sol e calor.

Cheguei sem saber muito bem o que esperar e fui recebida por uma família sorridente que conheci em outubro de 2010 durante um funeral de 7 dias de que participei para apoiar Maria – até hoje tenho meu vestido branco com a “estampa da família” que fizeram para mim no funeral. Naquela época eu mal falava Swahili e fiquei muito próxima à família através de mímica e sorrisos. Foi bom vê-los novamente agora que posso entender o que é dito à minha volta.

Esperamos ali pelo noivado, Maria no quarto se arrumando e os convidados espalhados pela casa. De repente chegou a família do noivo, sem o noivo, dançando e carregando presentes como trazendo presentes para o rei. Apresentaram-se todos os membros importantes de cada família (inclusive eu), o que totalizou umas 50 pessoas. Daí em diante eu não sabia o que esperar, então observei.

Os homens mais velhos/importantes de ambas as famílias começaram e conversar e eu pude perceber que havia algum desentendimento acontecendo. Quando eles pediram licença do salão e foram discutir privadamente, eu me atualizei sobre os fatos: na Tanzânia, a família do noivo paga o dote à família da noiva para que o noivado aconteça. A família de Maria pediu TZS500,000 (cerca de US$313), mas a família do noivo não trouxe o valor total (ai que bafão!).

Comecei a olhar com um pouco de desdém para a família do noivo que estava barganhando o “preço” da minha amiga (que eu achei uma barganha, ora veja) e busquei na expressão das pessoas a resposta para aquela situação: isso acontece sempre ou é deselegante? É parte do processo?
Como eu estava sentada com a mãe e tias da noiva, começamos a debater, as surpresas indo de um campo a outro como em um jogo de vôlei-cego:

Eu perguntei a elas o que aconteceria se o noivo não pagasse e elas disseram que ele pagaria. Aí perguntei como seria se duas pessoas se gostassem e a família do noivo não tivesse dinheiro, elas disseram que o casamento aconteceria sem pagamento, mas que a noiva estaria fazendo uma escolha arriscada já que o casal não teria condições de se manter no futuro. Elas me perguntaram qual é o valor do dote no Brasil e eu disse que não temos dote (choque). Eu perguntei o que acontecia quando os casais se separavam e elas se espantaram e devolveram a pergunta pedindo detalhes sobre divórcio no Brasil. Aí eu entrei no assunto de famílias formadas por filhos de diversos casamentos e elas não puderam esconder sua indignação “quer dizer que você se separa de um homem e tem filho com outro?!” (não que aqui na Tanzânia as pessoas não tenham filhos fora do casamento). E assim a conversa foi, o choque cultural nos fazendo rir pela realização constante de que tudo é uma questão de perspectiva.

Depois de meia-hora os homens voltaram ao salão e decidiram continuar com a festa. Assim a família do noivo foi buscá-lo (ele estava no carro durante todo o tempo) e o trouxeram com música, mais presentes, mais dança e os tradicionais gritos tanzanianos, que fazemos batendo a língua no céu da boca. Então foi a vez de Maria aparecer, toda bonita e tímida, e assim se deu o pedido e o noivo colocou a aliança de compromisso no dedo da minha amiga.

Aqui festas sempre acabam com comida e a noiva foi a primeira a se servir para ser imediatamente retirada do salão, de volta a seu quarto – a família da noiva gritou para todos que ela não sairia do quarto até o fim fazendo piada com o fato de o noivo ainda não ter pago o dote – o bom-humor tanzaniano...

Meu status de amiga da noiva (e celebridade na Tanzânia) me permitiu tirar uma foto com o casal, no cantinho da casa, e algumas fotos dos dois juntos. Maria estava contente em me mostrar seu HB (handsome boy) e eu fiquei sabendo que as famílias não se conheciam até aquele momento – a mãe da noiva nunca havia encontrado  o futuro genro até aquele momento.

Ao final fui perguntar quais seriam os próximos passos e descobri que a família do noivo havia concordado em trazer o restante do dote em duas semanas. A família da noiva, claro, tinha um pouco de sarcasmo em seus comentários, dizendo que a família do noivo deveria ter conversado com eles antes da festa, para que aquela situação fosse evitada. E eu me dividia entre rir de toda a situação e pensar com meus botões que minha amiga estava muito barata enquanto me reprimia ao perceber que estava aceitando rapidamente demais a ideia do pagamento (se o dote fosse maior tudo bem?!).


A família do noivo deve ter cumprido com seu compromisso já que os preparativos para o casório continuam. O bota-fora da Maria será em dezembro (a família da noiva organiza um bota-fora para ela já que quando ela se casa, ela se junta à família do marido). Recebi meu convite para o bota-fora e tenho que preparar a minha contribuição, que posso mandar por banco-telefônico, uma das maravilhas da vida em um país onde as pessoas não têm conta-bancária.

Vida longa a Maria e Fredy!
 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Samahani, nimepotea

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Em Swahili dizemos “Umepotea sana!” (você se perdeu muito! = você sumiu!) quando vemos uma pessoa que não víamos há tempos. Hoje passo por aqui para dizer “Samahani, nimepotea” (desculpem, eu me perdi) e para atualizá-los sobre tudo que estamos vivendo aqui na Tanzânia.

Os meses de maio a outubro são os mais malucos para mim já que englobam a transição entre times de coordenadores de projetos. Para não enfraquecer nossos projetos e relacionamentos com parceiros locais, eu sou a principal responsável por garantir que a maioria dos déficits de informação seja preenchida e que o trabalho siga de acordo com o plano. Com isso, os dias têm sido longos e as visitas aos projetos muitas (para minha felicidade; segredo nosso ;).


Assim, agora de volta e com a meta de um post por semana, tenho muito para escrever, tanto em experiências pessoais como profissionais. Para começar vou contar a estória de nosso querido Mzee Rubeni, para quem se lembra do doce solteirão de Kwakiliga, que vivia solitário por não ter uma esposa (http://maquinadedesencalharbaleias.blogspot.com/2013/05/apresentando-mzee-rubeni.html).

A boa notícia é que Mzee Rubeni se casou! Verdade que foi meio que de surpresa, meio que escondido, mas não consigo esconder minha satisfação ao vê-lo chegar às reuniões com camisas floridas e sorriso no rosto, atrasado como quem perde a noção do tempo quando está em casa. Mama Rubeni é uma senhora de uma vila próxima, que tem seis filhas adultas e casadas e por isso também se sentia só – na Tanzânia as mulheres se incorporam à família do marido quando se casam então acabam mais distantes da própria família.

Como o casal se conheceu eu não sei; com medo de uma grande festa, maior que suas posses, Mzee Rubeni manteve segredo sobre o plano até a véspera do casório e eu mesma só pude comparecer à sua casa à noite, quando os convidados já haviam partido.
Confesso que a lembrança de Mzee Rubeni com seu chapeuzinho muçulmano e roupas brancas, dentes faltando no sorriso, e a esposa em roupa de festa, suando com o calor da planície, meio sem saber o nome do vilarejo em que estava, me alegra até hoje.


Fico pensando em que escala a participação de Mzee Rubeni no Projeto Kwakiliga e seu sucesso nas atividades do grupo (como a criação de galinhas), viabilizaram seu casamento. Tenho a sensação de que de alguma forma ele se sentiu mais qualificado para ter uma família por não ter que se preocupar tanto com a fome.

Ontem, tivemos uma reunião em Kwak, na qual o doce Mzee Rubeni levantou a preocupação sobre o destino de sua esposa no caso de sua morte – ele queria saber se ela herdaria seu lugar e poderia continuar com o trabalho do grupo. Brinquei, como sempre, dizendo que membros da 2Seeds não são autorizados a morrer e que nós não aceitaríamos que ele quebrasse este acordo. Entre risadas, tivemos uma discussão em família sobre os caminhos a seguir e o compromisso de ajudarmos uns aos outros.
Vida longa ao casal e às galinhas! (all we need is love!)


Pp. Como estamos na Tanzânia, a honestidade é uma virtude crua. Em pleno casamento (ou tecnicamente no que seria a noite de núpcias) Mzee Rubeni, em frente à Mama Rubeni, se sentiu na obrigação de me explicar que como Mama Mwaka o rejeitou (ele havia sido casado com a sobrinha dela) ele decidiu se casar com outra pessoa, bonita e de pele clara, apontando para Mama Rubeni. Minha pele quase branca ficou vermelha por um segundo, antes de eu me lembrar que estamos na Tanzânia e que Mama Rubeni, a suposta parte ofendida, estava a seu lado sorrindo e agradecendo a Deus pela nova vida. Ah, o charme tanzaniano...




sábado, 18 de maio de 2013

Adeus Mzee Sangoti

Desde que cheguei à Tanzânia fui a muitos funerais. Não sei se por as pessoas morrerem mais aqui ou se pelo fato de em comunidades pequenas cada morte fazer parte da sua estória (provavelmente um pouco de cada). Alguns funerais foram muito tristes, mães deixando filhos pequenos, pais, mães, avós, irmãs, filhas e cunhadas de amigos que amo, mas nunca tive que encarar a despedida de um parceiro e amigo, um dos líderes da 2Seeds, alguém que conheço bem e que esteve ao meu lado nos últimos 3 anos.

Hoje não só eu, mas Bungu, o nosso network e o mundo se despedem de Mzee Sangoti. Mzee Sangoti que nos guiou, comemorou nossas vitórias e nos apoiou nas quedas e com quem eu gostaria de escrever muito mais estórias, de dividir os sucessos futuros de nossos agricultores e de ter mais tempo e mais conversas pra compartilhar.

Mzee Sangoti era um líder em sua comunidade, gerente da cooperativa de chá, líder da igreja, pai de muitos filhos, incluindo um bebê que nasceu no fim do ano e que ele se dividia entre orgulho e surpresa por ter gerado meio que fora do tempo, quando já pensava não ser possível. Mama Sangoti, sua esposa, perde seu suporte e por algum tempo eu sei que perderá seu sorriso alto e barulhento, que eu espero que volte a alegrar as montanhas algum dia.

Mzee Sangoti, eu e todos que te conheceram vamos sentir saudades. Que você encontre agora o paraíso que sempre acreditou existir e para o qual garantiu entrada ao longo da sua vida. Do meu lado eu guardo o que aprendi com você e os pedacinhos seus que vejo a cada dia que subo as montanhas, em cada canto. Hoje além das chuvas, Bungu terá lágrimas...


sexta-feira, 17 de maio de 2013

Quando tudo é possível

Quando mandioca foi comida por cupins nos campos de Kwak e nossa alternativa mais resistente se transformou em cascas ocas que se desintegravam em nossas mãos eu tive que me recompor, olhar em frente e lembrar que em minha oportunidade de trabalhar diretamente com a comunidade de Kwakiliga fracasso não era uma possibilidade. Sim, porque eu vivo em Korogwe (não em Paris) e como ugali com as mãos (não comida baiana) para fazer a diferença, para mudar o mundo, para proporcionar alternativas a quem não as tem.

Ontem eu visitei Kwak e ouvi Mzee Mcharo falar de sua vergonha a cada encontro que fazíamos em Korogwe, quando todos os projetos tinham algo para mostrar enquanto Kwakiliga era só fome, seca e lamento. Foram três anos de reuniões, três anos de lamento.

Ontem eu também ouvi, não apenas de Mzee Mcharo, mas também de Mzee Adamu, estórias sobre pessoas indo visitar Kwakiliga para ver os galinheiros e a "mudança climática" que estamos promovendo com o sistema integrado e a floresta que estamos plantando.

Ontem eu os ouvi sonhar em voz alta e viver seus sonhos.

Nossos três galinheiros agora têm verduras, frutas e legumes plantados a seus redores cercados com bambu e arame - provavelmente as únicas cercas existentes na vila - para manter as cabras longe dos frutos (galinhas e cabras ganharão as folhas).

Ontem Mzee Mcharo falava de seu orgulho e de como ele mal pode esperar para receber os parceiros dos demais projetos em Kwak e mostrar o trabalho do grupo. Ele me contou uma estória sobre a diferença que o amor faz e como as galinhas vão bem pelo carinho que eles têm por elas.
Ontem Mzee Adamu falava de como sua casa é agora um exemplo para toda a Tanzânia e de como sua terra, na área mais maltratada e menos verde de Kwak, vai ser diferente.
Ontem Mama Mwaka ouviu que está trabalhando demais, que ela não precisa ir cuidar das galinhas todos os dias antes da 6 da manhã, mas que ela está arrasando.
Ontem Mzee Rubeni fazia cafuné na cabeça das galinhas e emendava dizendo que eles vão construir os poleiros para produção dos ovos com as próprias mãos já que eu trazendo o design eles podem construir qualquer coisa (algum dia eles vão desenvolver o design também).
Ontem Mama Halima falava de como as galinhas seguem nossas vozes por sentirem nosso amor e quererem estar perto da gente.
Ontem nós começamos a planejar um sistema de colheita de água, de baixo custo e feito com materiais locais, para que o verde em Kwak não varie com as chuvas (um objetivo antigo que não imaginávamos concretizar em muitos anos).

Fica difícil explicar as razões pelas quais viver tudo isso é especial. Ver o reverso do lugar comum em que tudo dá errado e viver um momento em que tudo dá certo aqui na Tanzânia é muito raro, dá até um certo medo de celebrar demais. Claro que temos desafios à frente, mas neste momento eu digo sem medo que estamos criando uma realidade em Kwak onde problemas podem ser resolvidos e pessoas os resolvem. Pela primeira vez, problemas são apenas isso, problemas, destinados a ter soluções.

É mágico ver tantas vidas ganhando significado, especialmente quando a sua é uma delas.