As I search for myself, I found a piece of me that was missing for some time. Time to start writing again. Máquina de Desencalhar Baleias is back.
sexta-feira, 26 de junho de 2026
terça-feira, 22 de julho de 2014
Um muito de trabalho, um pouco de estrada
Hoje escrevo um post mais pessoal. A máquina carrega meu trabalho e meus sonhos e quase sempre escrevo sobre o trabalho e os sonhos relacionados a ele, mas neste momento estou viajando pelo sul da África e vivendo o continente de um jeito diferente.
Desde que cheguei à Tanzânia, passei a maior parte do meu tempo trabalhando, de domingo a domingo, sempre com férias muito curtas para ir ao Brasil e lembrar aos meus amigos e famílias que estou viva. Isso não mudou, ainda trabalho muito, de domingo a domingo, e estive no Brasil em maio para lembrar aos amigos e a família que estou viva. Mas o bacana é que no final deste ano (anos da 2Seeds começam em agosto e terminam em julho) tirei duas semanas para viajar com Monique, a amiga brasileira que voluntariou no Projeto Masoko por um ano e que agora segue em volta ao mundo para finalizar seu sabático.
Neste momento escrevo de Kasane, Botswana, fronteira quádrupla entre Botswana, Namíbia, Zâmbia e Zimbabwe. Já passamos por Maputo (Moçambique), Victoria Falls (Zimbabwe) e Livingstone (Zâmbia). Amanhã seguimos para a Namíbia dirigindo um carro 4x4 :).
Este roteiro se soma a viagens ao Kenya (leste da África, norte da Tanzânia), Malawi (sul da África, sul da Tanzânia), Egito (norte da África) e Rwanda (leste da África, oeste da Tanzânia) que, juntamente com a própria Tanzânia, são os países pelos quais viajei por aqui.
Estou feliz. Neste momento escrevo do pátio do hotel com o rio Chobe à minha frente. Há cinco minutos olhei para o lado e vi dois pumbas, se coçando nas pedras que beiram a cerca do hotel; assim, sem nem ligar para minha presença e eu (quase) sem ligar para a presença deles (confesso que tirei uma foto).
Para dividir um pouco de tudo que estou vivendo, seguem alguns highlights desta viagem. Muitos outros virão!
De Moçambique à Botswana:
- Com uma bolha no pé de tanto caminhar em Maputo, fui à farmácia comprar um band-aid, só pra descobrir que no português de Moçambique não existe band-aid, o nome é pense-rápido. Ônibus se chama chapa e seis não é meia-dúzia (ninguém entende quando dizemos “meia” para o número seis);
- Ao final da última noite em Maputo achamos uma casa de dança de salão chamada Face2Face. Zouk, Kizomba, Pasata e mais uma porção de ritmos que me fizeram trançar as pernas e dar muita risada. Em algum momento tocou Zeca, Deixa a Vida me Levar. Acho que estou deixando;
- A passagem pela ponte das Cataratas Victoria (maiores cataratas do mundo, Mosi-oa-Tunya significando “A fumaça que trovoa” em Tokaleya Tonga, língua local) me levaram os óculos escuros e a sanidade da máquina fotográfica, que desde que tomou um jato sólido de água tem vontade própria e fotografa e filma à minha revelia. Mas minha foto sorrindo debaixo d’água mostra minha alma vivendo as cachoeiras como criança que toma sorvete. O voo de helicóptero por cima das cataratas com famílias de elefantes espalhadas pelas ilhas do rio Zambezi completou a experiência inesquecível;
- Cruzar a fronteira do Zimbabwe me deu a refeição mais local que consegui encontrar até agora: sadza (o mesmo que ugali, uma pasta de milho branco com água sem nenhum tempero) com uma mistura de vegetais em molho de amendoim. Eu comi como se deve, com as mãos. E ao olhar para o lado vi todos os garçons sorrindo e curtindo o que provavelmente foi uma das únicas turistas que eles viram capaz de manejar os dedos com a mesma habilidade do garfo e faca;
- Depois de cruzar a fronteira de saída da Zâmbia e caminhando para cruzar o posto de entrada em Botswana, Monique e eu fomos surpreendidas por uma família de elefantes cruzando a rua à nossa frente. Foi uma sensação maluca ver dois elefantes adultos e dois filhotes, a cerca de 50 metros da gente, nos olhando com a mesma curiosidade que olhávamos pra eles;
- Hoje, indo para um passeio ao nascer do sol na reserva de Chobe, uma hiena cruzou a estrada logo à nossa frente na saída da cidade. Na volta foi a vez de três elefantes adultos que ainda passaram um tempo admirando a paisagem enquanto bloqueavam a passagem de todos os carros. Aqui as pessoas e os animais efetivamente dividem o espaço (vide os pumbas circulando o hotel);
- Ontem, depois do jantar, sentamos no pontão à beira do rio. Ao lado, um cartaz dizia: “Você está sob sua responsabilidade. Cuidado com hipopótamos e crocodilos”. Existe maneira melhor de fechar a noite?
Agora, enquanto finalizava este post, recebemos o carro 4x4 que alugamos para seguir viagem. Toyota Hilux novinho, com apenas 6.000km rodados, que será nosso companheiro até Windhoek, na Namíbia.
Amanhã o sol nos trará novas estradas. Minha alma mal pode esperar!
domingo, 11 de maio de 2014
Por trás de toda tempestade se esconde um céu azul
Hoje é domingo, Sunday Funday como dizemos aqui (instituímos este dia para que
tenhamos uma folga durante a semana, senão acabamos trabalhando sem
parar). Então eu não deveria estar
trabalhando, mas é época de transição e preciso preparar o novo grupo
de coordenadores de projeto para continuar o trabalho de seus antecessores
enquanto preparo os antecessores para voltar pra casa e os parceiros para seguir adiante.
As coisas às vezes se complicam por aqui,
para ser honesta mais com a sede da 2Seeds nos EUA do que com o trabalho na
Tanzânia. Então às vezes me sinto no olho da tempestade e me canso de tentar
explicar os mesmos conceitos tantas e tantas vezes. Estou no meio de um desses
momentos.
Todo ano, dois coordenadores de projeto que
se destacaram como líderes e profissionais, são escolhidos para ficar aqui um
segundo ano, trabalhando comigo na administração do network como um todo e
dando suporte aos coordenadores de projeto e aos parceiros. Este ano, os
escolhidos foram Hailes e Cam, e estou começando a apresentá-los para as
comunidades com que eles trabalharão. Sendo assim, hoje levei Cam a Tabora,
projeto que estará sob sua responsabilidade a partir de agosto.
Confesso que estava com preguiça de passar
a manhã em Tabora, ando cansada, mas o tempo é curto e preciso fazer o meu
melhor sempre. Assim fomos tomar café-da-manhã com as oito mulheres e duas coordenadoras que formam
o Projeto Tabora. Em Tabora, oito mulheres de personalidade forte e alma empreendedora produzem comida embalada (como batatas-fritas, amendoim com
canela e pipoca) e vendem em Korogwe e Dar es Salaam. Além de geração de renda,
um dos focos do projeto é nutrição, já que todas as mulheres são mães buscando
comidas melhores para seus (muitos) filhos. O trabalho acontece em uma cozinha de bambu, que
construímos com as mulheres e com a ajuda de parceiros de Kwak. E nossa reunião
foi ali.
Mama Tabia com sua netinha Rehema (que está com malária), Mama Kitojo
com seu barrigão de 8 meses de gravidez, Mama Eggie com seu jeito conciliador,
Mama Salome com uma aparência muito mais saudável (ela costumava ser magra
demais), Mama Asha com sua risada alta, Mama Mudi que anda mais presente e Mama
Mwaliko com a pequena Hali ya Hewa (nascida há um mês) no colo – todas nos
esperando com chai e chapati (chá e panquecas). A oitava
mulher, Mama Hasani, havia ido à feira em outra vila comprar suprimentos.
Hali ya Hewa, pequenina e toda embalada em
casacos e cobertores já que aqui há sempre o medo de as crianças ficarem
doentes, me foi imediatamente entregue. A neném suava com suas sobrancelhas
desenhadas à lápis para evitar mau-olhado (costume da Tanzânia).
Primeiro comemos, sempre um momento
importante em uma comunidade que ainda vive a fome, ao som das risadas e
brincadeiras daquele grupo de mulheres
que hoje encontrou sua identidade e tem um ar tão contagiante de triunfo que se
manifesta com a repetição constante de “Wanawake
wanaweza” (algo como “mulheres são capazes” ou “mulheres podem”). Foi então
que as mulheres começaram a se apresentar, dizendo seus nomes, se
autodenominando mulheres de negócios ou empreendedoras, e explicando seu papel
dentro do grupo. A cada palavra meus olhos brilhavam, especialmente nos
momentos em que ouvia “eu cuido da contabilidade e calculo lucro, custos e
renda”,“eu cuido da nossa linha de produtos calculando o ROI e analisando prós
e contras”, “eu cuido do relacionamento com os compradores”, ou ainda “eu marco
quem está trabalhando e quem não está e procuro quem está faltando”.
A cada rodada de palavras, as mulheres
falavam de sua história como grupo, dos momentos em que estavam tendo prejuízo
e faziam as coisas sem pensar e sem saber o que estavam fazendo. De como quando
começamos os treinamentos em negócios e empreendedorismo elas pensaram que
estavam velhas demais pra aprender, que não dariam conta, e que seria mais uma série
de treinamentos que não mudaria suas vidas (risos para Mama Tabia dizendo “kitchua kimeexpire”, algo como “a cabeça
já passou do prazo de validade”). E foram seguindo, comentando os conceitos que
aprenderam, falando de como vão seguir em frente até chegar a Maisha Bora (vida de qualidade).
Eu ouvia as vozes entusiasmadas, lembrava
dos momentos de desencanto e fome que as vi passar e olhava para Hali ya Hewa
nos meus braços pensando “esta menina vai viver em Maisha Bora”.
É difícil explicar o orgulho que senti
hoje, vendo nossas parceiras de Tabora no controle de suas vidas e as
coordenadoras de projeto de Tabora sentindo que fizeram a diferença e que
cresceram. Comprovou que a estrutura que temos desenvolve capital humano e cria
oportunidade para as pessoas serem o seu melhor.
São muitas as coisas que não tenho por ter
decidido, há quatro anos, ficar aqui – algumas delas talvez eu nunca venha a
ter, e são coisas importantes. Hoje, em Tabora, eu senti que vale a pena e o céu ficou azul. :)
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
2013 - um ano de realizações
2013 se encerra esta semana e nada mais justo do que fazer um balanço deste ano que foi tão importante para nosso trabalho aqui na Tanzânia enquanto nos preparamos para receber 2014.
2013 foi um ano de muitas realizações, o ano em que nosso trabalho tomou forma e ganhou cores e em que todos os envolvidos se complementaram para que alcancemos a tão sonhada Maisha Bora. Algumas de nossas pequenas vitórias:
2013 foi um ano de muitas realizações, o ano em que nosso trabalho tomou forma e ganhou cores e em que todos os envolvidos se complementaram para que alcancemos a tão sonhada Maisha Bora. Algumas de nossas pequenas vitórias:
- O Projeto Bungu se consolidou com um ambicioso plano financeiro: pagamentos individuais mensais de pelo menos TZS15.000 (~US$9,5) que cobrem os custos de produção contínua e formam uma poupança para o grupo, que será responsável por se gerenciar financeiramente a partir de setembro de 2014;
- O Projeto Kwakiliga, depois de 3 anos de seca e fome, iniciou e consolidou a criação de galinhas e formou uma poupança de mais de TZS1.000.000 (~US$625) que pagará parcialmente um novo ciclo de produção de ovos com a compra de 300 novas galinhas em janeiro. Coleta de água da chuva, irrigação por gotejamento e reflorestamento seguem firmes e fortes ao redor dos galinheiros;
- O Projeto Tabora consolidou a sua produção com entregas rotineiras de pacotes de batatas fritas às lojas de Korogwe, além de expandir sua linha de produtos com amendoim doce, pipoca doce e frutas secas. As mulheres de Tabora também construíram um fogão de barro para reduzir o consumo de lenha;
- O Projeto Lutindi fez uma grande venda de repolhos e pimentões no Kariakoo Market, o maior mercado da Tanzânia, e os agricultores focaram no pagamento de seus empréstimos para que evitemos dependência financeira;
- O Projeto Masoko colocou o sistema de coleta e disseminação de preços no mercado Kariakoo em funcionamento e toda a operação tem sido seguida de forma extremamente eficiente pelos funcionários do mercado, incluindo um ambicioso plano de expansão para os próximos 6 anos e o mapeamento de todos os vendedores de frutas e vegetais;
- O Projeto Kijungumoto focou em educação prática e garantiu que os agricultores tenham acesso às melhores práticas de gestão de negócios para que oportunidades surjam de suas pequenas hortas individuais;
- O Projeto Bombo Majimoto ajustou seu ciclo de produção para melhor uso de dois de seus maiores recursos: acesso constante a água e bombas de irrigação. Os agricultores focaram em reduzir seus débitos para que em 2014 um novo ciclo de produção se inicie;
- O Projeto Magoma, sempre minha casa, focou em integração de disciplinas e em permitir que diferentes parceiros foquem em suas áreas de expertise. Um grupo de pais se uniu ao projeto, a aprovação dos alunos nos exames nacionais (ao fim da sétima série) subiu de 21% para 98,6% em Kwata e os estudantes comeram no mínimo duas vezes por semana em ambas as escolas. Kwata e Kijango fecham o ano com dinheiro em caixa para cobrir os custos das refeições na escola até maio.
Pensando na organização como um todo e em todas as coisas que fazemos para fortalecer o network:
- Nosso treinamento em negócios e empreendedorismo está arrasando e nossos parceiros estão prontos para se autodefinir pessoas de negócios;
- O TZ Advisory Council, conselho formado por um parceiro de cada projeto, se mostrou pronto para exercer liderança de base e para engajar com a liderança dos EUA;
- A capacitação profissional de nossos parceiros baseada em seu potencial para cada projeto está indo muito bem e construindo liderança baseada em mérito.
Assim fecha-se o ano de 2013, nos deixando aqui com desejo de quero mais, de conquistar Maisha Bora. Que venha 2014 com novas oportunidades para deixar a fome pra trás!
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Destino: Maisha Bora
Trabalhando com agricultores de subsistência aqui na Tanzânia existe uma grande necessidade de tradução de conceitos - em idioma e cultura. Swahili, Kisambaa, Kizigua, Inglês, Português - as línguas de misturam, os pensamentos se confundem, as frases se formam em ziguezague. Assim, uma das ferramentas que uso para me fazer entender e para garantir que todos se entendam é a criação de analogias, que surgem em minha cabeça espontaneamente durante reuniões e conversas e divertem a mim, a PCs a aos parceiros Tanzanianos.
Minha analogia preferida começou a se formar em 2011 e foi crescendo, ganhando detalhes e se tornando a tradução do que fazemos aqui, dos objetivos de todos os membros da nossa rede, da nossa integração. Antes que eu possa explicá-la, preciso que o significado de Maisha Bora seja entendido. Maisha Bora, em Swahili, traduz literalmente como "Vida Qualidade". Maisha é a vida no sentido de dia-a-dia, a vida que vivemos e Ubora é o substantivo para qualidade, sendo Bora o adjetivo usado para descrever a alta qualidade de um produto ou de uma ação, tanto de forma absoluta, quanto em comparação a outros. Por exemplo: Um garçom chega à mesa e oferece três marcas de água. Ao escolher, o freguês pede água Kilimanjaro e diz "Ni bora zaidi" (é mais qualidade). Outro exemplo seria Kilimo Bora - Agricultura Especializada - o termo usado para agricultura com sementes tratadas e técnicas apuradas.
Destino: Maisha Bora
Nós, membros da rede da 2Seeds, estamos todos batalhando juntos para chegar a Maisha Bora. No momento em que nos tornamos membros da rede, do network, entramos no ônibus e iniciamos viagem. Trata-se de um ônibus Tanzaniano, como Burudani (minha companhia favorita de ônibus, que me leva a Magoma e a Kwakiliga), então não há limite de passageiros - sempre cabe mais um. A viagem não será fácil: a estrada é esburacada e longa, o ônibus precisa de manutenção e os passageiros vão precisar desatolá-lo ou comer poeira em alguns trechos (em minha cabeça é um ônibus Flintstones, e são nossas pernas que o fazem mover, mas ninguém aqui os conhece).
Para que possamos viajar é preciso que concordemos e planejemos o caminho a seguir (aqui entra gerenciamento de projetos e planejamento). Há muitos caminhos levando ao destino porém se cada passageiro tentar ir em uma direção ficaremos estagnados discutindo ao invés de mover-nos. E como em qualquer viagem, precisamos de um plano e de um mapa, para que chequemos no caminho se estamos na direção certa ou se precisamos acelerar (aqui entram metas e medição de resultados).
Quando novos parceiros são adicionados aos grupos ou novos coordenadores de projetos chegam à Tanzânia, eles chegam ao ponto de ônibus, mas como estamos na Tanzânia e não queremos perder velocidade, o ônibus reduz a velocidade mas não pára e temos que estender os braços para fora para ajudá-los a subir (aqui entram os períodos de transição com a troca anual de coordenadores de projeto e a necessidade de ajudá-los ativamente a entender os projetos e se acostumar ao ambiente).
Maisha ni safari ndefu (a vida é uma longa viagem). Por isso precisamos nos revezar ao volante e todos precisam aprender a dirigir o ônibus (aqui entra liderança distribuída). E como a viagem é comprida e ao chegarmos ao destino queremos nos estabelecer, é preciso que adquiramos no caminho um estoque de comida e bens, como as laranjas que são vendidas à janela do ônibus (aqui entram os conceitos-chave ensinados nos treinamentos e a necessidade de melhorarmos nossa capacidade e conhecimento).
Essa analogia simples e divertida é hoje a melhor definição de nosso trabalho como organização. Nós vivemos e trabalhamos com as pessoas que queremos ajudar, desenvolvemos capital humano e aprimoramos a capacidade de todos os envolvidos, encarando a vida como um caminho e as parcerias que formamos como o combustível que nos movimenta. Focamos em resultados, sempre lembrando que os meios importam tanto quanto os fins, e compartilhamos o sonho comum de proporcionar escolhas, para nós e para nossos parceiros.
Bem-vindos à estrada!
| Colleen, Coordenadora de Projeto Senior, relembrando nossa metodologia em Tabora (thetaboraproject.wordpress.com). |
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
O noivado de Maria
Algumas semanas atrás fui a meu primeiro
noivado na Tanzânia. Noivados não são muito comuns e são uma coisa de família,
como um acordo. Por isso (e por não saber nem que ela estava pensando em
casamento) fiquei surpresa quando Maria, minha amiga tanzaniana com quem dividi
a casa em Magoma em 2010, me convidou para seu noivado.
A festa foi em Handeni, duas horas distante
de Korogwe, e lá fui eu com minha saia de festa em um domingo de muito sol.
Handeni é um pedaço de caatinga, planície sem fim e sem água povoada por tribos
nômades, que esbanja sol e calor.
Cheguei sem saber muito bem o que esperar e
fui recebida por uma família sorridente que conheci em outubro de 2010 durante
um funeral de 7 dias de que participei para apoiar Maria – até hoje tenho meu
vestido branco com a “estampa da família” que fizeram para mim no funeral.
Naquela época eu mal falava Swahili e fiquei muito próxima à família através de
mímica e sorrisos. Foi bom vê-los novamente agora que posso entender o que é
dito à minha volta.
Esperamos ali pelo noivado, Maria no quarto
se arrumando e os convidados espalhados pela casa. De repente chegou a família
do noivo, sem o noivo, dançando e carregando presentes como trazendo presentes
para o rei. Apresentaram-se todos os membros importantes de cada família
(inclusive eu), o que totalizou umas 50 pessoas. Daí em diante eu não sabia o
que esperar, então observei.
Os homens mais velhos/importantes de ambas
as famílias começaram e conversar e eu pude perceber que havia algum desentendimento
acontecendo. Quando eles pediram licença do salão e foram discutir
privadamente, eu me atualizei sobre os fatos: na Tanzânia, a família do noivo
paga o dote à família da noiva para que o noivado aconteça. A família de Maria
pediu TZS500,000 (cerca de US$313), mas a família do noivo não trouxe o valor
total (ai que bafão!).
Comecei a olhar com um pouco de desdém para
a família do noivo que estava barganhando o “preço” da minha amiga (que eu
achei uma barganha, ora veja) e busquei na expressão das pessoas a resposta
para aquela situação: isso acontece sempre ou é deselegante? É parte do
processo?
Como eu estava sentada com a mãe e tias da
noiva, começamos a debater, as surpresas indo de um campo a outro como em um
jogo de vôlei-cego:
Eu perguntei a elas o que aconteceria se o
noivo não pagasse e elas disseram que ele pagaria. Aí perguntei como seria se
duas pessoas se gostassem e a família do noivo não tivesse dinheiro, elas
disseram que o casamento aconteceria sem pagamento, mas que a noiva estaria
fazendo uma escolha arriscada já que o casal não teria condições de se manter
no futuro. Elas me perguntaram qual é o valor do dote no Brasil e eu disse que
não temos dote (choque). Eu perguntei o que acontecia quando os casais se
separavam e elas se espantaram e devolveram a pergunta pedindo detalhes sobre
divórcio no Brasil. Aí eu entrei no assunto de famílias formadas por filhos de
diversos casamentos e elas não puderam esconder sua indignação “quer dizer que
você se separa de um homem e tem filho com outro?!” (não que aqui na Tanzânia
as pessoas não tenham filhos fora do casamento). E assim a conversa foi, o
choque cultural nos fazendo rir pela realização constante de que tudo é uma
questão de perspectiva.
Depois de meia-hora os homens voltaram ao
salão e decidiram continuar com a festa. Assim a família do noivo foi buscá-lo
(ele estava no carro durante todo o tempo) e o trouxeram com música, mais
presentes, mais dança e os tradicionais gritos tanzanianos, que fazemos batendo
a língua no céu da boca. Então foi a vez de Maria aparecer, toda bonita e
tímida, e assim se deu o pedido e o noivo colocou a aliança de compromisso no dedo
da minha amiga.
Aqui festas sempre acabam com comida e a
noiva foi a primeira a se servir para ser imediatamente retirada do salão, de
volta a seu quarto – a família da noiva gritou para todos que ela não sairia do
quarto até o fim fazendo piada com o fato de o noivo ainda não ter pago o dote
– o bom-humor tanzaniano...
Meu status de amiga da noiva (e celebridade
na Tanzânia) me permitiu tirar uma foto com o casal, no cantinho da casa, e
algumas fotos dos dois juntos. Maria estava contente em me mostrar seu HB (handsome boy) e eu fiquei sabendo que as
famílias não se conheciam até aquele momento – a mãe da noiva nunca havia encontrado
o futuro genro até aquele momento.
Ao final fui perguntar quais seriam os
próximos passos e descobri que a família do noivo havia concordado em trazer o
restante do dote em duas semanas. A família da noiva, claro, tinha um pouco de
sarcasmo em seus comentários, dizendo que a família do noivo deveria ter
conversado com eles antes da festa, para que aquela situação fosse evitada. E
eu me dividia entre rir de toda a situação e pensar com meus botões que minha
amiga estava muito barata enquanto me reprimia ao perceber que estava aceitando
rapidamente demais a ideia do pagamento (se o dote fosse maior tudo bem?!).
A família do noivo deve ter cumprido com
seu compromisso já que os preparativos para o casório continuam. O bota-fora da
Maria será em dezembro (a família da noiva organiza um bota-fora para ela já
que quando ela se casa, ela se junta à família do marido). Recebi meu convite
para o bota-fora e tenho que preparar a minha contribuição, que posso mandar
por banco-telefônico, uma das maravilhas da vida em um país onde as pessoas não
têm conta-bancária.
Vida longa a Maria e Fredy!
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Samahani, nimepotea
-->
Em Swahili dizemos “Umepotea sana!” (você se perdeu muito! = você sumiu!) quando vemos
uma pessoa que não víamos há tempos. Hoje passo por aqui para dizer “Samahani, nimepotea” (desculpem, eu me
perdi) e para atualizá-los sobre tudo que estamos vivendo aqui na Tanzânia.
Os meses de maio a outubro são os mais
malucos para mim já que englobam a transição entre times de coordenadores de
projetos. Para não enfraquecer nossos projetos e relacionamentos com parceiros
locais, eu sou a principal responsável por garantir que a maioria dos déficits
de informação seja preenchida e que o trabalho siga de acordo com o plano. Com
isso, os dias têm sido longos e as visitas aos projetos muitas (para minha
felicidade; segredo nosso ;).
Assim, agora de volta e com a meta de um
post por semana, tenho muito para escrever, tanto em experiências pessoais como
profissionais. Para começar vou contar a estória de nosso querido Mzee Rubeni,
para quem se lembra do doce solteirão de Kwakiliga, que vivia solitário por não
ter uma esposa (http://maquinadedesencalharbaleias.blogspot.com/2013/05/apresentando-mzee-rubeni.html).
A boa notícia é que Mzee Rubeni se casou!
Verdade que foi meio que de surpresa, meio que escondido, mas não consigo
esconder minha satisfação ao vê-lo chegar às reuniões com camisas floridas e sorriso
no rosto, atrasado como quem perde a noção do tempo quando está em casa. Mama
Rubeni é uma senhora de uma vila próxima, que tem seis filhas adultas e casadas
e por isso também se sentia só – na Tanzânia as mulheres se incorporam à
família do marido quando se casam então acabam mais distantes da própria
família.
Como o casal se conheceu eu não sei; com
medo de uma grande festa, maior que suas posses, Mzee Rubeni manteve segredo
sobre o plano até a véspera do casório e eu mesma só pude comparecer à sua casa
à noite, quando os convidados já haviam partido.
Confesso que a lembrança de Mzee Rubeni com
seu chapeuzinho muçulmano e roupas brancas, dentes faltando no sorriso, e a
esposa em roupa de festa, suando com o calor da planície, meio sem saber o nome
do vilarejo em que estava, me alegra até hoje.
Fico pensando em que escala a participação
de Mzee Rubeni no Projeto Kwakiliga e seu sucesso nas atividades do grupo
(como a criação de galinhas), viabilizaram seu casamento. Tenho a sensação de
que de alguma forma ele se sentiu mais qualificado para ter uma família por não
ter que se preocupar tanto com a fome.
Ontem, tivemos uma reunião em Kwak, na qual
o doce Mzee Rubeni levantou a preocupação sobre o destino de sua esposa no caso
de sua morte – ele queria saber se ela herdaria seu lugar e poderia continuar
com o trabalho do grupo. Brinquei, como sempre, dizendo que membros da 2Seeds
não são autorizados a morrer e que nós não aceitaríamos que ele quebrasse este
acordo. Entre risadas, tivemos uma discussão em família sobre os caminhos a
seguir e o compromisso de ajudarmos uns aos outros.
Vida longa ao casal e às galinhas! (all we need is love!)
Pp. Como estamos na Tanzânia, a honestidade
é uma virtude crua. Em pleno casamento (ou tecnicamente no que seria a noite de
núpcias) Mzee Rubeni, em frente à Mama Rubeni, se sentiu na obrigação de me
explicar que como Mama Mwaka o rejeitou (ele havia sido casado com a sobrinha
dela) ele decidiu se casar com outra pessoa, bonita e de pele clara, apontando
para Mama Rubeni. Minha pele quase branca ficou vermelha por um segundo, antes
de eu me lembrar que estamos na Tanzânia e que Mama Rubeni, a suposta parte
ofendida, estava a seu lado sorrindo e agradecendo a Deus pela nova vida. Ah, o
charme tanzaniano...
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