domingo, 9 de outubro de 2011

Alma, carne, mundo

Estou a escrever do escuro no quarto do Econolodge, hotel em Dar em que já me hospedei tantas vezes que tem um "que" de casa. As pessoas me conhecem, desde o staff até os que moram na pequena rua que leva ao hotel, e as figuras desdentadas e pobres não me assustam, ao contrário, me aceitam.

Dormi o dia inteiro, sensação que em 1 ano e meio de Tanzânia tive pela primeira vez. Estou em Dar esperando o Sam, que está em Pangani com a namorada e me encontrará aqui na terça para que eu finalmente a conheça pouco antes da sua partida, fruto de infinitas conversas em nossas noites de trabalho. Então seguiremos para Korogwe juntos, na quarta, e ele me ajudará a carregar minha mala, que mal consigo levantar de tão pesada, cheia de comida brasileira e quitutes saudáveis que me ajudarão a encontrar minha forma perdida (e contentar minha alma saudosa).

 

Estou no escuro porque quero, desta vez temos luz aqui em Dar, e estava a ler o blog do Gonçalo, amigo português que conheci em Nairobi e que se aproxima do final de uma viagem magnífica pela África. Confesso que sempre que leio seu blog sinto as formigas se mexendo na sola de meus pés e tenho muita vontade de reaver meu espírito mochileiro e seguir o sol. Aí respiro fundo e me lembro porque estou aqui, vejo algumas fotos de Magoma (sim, ainda dona do meu coração) e me aquieto. A verdade é que não sei por quanto tempo conseguirei me aquietar, mas minhas Havaianas sem sola têm me mantido muito firme na busca desse meu destino.

 

A viagem ao Brasil foi incrível e comer pão de queijo (duro, depois de 2 dias de viagem) no quarto do hotel me traz à boca o sabor do meu país. A última vez que estive no Brasil foi estranha, eu não estava em um bom momento e foi uma viagem de despedida: de Magoma, da minha avó, do meu trabalho como Coordenadora de Projeto e de uma imagem que eu tinha na minha cabeça de como seria voltar pra casa depois de tanto tempo. Infantilmente criamos conceitos de sucessos e fracassos e esperamos que apenas os sucessos sejam vistos quando regressamos de uma experiência tão definitiva. Ao olhar para o espelho e ver os fracassos refletidos senti vergonha e quis me esconder.

Só que o crescimento que vim viver na Tanzânia me ensinou o valor dos fracassos no caminho do sucesso e o que significa aprender, nem na escola nem no livro, mas na alma, na carne.

 

O Brasil é minha casa, finalmente sinto isso depois dos últimos dez dias. É o país cuja bandeira me enche os olhos de lágrimas e cujos defeitos me irritam acima de tudo. É minha saudades, meu sabor, minha música. Minha alma de brasileira em um corpo que chacoalha sem medo.

A Tanzânia é o país em que cumpro minha missão, em que me fiz aceitar e sou lenda, mais do que sou eu. É minha flexibilidade e meu tapa na cara, onde eu sou menos importante pra mim mesma – no bom e no mau sentido.

 

Meu coração está, neste escuro quarto de hotel, em algum lugar entre os dois mundos. As saudades apertam, o dever chama e eu cresço enquanto me sinto pequena e me escondo enquanto me exponho.

 

Aqui sou alma, sou carne e sou mundo.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Graduação em Magoma

Estou exausta e ainda tenho que fazer minha mala para a viagem ao
Brasil. Hoje foi meu último dia em Korogwe antes da viagem, amanhã
pela manhã vou pra Dar es Salaam para viajar no domingo. Hoje foi
também um dia muito especial e por mais cansada que eu esteja não
poderia deixar de dividi-lo com vocês.

Ontem choveu a noite inteira e hoje choveu boa parte do dia. Não
sabemos se o período curto de chuvas que deveria chegar em meio de
outubro veio mais cedo ou se toda esta chuva é um alarme falso e as
nuvens desaparecerão daqui a pouco. As pessoas estão correndo para as
shambas (sítios) para plantar já que muita gente (muita mesmo) não tem
comida em função das chuvas loucas que tivemos no começo do ano (a
chuva atrasou muito e quando veio foi demais e inconsistente).

Mas o que tornou o dia de hoje tão especial foi a graduação da 7ª
série em Magoma.

Eu havia me programado para ir à festa, que deveria começar às 10
horas, mas toda a chuva me deixou hesitante já que rios de lama
transbordam pela estrada em tempos de chuva. O resultado é que já eram
quase 10 horas quando me perguntei "você é uma mulher ou é um rato?",
montei Bwana Mtoto (carro da 2Seeds recém adquirido e recém
ressuscitado da oficina – nosso carro é velhinho, mas nós o amamos. O
nome significa Senhor Criança) e decidi encarar a estrada, confiante
na minha habilidade off-road. 45 minutos depois cheguei a Magoma, a
casa para qual eu tinha que ir antes de ir pra casa, e tive um dia de
felicidade em meio ao (delicioso) caos de Magoma.

A cerimônia que deveria começar às 10 horas estava atrasada (o que eu
esperava?) e eu tinha uma reunião com os coordenadores de projeto
greenfield aqui em Korogwe às 14h00. Às 13h00 vi uma sala de aula
simples e lindamente decorada (aproximadamente 3 horas de esforços dos
professores) e às 13h15 vi toda a decoração ser desmontada já que
aparentemente a sala era pequena demais para todos os presentes (ah
Tanzania...).

Enquanto isso os estudantes ensaiavam seus cantos vestidos em suas
melhores roupas. As meninas vestiam as saias laranjas (a maioria
emprestada) que são uniforme da escola secundária – algumas tinham
cabelos trançados ou pelo menos recém raspados. Os meninos vestiam
gravata com camisa social, muitos com sapatos lustrosos.

De todas as crianças que começam a escola, cerca de 50% se formam.
Deles, cerca de 30% devem ir para escola secundária e eu ficarei
surpresa se mais de 10% se formarem na escola secundária– queria muito
poder dizer que nosso projeto, 9 meses de idade, já é capaz de mudar
esses números, mas ainda temos muito trabalho pela frente pra colher
resultados diferentes.

A 7ª série da Kwata (escola primária de Magoma) teve força e garra pra
trabalhar com um sorriso no rosto, me ensinar Swahili e garantir
refeições na escola para 813 estudantes. Eles me inspiraram a cada
dia, me enlouqueceram incontáveis vezes, se encharcaram comigo
irrigando a shamba e calcularam lucro na aula de matemática. Crianças
como Henry Godfrey, as duas Marias, Aisha, Miriam e Issa me deram
motivos pra nunca desistir – eles nunca desistiram.

Bwana Mtoto saiu revigorado da viagem – se provou um carro pronto pra
encarar kijijini (vila). Eu saí emocionada da viagem desejando um
mundo de oportunidades para os estudantes que se despedem e um mundo
de esperança e garra para os que ficam. O projeto Magoma viu sua
primeira formatura (que venham muitas!) . As novas voluntárias tiveram
a chance de se apaixonar pelo projeto e de receber energia para
fazê-lo melhor.

Não são poucas as vezes que me pergunto "o que eu vim fazer aqui?". Em
dias como hoje a resposta é tão fácil que nem precisa de palavras pra
ficar clara.


Pp. Para fazer o dia ainda melhor eu também:

a) Visitei Crazy Bibi, a última avó que me restou (ainda que quase sem
dentes na boca), que amo com todo meu coração e apesar de velhinha
havia ido visitar sua filha (e consultar um médico – varizes e
glaucoma) em Morogoro (cidade a 6 horas de Magoma). O abraço que
ganhei de Crazy Bibi faz a vida valer a pena.
b) Conversei com Babu, meu avô com o qual falo todos os dias, mas de
quem sinto saudades todos os dias também.
c) Cheguei atrasada, mas participei da reunião com os projetos
greenfield aqui em Korogwe e pude trocar experiências com o barulhento
e alegre grupo de PCs.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Subindo e descendo montanhas

Faz muito tempo que não escrevo porque o trabalho tem ocupado cada
minuto de todos os meus dias. Não moro mais em Magoma e assumi minha
posição de Diretora de Desenvolvimento e Projetos em agosto. Agora são
9 projetos, 23 voluntários e 2 diretores aqui na Tanzânia. Estou
vivendo em Korogwe.

Escreverei mais de agora em diante e darei detalhes sobre cada
projeto, mas hoje quero me dedicar mais ao que tenho sentido do que ao
trabalho em si.

Ontem fui a Lutindi, vila que fica lindamente cravada no alto de uma
montanha. Desde a primeira viagem, ano passado com o time de Lutindi,
descer aquela montanha me faz pensar e me coloca a sentir as saudades,
a encarar as dúvidas, a lembrar os sonhos. Ano passado, o fim da tarde
escondeu as lágrimas que expunham as saudades de tudo que havia
deixado no Brasil, o medo e o frio na barriga, o susto por estar
realmente aqui.

Eu vim pra muito longe, mais longe que longe, fazer algo tão simples
como salvar o mundo – salvar um mundo. Parece coisa de filme quando
falamos assim...
Na parede do meu quarto em Korogwe pendurei minhas havaianas
sobreviventes de Magoma. A terra e o barro repuxaram a borracha, a
sola esburacou, o azul ficou meio branco e meio marrom. As havaianas
de Magoma me lembram quem eu sou, me lembram o que eu vivi e me
lembram por que estou aqui. As havaianas de Magoma são como eu na
Tanzânia: meio fora de forma, muitas cicatrizes do caminho adornando a
bandeirinha do Brasil e um cansaço que não se esconde, mas que não as
impede de estarem prontas pra mais um dia na shamba, pra mais uma
conversa em KiSwahili (ou KiSambaa), pra mais um pedra no caminho.
Prontas pra mais.

Na Tanzânia quando falta, falta, faz falta. Eu não sei muito sobre
muita coisa, mas aqui tenho que saber quem eu sou. E este eu é forte,
pra se encarar sozinho, pra entender as variações de sozinho, pra
viver sem. Tento inspirar as 23 pessoas que seguem meu caminho e às
vezes acho que consigo, às vezes falho. Na vida que escolhi, falhar é
cotidiano, é passo. Mas o vento que a moto joga no meu rosto também
lembra que no meio das falhas surgem os acertos e que no meio das
falhas eu não falhei quando vim pra cá. 813 crianças comem todos os
dias os frutos de 9 meses de falhas. Minhas falhas estão enchendo
barrigas há 7 meses. Que venham mais pedras.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Uma janela para um outro mundo: nem tão perto, nem tão distante, logo ali.




Tenho tanto a escrever e tanta experiência a compartilhar que sou perseguida pela sensação de que estou devendo estórias - e estou. Neste momento de transição os sentimentos também querem ser escritos, assim como as experiências na minha linda Magoma. Tem muito acontecendo do lado de dentro e do lado de fora.

Dia 10 de junho tivemos um momento mágico em Magoma, o festival de cinema Tanz Cine Brazil.
Eu percorri a vila convidando as pessoas para comparecerem ao mercado às 7 da noite e assistirem cinema brasileiro: “cinema, como uma TV grandona, venham que vocês vão gostar”.
Depois de mobilizar a equipe do festival prometendo uma noite Cinema Paradiso, eu estava ansiosa e um pouco receosa de que não tivéssemos público. Para ajudar teríamos concorrência, já que a mesquita decidiu fazer uma semana de pregação ao ar livre passando filmes religiosos sempre no último volume e com péssima qualidade de áudio nos alto-falantes (vida de Magoma é assim, som sempre muito alto, qualidade sempre muito baixa e nenhuma chance de cada pessoa guardar o que acredita e o que quer ouvir para si mesma).

Começou a escurecer enquanto preparávamos o cinema. Projetor e tela vindos dos escritórios de agricultura e educação de Korogwe (Mr. Mjema e Mr. Shemzighwa sempre me apoiando incondicionalmente); Babu, Mr. Bodo e Mw. Mary (a nova diretora da escola), incansáveis, supervisionando a preparação; a produção e eu buscando bancos na igreja, cadeiras na ADP, um tapetão na máquina de farinha e diversas outras coisas com os vizinhos; as crianças trazendo baldes para iluminação com velas – em Magoma a gente nunca tem tudo que precisa, cada coisa vem de um canto, todo evento é um evento comunitário.

A exibição começou com meia hora de atraso:
(Animação escolhida a dedo por não ter falas e mostrar um pouco do nosso nordeste; sertão brasileiro nos olhos do sertão tanzaniano)

Olhei em volta e vi cerca de 400 pessoas sentadas entre o tapetão, os bancos e as cadeiras, sorrindo e dando risada. O coração pulou...

A sessão continuou com:

Ainda que tanto Sambatown como Naiá sejam muito poéticos e carreguem analogias que não se traduzem facilmente para a cultura tanzaniana, até aqui eu sabia que as pessoas adorariam; selecionamos estes filmes para mostrar um pouco da nossa dança e da nossa floresta, todos quase sem diálogos.  Já a partir daqui teríamos uma nova barreira, a língua: em Magoma as pessoas não falam inglês e muito menos português. Os filmes estavam em português, obviamente, e com legendas em inglês.

(Momento “agora é que a vaca foi pro brejo” quando nos demos conta que as legendas deste filme estavam em português...)


As legendas em português (?!) e inglês não impediram que minha linda e doce Magoma aproveitasse cada minuto do festival. As 400 pessoas permaneceram com os olhos fixos na tela durante as três horas de sessão e nós adaptamos, desconstruindo o conceito de festival de cinema e mostrando trechos de diversos filmes para ter variedade na tela e nos pensamentos. E funcionou.
A arte é universal. E Magoma ganhou uma janela para o mundo, ou pelo menos para um outro mundo: nem tão perto, nem tão distante, logo ali.

Momentos especiais:
  1. Pessoas vindas de Mkwajuni, a vila mais distante que forma Magoma, curtiram 3 horas de festival mesmo tendo que atravessar o rio pra ir embora pra casa;
  2. Os senhores e senhoras de Magoma, alguns apoiados em bengalas, estavam lá;
  3. Mostrar Eu Tu Eles foi um momento especial para mim, que quis fazê-lo desde que cheguei a Magoma. As risadas veladas das mamas, únicas capazes de entender as entrelinhas das intenções sexuais do filme, foram deliciosas;
  4. O ahhhhhhhhh que Igor (um dos produtores do festival) e eu ganhamos ao parar Eu Tu Eles no momento da primeira cena de sexo mostra que Magoma também tem malícia;
  5. As risadas que cada beijo mostrado na tela arrancou da inocente platéia (as pessoas não beijam na Tanzânia);
  6. Pessoas me perguntando no dia seguinte sobre como a índia Naiá se tornou uma planta e como é essa planta (lenda da vitória-régia) mostra que a arte comunica sem palavras.
  7. A lua cheia fechou o cenário e iluminou o caminho de todos na volta pra casa.

A ligação do sertão brasileiro com o sertão de Magoma se mostrou tão forte que até mesmo a minha experiência aqui ganhou um novo sentido. As pessoas puderam se conectar com uma realidade parecida a um oceano de distância. Minha alma, meio brasileira meio magomense, pode conectar os dois mundos que formam quem eu sou neste momento.

Brasil e Magoma.

Pode parecer que não há nada em comum, mas somos apenas pessoas dividindo sonhos e espiando por nossas janelas para o mundo. Dia 10 de junho estivemos juntos. Fomos um.

Pp. Obrigada Cecília Queiroz, Estefania Chaves, Ronaldo Vieira, Igor Pirola, Sebastião Braga e Ramadham!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Bombo Majimoto

Foi dentro da minha nova função, que ainda que se torne oficial apenas em agosto venho exercendo desde janeiro, que selecionei com nossos parceiros locais as vilas para os novos projetos. Uma dessas vilas se chama Bombo Majimoto.

Bombo fica perto de Magoma (cerca de 16 km – lembrando que na Tanzânia a distância varia de acordo com quem a mede), mas na região das montanhas, chamada Kizara. É uma vila isolada em que crianças fugiram de mim em minha primeira visita porque nunca haviam visto uma pessoa branca (e eu jamais me descreveria como branca sendo brasileira).
O lugar é lindo, no sopé da montanha. O nome surgiu pela nascente de água que abastece toda a vila. A água deveria ser quente (maji = água, moto = quente), mas todas as vezes que estive lá encontrei água fresca e fria.

Quando os diretores da 2Seeds vieram visitar a Tanzânia em fevereiro, os levei a Bombo Majimoto. Apesar de eu tê-los avisado com antecedência que deveriam esperar uma vila pobre (todas as casas são de pau-a-pique), com uma comunidade muito simples (2.000 agricultores de subsistência), suas expectativas foram ultrapassadas – para pior. Toda a comunidade estava nos esperando e celebrando, desde a manhã, nossa visita. Considerando que chegamos no meio da tarde, nos deparamos com uma comunidade bêbada...

Bombo quase perdeu a chance de receber um projeto pelo excesso de felicidade que o vislumbre de um projeto trouxe para a comunidade. Eu batalhei pela vila: depois de conversar com nossos parceiros locais e ter sua garantia de que o lugar é seguro, passei três dias em Bombo dormindo em casa de pau-a-pique e tomando banho ao relento, para testar as condições de segurança. E me apaixonei.
Meu fim de semana em Bombo aconteceu no meio da estação da fome que assola muitas de nossas vilas, de março a junho, todos os anos. Em Bombo eu fui para a shamba procurar vegetais com Mama Lukia para termos almoço, dividi uma espiga de milho em três e carreguei os vegetais e o milho na cabeça.
A comunidade, com toda a sua pobreza e isolamento, expele doçura por todos os seus poros. Meu nome em Kisambaa (língua local, da tribo Sambaa) chegou a Bombo, e por onde ando ouço Mamuugu ou Makihio, as duas variações para “mãe de todas as famílias”.

Minha felicidade ao voltar a Bombo semana passada carregando a notícia de que começaremos um projeto por lá me embriagou. Não precisei beber pombe (pinga local, fermentada de cana-de-açúcar ou coco) para sair de Bombo na garupa da pikipiki (moto táxi) com água escorrendo pelos olhos escondida debaixo dos óculos escuros.
Um brinde a Bombo!

Pp. O time que chega a Bombo viverá em casa de alvenaria, com forro no teto e todo o conforto possível para a pequena vila. Há apenas uma casa assim em toda a vila, que está sendo finalizada para recebê-los.

domingo, 29 de maio de 2011

Novos desafios - de coordenadora a diretora


Diretora de Desenvolvimento de Projetos. Assumo aqui minha nova função dentro da 2Seeds.
A partir de agosto, receberemos 24 novos coordenadores de projeto, que eu e Sam coordenaremos. Serão nove projetos; estamos buscando trabalhar em toda a cadeia de valor para garantir efetividade nos resultados.

7 projetos em vilas
4 projetos greenfield: greenfield é o termo usado para projetos em aberto, em que os times chegarão à Tanzânia e definirão com a comunidade em que vão trabalhar. Foi o que eu e Kristina fizemos ano passado quando chegamos a Magoma e o que novos times farão.
3 projetos focados: Magoma, Lutindi e Kwakiliga, começados em 2010, serão consolidados e expandidos. Novas visões em campo para os desafios que persistem e para todos os novos desafios que surgirão, além da chance de crescer.

Os sete projetos em vilas foram divididos por suas características geográficas:
Montanhas: Lutindi (focado) e Bungu (greenfield)
Vale: Magoma (focado), Kijungumoto (greenfield) e Bombo Majimoto (greenfield)
Planícies: Kwakiliga (focado) e Tabora ya Korogwe (greenfield)

2 projetos especializados
Para trabalhar em toda a cadeia de valor, acreditamos que, além de ajudar a comunidade a se organizar e enxergar claramente suas oportunidades e desafios, precisamos oferecer treinamento e ajudá-los a se conectar com mercados. Muitas vezes as pessoas não têm uma visão clara de suas dificuldades; não é difícil conversar com agricultores que dirão que não podem trabalhar bem sem uma bomba de irrigação em vilas sem acesso a água (se eles tiverem a bomba, bombearão água de onde?). Seus anseios se baseiam nos sonhos de máquinas e agricultura de pouco trabalho, como supostamente existe nos países desenvolvidos. O treinamento os ajudará a cultivar melhor com as ferramentas disponíveis, a planejar agricultura como um negócio que lhes traga retorno e a verificar quais ferramentas podem aumentar sua produtividade e seu lucro.

O mercado na Tanzânia é interessantíssimo. Uma garrafa de água, por exemplo, terá exatamente o mesmo preço em qualquer loja de qualquer cidade ou vila. Não existe concorrência, não existe atribuição de valor. 
Para produtos agrícolas isso muda um pouco e o preço varia com a qualidade do produto. O problema é que os agricultores vendem seus produtos para compradores intermediários que viajam das cidades para as vilas enchendo seus caminhões ou enviando produtos pelos ônibus urbanos (ônibus transportam absolutamente tudo na Tanzânia). Normalmente, o agricultor não sabe onde seus produtos serão vendidos ou por que preço. E os intermediários não perdem a chance de explorar esta ignorância (ainda que não passem de maus comerciantes que tampouco fazem muito dinheiro com o processo).

Para combater essas duas frentes, teremos os seguintes projetos:

Korogwe: vila central onde todos os times baseados em vilas se reúnem quinzenalmente e compram suprimentos. Também é nosso centro de transporte.
Em Korogwe iniciaremos um centro de treinamento com plantações demonstrativas (como uma fazenda-escola). Ali poderemos trabalhar em sala de aula e com o pé na terra, ajudando os agricultores a produzir maiores quantidades e com melhor qualidade. Além disso, os agricultores poderão se conectar e trocar informações, já que muitas vezes enfrentam dificuldades parecidas e podem se ajudar na busca de soluções.

Kariakoo: o maior mercado da Tanzânia. Kariakoo está localizado em Dar es Salaam e recebe produtos de todo o país além de ser o centro exportador para países próximos e ilhas como Madagascar. Acreditamos que se os agricultores tiverem acesso a informações sobre os preços pagos por seus produtos, terão a chance de tomar decisões para obter lucro e deixar a linha da pobreza.

Tanzânia, mais um ano! Novos desafios batendo à janela =)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A água que sai do meu balde

Posso carregar o balde na cabeça, se treinar bastante. A ginga do meu quadril não alcançou meu pescoço, o balde não “assenta”, mas um dia vai (vai?). Faço planilhas no Excel, desenho logos e tenho um dicionário. Faço um quadrado com a mão direita enquanto a esquerda sobe a desce ao som de tirolirolá. Você equilibra o balde; eu danço samba.

A gente quer fazer o que o outro faz, quer se mostrar forte, quer saber e poder. Sim, eu consigo beber água suja sem ficar doente, aguentar os mosquitos sem pegar malária e tirar a sanguessuga da perna sem gritar a dar pití. Trabalho com a enxada (não tão bem como você), caminho na lama de chinelo (quase nunca caio) e consigo comer feijão com a mão (direita). Mas o mais legal deste tempo que estamos juntos é dividir, é ser diferente. Vim pra viver seu mundo e pra te mostrar um pedaço do meu.

Sim, sou mais branca que você (que saco!). Sim, falo várias línguas e viajei o mundo; tenho um MBA e estudei pacas. Se eu precisar posso cortar lenha e cozinhar sobre pedras, mas a verdade é que não preciso. Meu valor está no que eu sou; não nos baldes que carrego na cabeça. Seu valor está no que é; não na magreza do seu corpo e no ugali (pasta de milho) que te faz feliz exatamente do mesmo jeito todos os dias.

Não, eu não quero casar com você (ou com ele) e dificilmente vou levar alguém pro Brasil comigo (mais difícil ainda te levar pra Europa). Mas isso porque em outra dimensão minha vida também não é fácil; as decisões se sobrepõem e dominam os dias. A real é que neste momento não sei nem se eu vou pro Brasil ou pra Europa (ou pra qualquer lugar).

Você quer sair do seu mundo, eu quero achar o meu. Me joguei, me estabaquei, chorei, levantei, sonhei, mudei e decidi ser feliz (será que consigo?).
Assisti a fome do mundo. Comi a fome do mundo. Não consigo digerir a fome do mundo, tá pesando dentro de mim, me deixou gorda. Preciso fazer alguma coisa como preciso respirar.

Não quero ser expectadora, quero que você coma comida colorida todos os dias. Não quero ser expectadora, quero que você coma todos os dias. Quero te alimentar de esperança e de vontade de viver, quero que você se alimente, também de esperança, sem precisar de mim segurando a colher e fazendo aviãozinho (mas adoro fazer aviãozinho!).


Hey você aí do outro lado! Minha bandeira não é azul, vermelha e branca, meu coração não pula com seus presidentes (nem com os meus). Não gosto de guerras, não entendo o que te move. Preciso?
Discordo dos prefixos e das diferenças que se enfatizam pelo aparente, me alimento das diferenças de alma. O que te move é diferente do que me move e ainda assim nos movemos juntos.


Minha língua é diferente da sua e ainda assim nos entendemos. Minha pele é diferente da sua e ainda assim nos amamos (ou não). Você acredita no que eu não acredito, mas eu acredito em você. A água que sai do meu balde é tão marrom quanto a que sai do seu.