quarta-feira, 9 de março de 2011

Da shamba à chakula cha mchana

Dê uma olhada no nosso novo vídeo, atualizado com as recentes conquistas.
Shamba = sítio / Chakula cha mchana = almoço
(desculpem, tenho apenas a versão em inglês)

sexta-feira, 4 de março de 2011

O Carnaval da Chakula cha Mchana




Fica difícil descrever a força do programa de merenda escolar. É uma energia tão grande sendo gerada por canecas de mingau e pratos de makande (milho cozido com feijão) que me sinto na concentração da Mangueira, em plena Marquês de Sapucaí.

Ao meio-dia se toca o sino, uma roda de caminhão batida com um pino de metal. Imediatamente se escuta todas as 813 crianças gritando, pulando e batucando.
Os alunos mais velhos vão à cozinha, separam a porção de cada classe (lembrando que cada classe tem cerca de 100 alunos) e as levam para a sala.

As crianças deveriam esperar sentadas na sala de aula. Deveriam.
Grande parte delas está pulando no pátio enquanto os professores assistem e se divertem. Os pulos levantam poeira do chão seco de terra e à medida que as panelas de comida atravessam o pátio recebem parte desta poeira. Ninguém liga.

As filas se formam enquanto todos os estudantes são servidos. E eles se sentam tomando seu mingau ou comendo seu makande como se fosse a melhor refeição do mundo. Talvez seja.
Os alunos mais velhos, que trabalharam mais na shamba e necessitam de maiores quantidades de comida, não reclamam do mingau. Pelo contrário, sorriem.

Nosso plano é servir makande três vezes por semana e mingau duas vezes por semana e aos poucos aumentar a qualidade nutricional da refeição. Ainda não temos dinheiro suficiente, um passo de cada vez. Por enquanto estamos servindo makande uma vez por semana e mingau quatro vezes por semana. Mas parece que estamos servindo bolo de chocolate com sorvete :)

Não é fácil estar longe do Brasil no carnaval, eu gostaria muito de ouvir a festa e sambar um pouco. Mas o carnaval em Magoma também tem batucada. E a bateria é comandada por 813 crianças que tiram um som de canecas coloridas, pratos plásticos, colheres gastas e chão de terra. Emoção não falta.

Pp. Chakula cha mchana = almoço em Kiswahili

terça-feira, 1 de março de 2011

O dia em que os 813 estudantes de Magoma foram capazes de alimentar a si mesmos



1º de março de 2011, dia em que começamos o programa de merenda escolar em Magoma. Pela primeira vez, 813 estudantes comeram na escola.
Nós começamos o programa de merenda escolar sem comprar um grão de milho. Cada centavo usado na compra da comida veio da venda de frutas e vegetais plantados na shamba da escola. Cada centavo veio do trabalho dos estudantes.
Tenho trabalhado muito e vivido uma realidade que não é fácil. O caminho que escolhemos é mais longo porque ao invés de simplesmente doar comida e manter a dependência estamos garantindo que a escola e as crianças tenham acesso a recursos que lhes permitam comer e batalhar por uma vida melhor tomando suas próprias decisões de forma independente.

Hoje não é o dia em que alimentamos os 813 estudantes em Magoma. Hoje é o dia em que os 813 estudantes de Magoma foram capazes de alimentar a si mesmos.

Se você ainda não assistiu, dê uma olhada no nosso vídeo. Ele mostra o tamanho da nossa conquista =)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Tempo de novos projetos. Tempo de novos líderes.

Os diretores da 2Seeds vieram visitar Magoma. Os estudantes, orgulhosos, mostraram a nossa shamba e nossa escola para nossos visitantes. Os pais vieram, muitas mulheres envoltas em cangas coloridas (algumas delas caminharam por três horas sob o sol do meio-dia depois de preparar o almoço e limpar a casa para seus maridos).

Eu ouvi "Desde que nasci eu nunca vi um projeto como este".
Eu ouvi "É um amanhecer em Magoma".
 

Meus olhos se encheram de água.

A magnitude do nosso trabalho em Magoma é incomparável. Cada etapa exige persistência, força e paciência. Cada passo pode mudar o mundo.

2Seeds está recrutando novos coordenadores do projeto para a nova temporada que terá início em agosto:


Tanzania is a beautiful country with tremendous human and economic problems. We are looking for new leaders to address the issue of food and income security.
Use everything you learned to develop an autonomous project in partnership with the local community and optimize the entire value chain for subsistence farmers. It is a unique life experience that will allow you to grow as a leader and as a person.
5 target projects. 4 green field projects. An innovative organization. An international team of young leaders from some of the best universities in the world.

You can be a part of the solution.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Novos projetos e novos coordenadores




Estou selecionando novas vilas para projetos que se iniciarão em agosto de 2011. Visitei seis vilas das quais selecionei quatro por acreditar que os times encontrarão suporte suficiente para desenvolver um bom trabalho. Fui levada às vilas por nossos parceiros locais: Mr. Mbazi (Magoma), Dismass (Lutindi) e Mzee Mcharo (Kwakiliga). Vê-los explicando a operação do 2Seeds e a diferença que os projetos fizeram em suas vilas me encheu de orgulho.
Selecionar vilas para projetos é como buscar telas em branco e tintas coloridas, esperando que o time que chega possa fazer arte junto com a comunidade local. Eu encontrei as telas e tintas fortes, cheias de cor. Estou ansiosa para ver as pinturas.

Bombo Majimoto é uma vila em Kizara (área de montanhas perto de Magoma) que nunca havia visto uma pessoa branca antes de eu aparecer por lá e me apresentar (uma criança começou a chorar e correu com medo de mim). Quando o 2Seeds Board veio para a Tanzânia e resolveu visitar o lugar encontrou toda a vila o esperando na rua principal (que é também a única rua). Muitas das pessoas começaram a celebrar pela manhã nossa visita e como chegamos às 15h30 estavam embriagados de felicidade (e muita bebida local). O Board se assustou, mas este é apenas um exemplo do quão poderosa é a energia que geramos aqui e do porque temos que ser tão cuidadosos ao direcioná-la.
Kigungumoto é um dos vilarejos que visitei com Tin, também perto de Magoma. Ali não fui descrita como Ana do Brasil, mas como Ana de Magoma. Nosso cinema ficou famoso, todos ouviram falar da projeção na parede da escola.
Bungu é linda, nas montanhas, perto de Lutindi. A viagem de moto pelas encostas me encantou e dancei no topo da montanha com um bando de crianças enquanto esperávamos pela reunião com um de nossos contatos.
Tabora, perto de Kwakiliga, é estruturada e bem cuidada, mesmo com tão poucos recursos. Os sorrisos por toda a vila emocionam até agora.

Todos estes projetos serão iniciados por novos times, que virão à Tanzânia em agosto. Teremos target projects, com times dando continuidade ao que começamos ano passado em Magoma e Lutindi, ano anterior em Kwakiliga, além de dois projetos administrativos, um centro de conhecimento para agricultores em Korogwe e mapeamento de informações do maior mercado da Tanzânia, o Kariakoo em Dar es Salaam.
Teremos green field projects, pessoas chegando para conhecer a comunidade e desenvolver um novo projeto, como eu fiz ano passado (aqui se encaixam as novas vilas que descrevi acima).

E para que tudo isso seja possível estamos recrutando novos coordenadores de projeto para 2011. Haverá uma palestra explicativa na FGV, com James Meeks (vice-presidente da Swissport Americas e fundador do 2Seeds), dia 1º de março, às 18h00, sala 1004.
Muitos sonhos, metas ambiciosas no papel e muita gente trabalhando duro para tornar tudo isso realidade. Se você tem a paixão necessária e quer se tornar um grande líder, junte-se a nós!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Assistam o vídeo do projeto e conheçam os estudantes, vejam como é Magoma e divirtam-se com nossa plantação de melancias!

Primeira venda de melancias


Terça-feira foi um grande dia. Mzee Francis me ligou exigindo a minha presença na casa do Sr. Mbazi (o oficial de agricultura) com urgência. Eu fiquei preocupada pensando qual seria o problema e corri para lá.

Semana passada eu contei as melancias, 1082 frutas desde as pequeninas até as grandonas. Babu (meu jeito de chamar Mzee, avô) e eu estávamos discutindo a melhor estratégia para colheita já que esperar até que os pequenos frutos atinjam tamanho comercial nos faria perder as frutas grandes. Concluímos que a melhor solução seria colher e vender duas vezes (pelo menos).

Cheguei à casa do Sr. Mbazi e encontrei Mwalimu Mkuu sentado me aguardando. Meu coração quase saiu pela boca ao ver quase todos reunidos (Sr. Bodo havia ido a uma vila vizinha resolver o problema da eletricidade – alguém roubou os fios de cobre e como o poste de luz é antigo a pessoa caiu com poste e tudo e agora não sabemos se machucou ou morreu). Só quando Babu disse não haver nada errado me acalmei.
Aparentemente, um dos compradores de Korogwe (principal vila perto de Magoma) estaria por perto com seu caminhão, coletando melancias de outros agricultores. Eles estavam pensando em aproveitar a oportunidade e vender as melancias grandes.

As borboletas se manifestaram no meu estômago, imediatamente, muitos sentimentos misturados: nós plantamos as melancias para isso, vender e conseguir dinheiro para o programa de merenda escolar, momento emocionante. Ao mesmo tempo eu estava preocupada em garantir que o processo de colheita e pesagem aconteceria corretamente. E comecei a fazer contas na minha cabeça para verificar se o preço oferecido era justo (eu fui ao Kariakoo em Dar es Salaam, o maior mercado da Tanzânia, e tinha os preços oferecidos pelos compradores de lá). Confesso que no meio de tudo isso veio um sentimento bobo, a tristeza ao assistir meus "bebês-melancia" indo embora (eles dominaram minha rotina diária, meus pensamentos e meus sonhos - literalmente - nos últimos três meses
).

Este comprador de Korogwe comprou as melancias de todos os produtores de melancia da região. Se chama Arama Matikiti (matikiti significa melancias em Kiswahili). Ele pagou TSH300,00/quilo (US$ 0,02/quilo). Nós vendemos 900 kg, cerca de 300 frutos, e recebemos TSH270.000,00 (US$187,50).

Eu sei que não é uma quantidade impressionante de dinheiro. Eu sei que muitos de vocês vão pensar "tanto trabalho por US$187,50?". Mas tente traduzir esta quantia para a realidade de Magoma, uma vila de terra vermelha e banhos de caneca perdida em um canto da Tanzânia.
Nós ainda temos cerca de 700 melancias na shamba, crescendo para chegar a um tamanho comercial. Nós ainda temos pimentões e berinjelas africanas (estão florindo, primeiro sinal de frutas). Nós ainda temos um longo caminho a percorrer para garantir a sustentabilidade do nosso projeto sustentável.

Magoma é um lugar fora do mapa. Muitas coisas podem dar errado aqui, é por isso que a região vem enfrentando muitos problemas desde sempre.
Estamos trabalhando para mudar essa realidade. Estamos trabalhando para permitir que as pessoas cresçam em tamanho e perspectivas. US$ 187,50 não é uma quantia enorme de dinheiro. US$187,50 pode alimentar 30 alunos na escola por um ano. US$187,50 é um começo.

Pp. Quando o caminhão partiu para a Korogwe, Babu disse "esta noite vou dormir como criança e ter bons sonhos. Pela primeira vez em muito tempo não vou estar preocupado com as matikiti durante a noite". Aparentemente eu não era a única sonhando com as matikiti...

PP1. Assim que o caminhão seguiu para a Korogwe levamos a bomba de irrigação para a shamba. O trabalho continua e os sonhos tranqüilos tiveram que esperar até estar escuro demais para ver uma pessoa a 10 centímetros de distância sem uma lanterna.