sexta-feira, 21 de maio de 2010

1 semana de arrecadação

Esta semana foi tensa e estressante. Estou, literalmente, contactando todo mundo e empenhada em arrecadar R$15.000,00 para o 2Seeds. Durante todo o tempo houve altos e baixos, diversas promessas, muito empenho e algumas decepções. Isso pra não falar da expectativa constante.

Arrecadar mistura vários sentimentos e inicialmente eu estava bastante constrangida. Mas conforme a semana foi passando o constrangimento foi ficando de lado e passei e ligar e mandar emails sem qualquer dificuldade. Acho que isso vem do quanto implementar este projeto em Magoma é importante pra mim. Tenho certeza que seremos capazes de mudar a vida daquelas pessoas e de dar o pontapé inicial para que a região se desenvolva.
Um grande objetivo supera qualquer constrangimento.

Também coletei muitas informações: armazéns que os ratos não escalam, fossas secas, armadilhas para mosquitos e muitas informações relacionadas a agricultura orgânica, arroz, mandioca e certificações. Alguns excelentes contatos estão me ajudando nisso e me provendo informações. Tenho encontrado soluções simples e baratas que poderão ser facilmente implementadas em uma região de recursos escassos.

A frustração que tem me acompanhado diz respeito a algumas pessoas que questionam um projeto de ajuda a Magoma quando o Brasil enfrenta suas próprias dificuldades. Tudo que posso dizer é que um bom projeto, que reduza a desigualdade de forma consistente, é válido em qualquer lugar do mundo. Idealismo não conhece fronteiras, o sonho de um mundo mais equilibrado não mede distâncias.
Pessoas passando fome e crianças sem condições de aprendizado é triste em qualquer lugar. Trabalhar pra mudar esta realidade é uma questão de humanidade, não de divisas.


As baleias que minha equipe vai tentar desencalhar na Tanzânia são gigantescas. O mundo parou ali e a globalização se esqueceu de incluir a região no globo. Até mesmo o tempo é contado de maneira diferente e a ascensão social está tão distante que nem a mente das pessoas consegue alcançá-la. A preocupação comum é a sobrevivência, longe da moda, da TV, das rodas de amigos.
Ainda que no Brasil muitas pessoas passem sérias dificuldades, estamos num patamar acima da Tanzânia porque temos uma economia consistente e estamos em rotas comerciais. Temos problemas políticos e administrativos (sérios) mas não faltam recursos. Na Tanzânia os recursos não existem, basta dizer que 80% das pessoas vivem da agricultura pra subsistência. Isso significa que raramente usam dinheiro, estão afastadas do mercado capitalista e não existem em muitas estatísticas.

Espero que a arrecadação floresça esta semana e muitas sementes plantadas rendam frutos. São esses recursos que viabilizarão o treinamento em agricultura orgânica, o microcrédito e todos os investimentos em infraestrutura.

Pra pensar sobre a colaboração:
Sei que cada possível doador tem uma quantia na cabeça.
Peço que a dobre.
Agora me responda sinceramente: se você doar o dobro da quantia que estava pensando, esse dinheiro fará falta na sua vida?

Na vida das pessoas de Magoma fará uma incrível diferença!
Vamos plantar essa semente!

Pp. Obrigada Gatinhas!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Arrecadação

2Seeds Network é uma organização que funciona como incubadora para pequenos e eficazes projetos de desenvolvimento baseados em agricultura familiar e orgânica.

Missão: contribuir significativamente para a redução da fome nos lugares onde atua, capacitando pessoas, disponibilizando recursos e fomentando a sustentabilidade.

Visão: proporcionar segurança alimentar e segurança financeira a agricultores de subsistência para facilitar sua mobilidade social.

O 2Seeds Network existe desde 2009 e atua na cidade de Korogwe, Tanzânia. Em 2010, será implementado em duas novas regiões da Tanzânia: Magoma e Lutindi. A Tanzânia, país do leste da África, está entre os 10% com menor renda per capita do mundo. Cerca de 80% da população tanzaniana vive no campo e a agricultura para subsistência é a única fonte alimentar de grande parte desse povo. As pessoas que vivem nesse país não têm acesso à tecnologia, usam técnicas rudimentares na agricultura (o que deixa a terra pobre em nutrientes) e espalham as sementes indiscriminadamente pelo solo. Com o agravante dos períodos de seca que se sucedem no país, muitas pessoas não conseguem colher o suficiente para alimentar suas famílias e, assim, a fome é um problema recorrente.


OBJETIVOS

O projeto conta com equipes formadas por jovens talentos de diferentes culturas. Cada equipe 2Seeds Network implementará um plano de agricultura orgânica e providenciará treinamento aos agricultores, recursos para infraestrutura e microcrédito. O objetivo é promover a segurança alimentar e garantir que as pessoas tenham o suficiente para comer além de um excedente para comercializar e investir na plantação.
Em 2009, o Korogwe Project (predecessor do 2Seeds Network) garantiu um aumento de 250% na produção agrícola - a expectativa é de que esse aumento atinja 500% caso haja chuva suficiente.
A proposta do projeto não é o assistencialismo. Serão disponibilizadas condições físicas e intelectuais para que cada família incubada possa suprir suas necessidades com seu próprio trabalho, garantindo recursos de sustento e sobrevivência no médio e longo prazos.

LOCAL DE ATUAÇÃO – MAGOMA (TANZÂNIA - ÁFRICA)

O projeto será implementado em Magoma, vilarejo no nordeste da Tanzânia que está a 38 km ao norte de Korogwe. Como a estrutura do local é precária, o vilarejo não aparece no mapa e a cidade mais próxima para referência se chama Kerenge.
A população de Magoma vive da fabricação de sisal e da agricultura para subsistência.

* Note que o Google-Maps mostra uma cidade chamada Magoma-Mara, perto da fronteira norte do país, a qual é uma outra cidade e não tem qualquer relação com o local em que o 2Seeds implementará seu programa.

A EQUIPE

O modelo do 2Seeds Network busca capacitar jovens lideranças para desenvolverem ao máximo suas competências - cada membro das pequenas equipes de trabalho tem autonomia e assume grandes responsabilidades.
A equipe do Projeto Magoma é formada por 4 pessoas. Os coordenadores de projeto estarão alocados em Magoma por um período de 2 a 6 meses e o mentor, alocado nos Estados Unidos, dará toda a assistência necessária à equipe.

Alex Saltonstall (mentor de projeto) – 34 anos – Gerente geral da divisão de tecnologia da Cambium Learning, companhia com foco no desenvolvimento e venda de produtos e serviços para o desenvolvimento pedagógico de estudantes com necessidades especiais e pertencentes a grupos de risco. Graduado em Negócios pela Harvard Business School.

“2Seeds is a unique opportunity for young and motivated individuals to assume a leadership role and make a direct and sustained difference in the lives of an African community struggling to break out of the cycle of poverty. As a mentor, this is an opportunity for me to work with exceptional individuals in the formative stages of their careers, and in so doing participate in the inspiring work they will be doing in Tanzania. For me this is a way to help make the world a better place, one community at a time”.

Ana Lê Rocha (coordenadora de projeto) – 32 anos – Designer e administradora de empresas. Graduada pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie, com especialização em branding pela ESPM Business School e pós-graduação em Administração de Empresas, com foco em Estratégia Empresarial e Marketing, pela Fundação Getúlio Vargas.

“O mundo é um conjunto de realidades, não uma verdade única e absoluta. Mesmo que não possamos mudar a realidade como um todo, podemos mudar algumas pequenas realidades e trazer um pouco de equilíbrio para algumas pessoas que praticamente não fazem parte do mundo globalizado que conhecemos.”

Kristina Adair (coordenadora de projeto) – 21 anos – Estudante senior - Global and Area Studies com especialização em Cultura Africana na School of Social Science da Michigan State University.

“I will complete my B.A. in African Studies this year at Michigan State University to compliment some experiences working within several different development organizations in Tanzania and Malawi. I'm thrilled to continue to pursue both education and experience in international development as a outlet to combine my passion for encouraging efficient social action with innovative, appropriate routes of creating opportunity amidst poverty.”

Ronan Devlin (coordenador de projeto) – 22 anos – estudante senior de Ciências Sociais na Harvard Business School.

CAPTAÇÃO DE RECURSOS – NECESSIDADES FINANCEIRAS

Para financiar o projeto, desde os custos de viagem até o microcrédito, cada membro da equipe precisa arrecadar recursos financeiros pré-estipulados. A meta de arrecadação local (Brasil) é de R$15.000,00.
Ana Lê Rocha é a coordenadora responsável pela arrecadação no Brasil. Todo recurso será usado para implementar o projeto de desenvolvimento sustentável em Magoma. Haverá controle e supervisão de todo o dinheiro arrecadado, assim como prestação de contas aos envolvidos.
(no blog pessoal da coordenadora Ana Lê Rocha é possível acompanhar todos este detalhes: http://maquinadedesencalharbaleias.blogspot.com/)
O prazo para captação de recursos é de 10 de maio a 15 de junho de 2010. Após este período novas doações podem ser feitas, mas os recursos iniciais já devem ter sido arrecadados para que a equipe cumpra seu cronograma e inicie o trabalho na Tanzânia em 1 de julho de 2010.

PARCERIA - RETORNO PARA COLABORADORES

Os nomes dos colaboradores (pessoas Física ou Jurídica) poderão ser divulgados no blog montado para o projeto (se for de interesse do colaborador). As empresas terão seus logos divulgados e receberão uma imagem para ser usada como email marketing, além de imagens e informações para seus relatórios de responsabilidade social ou sustentabilidade.
Todos os colaboradores receberão um cartão postal personalizado com foto do projeto montado na Tanzânia e um sumário da experiência, assim que o projeto for implementado. Além disso, receberão também um recibo da 2Seeds Network referente a sua colaboração financeira.

Desde já, a equipe 2Seeds Network agradece sua atenção e fica a seu dispor para qualquer esclarecimento.

CONTATO:

Ana Lê Rocha
55 11 9927.3058
anale.rocha@globo.com
Skype: analerocha
LinkedIn: http://br.linkedin.com/in/analerocha

Para mais informações sobre 2Seeds Network, acesse:
http://www.2seeds.org/
http://thekorogweproject.com/
http://maquinadedesencalharbaleias.blogspot.com

DADOS BANCÁRIOS:


DEPÓSITO BANCÁRIO (BRASIL):
Banco Itaú
Agência 0192
Conta-corrente 18513-0 CPF: 115.069.598-65
Titular: Ana Alexandrina Rocha

*Por se tratar de uma organização norte-americana, o depósito bancário em conta-corrente brasileira só pode ser efetuado através da conta-corrente de Ana Lê Rocha. Ao final do período de arrecadação, todo o dinheiro será transferido para a conta-corrente do Projeto Magoma, no Wachovia Bank (divisão do Wells Fargo).

PAY-PAL:
www.paypal.com.br
Click em "enviar dinheiro"
email do destinatário: jimmy.henderson@2seeds.org

IMPORTANTE: fazer uma anotação informando que a colaboração se destina ao Projeto Magoma


VAMOS PLANTAR ESSA SEMENTE!!!

Treinamento 2Seeds

Olá a todos! Passei algum tempo ausente e tenho muitas novidades para compartilhar com vocês.
Fui ao treinamento do 2Seeds em Boston MA, onde conheci minha equipe de trabalho na Tanzânia. Os 10 coordenadores de projeto, 3 mentores e todos os membros administrativos da organização estavam presentes - além de um de nossos parceiros tanzanianos. Não tenho outra forma de descrever a experiência a não ser dizendo que encontrei meu lugar no mundo. De repente eu estava cercada de pessoas que têm ideais muito próximos aos meus e a mesma energia direcionada ao projeto. Confesso que não achei que um dia me sentiria assim.

Estou indo para um vilarejo chamado Magoma, que fica no centro da Tanzânia, 38km ao norte de Korogwe (que é a base de outra equipe, onde foi iniciado um projeto em 2009). Magoma tem acesso precário e para que não restem dúvidas quanto a isso não está em nenhum mapa. A cidade mais próxima que é possível localizar se chama Kerenge.
Minha equipe iniciará um novo projeto em Magoma, estudando a região e verificando quais os problemas mais graves e imediatos que temos condições de combater. A intenção é montar o projeto em parceria com a comunidade local, de quem teremos que ganhar a confiança, para que a população incorpore as melhorias estruturais e se beneficie verdadeiramente com as novas perspectivas de vida, defendendo o projeto e o mantendo mesmo quando nenhum membro 2Seeds estiver por perto.

A equipe do Projeto Magoma é formada por 4 pessoas:
Alex Saltonstall (mentor do projeto) – 34 anos – Consultor e gerente geral da divisão de tecnologia da Cambium Learning, companhia com foco no desenvolvimento e venda de produtos e serviços para o desenvolvimento pedagógico de estudantes com necessidades especiais e pertencentes a grupos de risco em colégios públicos. Graduado em Negócios pela Harvard Business School.

Ana Lê Rocha (coordenadora de projeto) – 32 anos – Designer e administradora de empresas. Graduada pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie, com especialização em branding pela ESPM Business School e pós-graduação em Administração de Empresas, com foco em Estratégia Empresarial e Marketing, pela Fundação Getúlio Vargas.

Kristina Adair (coordenadora de projeto)– 21 anos - Estudante senior - Global and Area Studies com especialização em Cultura Africana na School of Social Science da Michigan State University.

Ronan Devlin (coordenador de projeto) – 22 anos - Estudante senior de Ciências Sociais na Harvard Business School.

Como a estrutura disponível em Magoma é extremamente precária, muitas são as necessidades. O desafio será analisar o contexto e escolher a melhor forma de começar, priorizando as necessidades com maior potencial de mudar a vida das pessoas.
Além do Projeto Magoma, o Projeto Korogwe terá continuidade em 2010 e o Projeto Lutindi será iniciado. Os coordenadores de projeto das 3 equipes ficarão alocados da Tanzânia de 2 a 6 meses enquanto os mentores darão toda a assistência a partir dos EUA.

Nosso treinamento foi em Harvard e incluiu uma visita à Fazenda Allandale, nos arredores de Boston, para treinamento de campo. A grande diferença entre as realidades norte-americana, tanzaniana e brasileira ficou bem clara e foi balanceada com as perspectivas de todos os participantes. Se conseguirmos extrair o melhor de cada uma dessas realidades e montar um projeto consistente, teremos um modelo fantástico para replicar por todo o mundo.

Estarei na Tanzânia em 1 de julho.
Mal posso esperar para desencalhar algumas baleias!

Photos: Jesse Uddenberg

domingo, 11 de abril de 2010

2Seeds Network

Os dias andam corridos, muito trabalho para organizar minha participação no 2Seeds, muito trabalho para organizar minha vida que ficará aqui. Estou muito feliz e a boa notícia é que o logo que desenhei para o 2Seeds foi aprovado esta semana. Um pouco da designer dentro deste novo momento :)

O 2Seeds nasceu da visão de mundo de alguns jovens norte-americanos que enxergaram a oportunidade de batalhar por um mundo melhor e desenvolveram um modelo eficaz para fazê-lo. A intenção é trabalhar com pequenos projetos e equipes pequenas, formadas por jovens (sim, sou jovem!) cheios de entusiasmo e com bastante autonomia, para desenvolver ao máximo sua capacidade de liderança paralelamente à segurança alimentar africana.
A equipe é formada por americanos e africanos. As pessoas com quem tive contato até agora parecem fantásticas e se desdobram para viabilizar o 2Seeds paralelamente a suas outras atividades. Tem excelentes networks e inspiram pessoas extremamente capacitadas a doarem suas habilidades ao projeto.

Para a temporada de 2010 foram selecionados 10 coordenadores de projeto - 7 mulheres e 3 homens. Quando fui entrevistada por Skype, disse ao entrevistador que imaginava que haveria mais candidatos do que candidatas - eu estava enganada e a seleção final mostra isso. Todos os outros coordenadores de projeto são norte-americanos, sou a única estrangeira da lista.

O que mais me encanta na proposta é que não se trata de uma temporada de férias exóticas - o objetivo é mudar a vida das pessoas a longo prazo e o tempo que cada coordenador de projeto passará na Tanzânia representa apenas uma parte do nosso envolvimento. As famílias que serão treinadas na Tanzânia ficarão encubadas por 5 anos e a intenção é garantir melhorias permanentes e consistentes. Como tanto falamos em discussões sobre sustentabilidade, não se trata de filantropia nem de assistencialismo - trata-se de um modelo eficiente e eficaz, pessoas qualificadas e dedicadas, independência (e quem sabe interdependência) para as pessoas que serão treinadas e de sustentabilidade dentro do core business.

Esta semana participarei do treinamento em Boston. Vou conhecer minha equipe, me preparar para a temporada na Tanzânia, conhecer detalhes sobre a estrutura e minhas atribuições. Estou super animada e um tantinho nervosa, devo confessar. Li bastante sobre agricultura para adquirir um vocabulário técnico e pretendo absorver o máximo de informações. Estou ansiosa para conhecer as pessoas e para ter a primeira impressão de como será nossa interação - pelo perfil dos participantes, há uma grande chance de se formarem equipes de alta performance mas isso dependerá muito da sinergia que conseguiremos estabelecer.

Entre tantas coisas acontecendo, a sensação de que estou seguindo exatamente o caminho que devo seguir é indescritível. Estou virando minha vida de ponta-cabeça, vivendo grandes mudanças. Mas estou totalmente segura sobre este caminho e tenho a sensação de que o universo tem conspirado para concretizá-lo. O encaixe em meu momento de vida tem acontecido perfeitamente e todas as dificuldades tem sido contornadas com suavidade.

Butterflies in my stomach :)
Até breve!

Para saber mais (em inglês):
http://www.2seeds.org/

Pp. Muitas pessoas tem se mostrado preocupadas com a minha segurança. Ainda não sei exatamente para onde vou então não posso tranquilizá-las com informações sobre a região. O que posso dizer é que tudo na vida envolve riscos e por tudo que pesquisei não estou indo para um lugar extremamente violento. É inegável que a questão dos estupros associada aos altos índices de infecção por HIV preocupa qualquer mulher (e tem preocupado os homens maravilhosos que fazem parte da minha vida). Mas tomarei todos os cuidados possíveis e me cercarei de informações. A exposição ao risco existe na Tanzânia ou no Brasil, farei o melhor para me proteger enquanto faço um bom trabalho.

sábado, 10 de abril de 2010

Tanzânia


Hoje vou falar um pouco sobre a Tanzânia. Quando digo que estou indo para lá quase todo mundo corre para olhar no mapa que lugar é esse - confesso que eu também tive que pesquisar bastante sobre o país quando decidi me candidatar ao 2Seeds.
A primeira distinção essencial é: Tanzânia, Tasmânia e Transilvânia são países diferentes que ficam, respectivamente, na África, na Austrália e na Europa. Os nomes se parecem mas para minha sorte, e de todos os outros membros da equipe, não precisarei fugir do demônio da Tasmânia nem usar colares de alho para me proteger de vampiros.

A Tanzânia fica no leste da África, tem fronteiras com Quênia, Uganda, Ruanda, Burundi, Congo, Zâmbia, Malaui e Moçambique, além do oceano Índigo (sentido anti-horário).
O idioma oficial é o Swahili (origem Bantu) paralelamente a dezenas de dialetos, inglês nos órgãos oficiais e árabe em Zanzibar (parte insular do país). Comprei um Swahili Phrasebook esta semana para tentar aprender ao menos expressões simples como "bom dia", "boa tarde" e "boa noite" já que considero um sinal de respeito cumprimentar as pessoas em seu idioma antes de pedir que elas se desdobrem para se comunicar comigo em uma língua que eu entenda. Aliás, esta é minha melhor dica de viagem - nos 4 meses que mochilei pela Europa, este hábito me permitiu contar com a boa vontade de franceses, húngaros, gregos e pessoas de outras várias nacionalidades que não falavam inglês, português, espanhol ou alemão. Mesmo quando o idioma era tão desconhecido que nem as letras eu conseguia entender (na Grécia, entender a palavra "Atenas" no letreiro do trem era um grande desafio), o cumprimento no idioma da casa era o primeiro passo para a mímica que se seguia.
Voltando à Tanzânia, na parte continental do país há uma distribuição equilibrada entre cristãos, muçulmanos e seguidores de religiões africanas - apenas Zanzibar é majoritariamente muçulmana. Eu torço para que isso me livre de usar véu enquanto estiver por lá - essa foi uma das minhas curiosidades quando pesquisei sobre a Tanzânia mas devo dizer que a maioria das fotos que vi não tinha mulheres.
De acordo com o Lonely Planet, meu guia de viagem e grande companheiro, mulheres viajantes são bem aceitas na Tanzânia. O país se parece com o Brasil nos comentários sobre a receptividade das pessoas, todos dizem que os tanzanianos são bastante abertos e sorridentes. Há cerca de 120 diferentes grupos étnicos no país, algumas tribos nômades, e aparentemente a convivência é harmoniosa e a riqueza cultural é motivo de orgulho. Justamente por isso há muitos refugiados na Tanzânia, vindos dos países da fronteira onde conflitos por etnia são bastante frequentes.
A colonização da Tanzânia, assim como de toda a África, ocorreu de forma totalmente irresponsável e a independência foi conquistada em 1963 (foi colônia alemã até a 2ª Guerra e da Inglaterra até a independência).
Politicamente, há denúncias de irregularidades a cada eleição apesar de se tratar de uma democracia - realmente seria difícil considerar uma democracia plena um país com enormes problemas sociais.
No quesito saúde, tudo é um problema. Ao pesquisar as vacinas que devo tomar, a lista é tão grande que mal sei por onde começar. O risco de infecção é considerado muito alto para hepatite A, febre tifóide, malária, praga, esquistossomose e até para raiva. De quando iniciei minhas pesquisas até agora, os dados sobre infecção por HIV já passaram por duas atualizações e giram em torno de 6,2% da população - para termos uma base de comparação, no Brasil giram em torno de 0,6%. É bom lembrar que, em toda a África, a imprecisão desses dados é bastante considerável por motivos estruturais e religiosos - normalmente os índices reais são bem piores que os índices oficiais.

O Kilimanjaro, pico mais alto da África e famoso nas discussões sobre aquecimento global por estar perdendo sua "neve eterna", fica na Tanzânia. Aparentemente é o pico mais alto do mundo em que há sinal para celulares GSM - não sei a relevância disso mas havia bastante entusiasmo nesta informação quando a encontrei. Há regiões para safaris fotográficos, praias desertas (muitos piratas no mar), uma região de lagos e o clima varia do tropical ao temperado (nas montanhas).
Sobre música e dança (assunto que muito me interessa) há muitos ritmos percussivos. Uma curiosidade é que Freddie Mercury era tanzaniano de Zanzibar.

Estou bastante otimista em relação à minha adaptação ao dia-a-dia tanzaniano. Quando li o blog da equipe que esteve em Korogwe ano passado, me diverti com as fotos dos americanos loirinhos de Harvard conhecendo pela primeira vez um país em desenvolvimento, com enormes dificuldades para chupar laranjas da maneira que nós fazemos isso e sofrendo para jogar uma pelada, descalços, com crianças de 10 anos de idade. Acho que ser brasileira pode me ajudar um pouco, tanto pela nossa diversidade quanto pelos cuidados que naturalmente tomamos viajando pelo Brasil. Sam e Jesse, os dois americanos que escreveram o blog do Korogwe Project, fizeram um excelente trabalho. Espero conseguir fazer o mesmo.
Quanto à agenda, já tenho visto e passagens para o treinamento em Boston no fim deste mês. Lá devo conhecer minha equipe, aprender um pouco sobre agricultura orgânica e receber diversas outras informações sobre minhas atribuições - com sorte alguma indicação sobre para onde vou e quando viajo.

Post-post. Durante esta semana pude sentir a repercussão que participar de um projeto como este traz para a sua vida. Vi meus amigos maravilhosos me encorajarem, vi muitas pessoas preocupadas com a minha segurança, tive que explicar a outras pessoas porque me candidatei ao projeto e porque estou tão feliz em ter sido selecionada. Algumas respostas me fizeram sentir que terei muita companhia na Tanzânia, de pessoas fantásticas que estarão ao meu lado em energia e pensamento. Obrigada a todos vocês!

domingo, 4 de abril de 2010

Máquina de desencalhar baleias

Olá a todos! Começo hoje minha vida de blogueira. A máquina de desencalhar baleias é um sonho antigo que carrega minha vontade de mudar o mundo e criar uma realidade bem mais colorida e bonita do que esta que estamos vivendo.
Sempre fiquei triste com as baleias encalhadas na praia e sempre tive a certeza de que, com recursos e muito empenho, seria possível salvá-las daquela situação. Mudar o mundo é como desencalhar baleias: uma tarefa árdua que a maioria das pessoas diz ser impossível, mas que vale cada gota de suor que cada um de nós gasta tentando. O mundo é um conjunto de realidades, não uma verdade única e absoluta. Mesmo que não possamos mudar todas elas ao mesmo tempo, podemos tentar criar realidades mais bonitas em muitos pedacinhos de mundo.

Ontem eu soube que fui aprovada para o 2Seeds Network, um projeto de sustentabilidade que funciona como uma incubadora para promover o desenvolvimento de regiões pobres. Em breve eu irei para a Tanzânia como integrante de um time que buscará soluções e implementará um projeto de agricultura social e orgânica.
Vou escrever muito sobre a Tanzânia e sobre o 2Seeds nos próximos blogs. Apenas para começar, a Tanzânia está entre os 10% de países com menor renda per capita do mundo, tem problemas enormes de saúde (6º país do mundo em infecção por HIV), praticamente nenhuma infraestrutura e 80% da população trabalhando no campo, plantando, a maioria para garantir a própria subsistência. As pessoas não tem acesso a nenhum tipo de tecnologia, usam técnicas rudimentares na agricultura (o que deixa a terra pobre em nutrientes) e espalham as sementes indiscriminadamente pelo solo. Com o agravante dos períodos de seca que se sucedem no país, muitas pessoas não conseguem colher o suficiente para alimentar suas famílias e a fome é um problema recorrente.
O objetivo do projeto é promover a segurança alimentar dessas pessoas e garantir que elas tenham o suficiente para comer e um excedente para comercializar e investir na sua plantação. As equipes que irão à Tanzânia (eu farei parte de uma delas) serão responsáveis por treinar os agricultores e viabilizar a estrutura necessária para o aumento de produtividade. O primeiro ano do projeto garantiu um aumento de 250% na produção, a expectativa é de que esse aumento possa chegar a 500% se houver chuva suficiente.
O 2Seeds é uma organização norte-americana apoiada por parceiros na Tanzânia dedicados ao projeto. A união das 2 sementes, o expertise americano (e aqui me refiro à equipe norte-americana e a esta brasileira que agora é parte da equipe) com a força de trabalho tanzaniana, certamente proporcionará melhores condições de vida para uma parcela da população que não tem acesso a qualquer tipo de incentivo.

Eu estou muito feliz de ter sido selecionada e de fazer parte do projeto, é um objetivo que busquei por toda a minha vida e que se encaixou perfeitamente neste momento. Minha oportunidade de colocar em prática tudo que acredito e tudo que aprendi.
Terei mais informações em breve sobre a agenda do projeto e espero contar com todos vocês para viabilizá-lo e disseminar a idéia, para que possamos juntos espalhar essas sementes e começar a construir a nossa máquina de desencalhar baleias.

Para mais informações sobre o projeto, acesse (todos em inglês):

http://www.2seeds.org/
http://thekorogweproject.com/
http://thekorogweproject.blogspot.com/