quarta-feira, 8 de maio de 2013

Apresentando: Mzee Adamu



Mzee Adamu: os dentes que lhe faltam na boca lhe dão um olhar sisudo que dura apenas até ele abrir o sorriso e se encher de orgulho de seu galinheiro, de sua horta e da futura floresta que está crescendo em seu quintal.

Mzee Adamu é bravo, ninguém mexe com ele, e vindo das montanhas de Lushoto entende um pouco de cultivo de vegetais – mais de uma vez eu comprei suas berinjelas. E sonha em ver uma Kwakiliga verde, cheia de árvores, então cuida de cada mudinha ao redor de sua casa.

Mzee Adamu tem cabras muito bem cuidadas e é bem jeitoso em carpintaria. Ele e sua esposa, Mama Adamu, guardam os segredos da tradicional culinária sambaa (sua tribo) e mesmo em períodos de fome têm frutas e vegetais secos escondidos em algum lugar dentro de casa.
Mama Adamu cozinha a melhor bada da região (pasta de mandioca com água).

Há dias que eu não sei o que estou fazendo aqui. Hoje não é um deles!

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Depois de 15 dias sem supervisão logo após receberem as primeiras galinhas, nossos parceiros em Kwakiliga provaram que estavam prontos para a responsabilidade:
  • Todas as galinhas sobreviveram e são provavelmente as galinhas mais saudáveis (e felizes!) da região;
  • As 106 mudas de árvores que eu deixei em Kwak antes de viajar foram plantadas e as árvores estão grandes e saudáveis;
  • A comida está sendo administrada corretamente, incluindo o aumento da quantidade conforme as galinhas crescem;
  • Apesar de três galinhas terem ficado doentes, elas foram medicadas imediatamente e separadas das demais e todas se recuperaram plenamente;
  • Ninguém está entrando no galinheiro sem os sapatos corretos - doenças não estão sendo carregadas para dentro;
  • Nosso network está super engajado! Babu, nosso parceiro em Magoma e líder da iniciativa de reflorestamento, plantou as árvores com nossos parceiros em Kwak e tem supervisionado seu crescimento.
As galinhas parecem estar muito felizes com seus playgrounds - cada galinheiro tem uma área onde as galinhas voam, correm e comem insetos e folhas. A coisa mais impressionante para mim hoje foi perceber que as nossas galinhas não têm medo de gente - eu sentei em cada um dos galinheiros e todas as galinhas chegaram perto, curiosas, e bicaram meus dedos.
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Números:
3 galinheiros + 101 galinhas + 6 meses de comida para galinhas + 6 meses de remédios para galinhas + 106 árvores + arroz e feijão para os dias de trabalho + treinamentos = US$3,300 (dos quais já arrecadamos US$1,100).

Meu objetivo é arrecadar R$4.000,00.
Todos os contribuintes receberão, como sempre, atualizações sobre o andamento do projeto e um relatório financeiro explicando como o dinheiro foi gasto. 

Nos ajudem a transformar sonhos em omeletes!


Para contribuir:

Pelo site da 2Seeds é possível contribuir via PayPal ou cartão de crédito:
http://www.2seeds.org/donate/
Não se esqueça de especificar que a doação se destina a Kwakiliga.

Para depósito em conta-corrente continuo usando minha conta pessoal no Brasil e transferindo o dinheiro para a organização (postarei os comprovantes):
Banco Itaú
Agência 0192
C/C 18513-0
Ana Alexandrina Rocha
CPF 115.069.598-65
Não se esqueça de especificar que a doação se destina a Kwakiliga.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Apresentando: Mzee Rubeni




Mzee Rubeni: o doce solteirão de Kwak, sempre cavalheiro, sempre romântico, buscando uma mulher que cuide dele e que lhe dê amor. Claro que ele já foi casado, algumas vezes, mas como bom romântico é um belo galanteador.

Mzee Rubeni compra DVDs em Korogwe, filmes de ação e luta, e os exibe em seu vídeo-show, uma TV em sua sala-de-estar, o que lhe garante uma pequena renda mensal e complementa sua aposentadoria (luxo que muito poucos têm na Tanzânia e herança de seu passado trabalhando na indústria de sisal).

Agricultor de coração ele não mede esforços para manter um jardinzinho fora de casa e uma roça (que infelizmente não tem crescido, como mostra a foto do que deveria ser uma plantação de mandioca).

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Apresentando: Mzee Mcharo

Temos parceiros fantásticos em Kwak e esta semana vou me dedicar a escrever um pouco sobre cada um deles, um parceiro por dia =)

Começando com nosso Mwenikiti, o líder do grupo, apresento Mzee Mcharo:




O melhor agricultor da vila, Mzee Mcharo faz sempre tudo certo e tem uma família doce e unida. Sua esposa, Mama Mcharo, começou a vender hafi-keki (Swahili for half-cake, um bolinho quadrado frito, duro, feito de farinha, água e um pouco de açúcar) para trazer renda para a família quando a lavoura secou.

Os Mcharo têm um filho e três filhas. As meninas do meio foram aprovadas em escolas secundárias de qualidade mesmo vindo de uma escola primária que mal tem paredes. A anuidade é cara, mas Mzee Mcharo diz que se elas foram competentes para entrar ele não vai pará-las por falta de dinheiro – e assim a família se espreme para pagar educação.

Mzee Mcharo tenta de tudo, sempre no tempo certo, nunca está atrasado para o cultivo e mesmo assim amargou um período de fome excruciante depois de 3 anos sem chuva. Ainda me lembro da primeira vez que pisei em Kwak, em 2010, quando comemos melancias da horta de Mzee Mcharo (que desde então não viu uma espiga de milho).

Os Mcharo são muito magros, beiram 0% de gordura corporal, mas dividem o pouco que têm e vivem com amor e alegria. O chá de gengibre de Mama Mcharo é imbatível!

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Um oásis no meio do sertão: transformando sonhos em omeletes





Já escrevi bastante sobre Kwakiliga, esta vila de terra vermelha e sem fontes de água que tem pessoas que trabalham cantando mesmo quando estão com fome e que riem da sua sorte para evitar as lágrimas.
Há três anos não chove em Kwak. Há três anos não há colheita.

Em nosso último summit em Korogwe, reunião em que representantes de todos os projetos se reunem para discutir seu progresso e desafios, meus olhos marejaram de orgulho de Kwakiliga: não tínhamos resultados para mostrar, mais uma vez, e os desafios pareciam abismos se abrindo sob nossos pés.
Nossos parceiros resumiram nossa história com uma lista de fracassos agrícolas: milho, lentilha, mais milho, girassol e até mesmo mandioca, a mais resistente das raízes, que sobrevive quase (palavra-chave) sem água.
Quando o salão secou em silêncio e todos se entreolharam tristes, Mama Halima, a secretária do grupo, levantou os olhos e disse: mas nós não desistimos! Vamos criar galinhas!

O que me encanta na 2Seeds é que aqui não temos um projeto de plantar girassol, milho ou lentilha. Nossos projetos carregam os nomes das vilas e a força de nossos parceiros. Kwakiliga é o melhor exemplo de que sucesso e fracasso são conceitos mais complexos do que números de colheita. Enquanto a lavoura morria, ano após ano, o grupo se fortalecia e sua perseverança se apoiava no senso de união.

Desde janeiro vejo os calos e as cicatrizes se multiplicarem no mesmo ritmo em que o brilho dos olhos de nossos parceiros ofusca o cansaço. Começamos a construir nossos galinheiros, inspirados num modelo integrado e sustentável brasileiro (veja post anterior) com nossas próprias mãos.
Há duas semanas os galinheiros completos (e lindos) receberam suas primeiras galinhas. Começamos devagar (34 galinhas no galinheiro #1, 34 galinhas no galinheiro #2 e 33 galinhas no galinheiro #3) para reduzir o risco e o investimento até que nossos parceiros ganhem o conhecimento e a experiência necessários para prosperar. Ao redor dos galinheiro plantamos 106 árvores, uma forma de devolver à terra a madeira que usamos e também de criar uma sombra futura em terra de sol latente. As árvores integram nosso sistema sustentável e nossa esperança é que elas nos ajudem a reabilitar o solo para que comecemos a desenhar o nosso oásis.


Números:
3 galinheiros + 101 galinhas + 6 meses de comida para galinhas + 6 meses de remédios para galinhas + 106 árvores + arroz e feijão para os dias de trabalho + treinamentos = US$3,300 (dos quais já arrecadamos US$1,100).

Meu objetivo é arrecadar R$4.000,00.
Todos os contribuintes receberão, como sempre, atualizações sobre o andamento do projeto e um relatório financeiro explicando como o dinheiro foi gasto. 

Nos ajudem a transformar sonhos em omeletes!


Para contribuir:

Pelo site da 2Seeds é possível contribuir via PayPal ou cartão de crédito:
http://www.2seeds.org/donate/
Não se esqueça de especificar que a doação se destina a Kwakiliga.

Para depósito em conta-corrente continuo usando minha conta pessoal no Brasil e transferindo o dinheiro para a organização (postarei os comprovantes):
Banco Itaú
Agência 0192
C/C 18513-0
Ana Alexandrina Rocha
CPF 115.069.598-65
Não se esqueça de especificar que a doação se destina a Kwakiliga.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Sangue, suor e omeletes

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Nosso grupo de agricultores em Kwakiliga, o mais antigo da 2Seeds, tem sofrido com a seca desde 2010 e viu cada uma de suas temporadas agrícolas falhar: milho, kunde (uma espécie de lentilha), girassol e até mesmo a resistente mandioca. Nossos parceiros se orgulham de sua resiliência na falta de um resultado para ostentar, mas como consequência dos últimos anos estão enfrentando um período assolador de fome.

Desde janeiro, estamos construindo galinheiros em Kwakiliga. Decidimos migrar de agricultura para pecuária na esperança de gerar oportunidades que não sequem nos campos. O modelo dos galinheiros veio do Brasil: PAIS, produção agroecológica integrada sustentável, um sistema que integra a criação de galinhas a agricultura e reflorestamento. Decidimos começar com as galinhas e adaptar o modelo para nossa realidade.

O grupo, de nove famílias, foi dividido em três subgrupos e cada três famílias será responsável por um galinheiro. A construção, no entanto, foi trabalho de equipe, todos trabalhando juntos em cada etapa:
1)   A marcação do terreno, formado por círculos concêntricos e uma área de recreio para as galinhas, transformou os terrenos de Kwakiliga em campos de sonhos, que poderiam facilmente representar a nossa civilização e suas crenças naquele determinado momento. Esta etapa teve a inspiradora colaboração de todos os coordenadores de projeto da 2Seeds;
2)   A colocação das estacas teve que perfurar um solo duro e sem vida, que mesmo em um dia de chuva não permite que a água o penetre 10cm;
3)   O teto foi feito com telhas de alumínio já que o desmatamento garantiu a indisponibilidade de folhas ou palha – uma terra tropical em que não crescem nem ervas daninhas;
4)   O arame forte que circunda os galinheiros fatiou nossos dedos;
5)   A área de recreio foi cercada com um arame mais leve e contínuo já que a preocupação com a segurança das galinhas é menor durante o dia;
6)   A construção dos túneis pelos os quais as galinhas irão do galinheiro para o recreio e voltarão ao galinheiro foi guiada pelo nosso cuidado em criar um ambiente seguro para as aves.

A construção de três galinheiros nos permitiu aprimoramento constante e o resultado pode ser visto no design aperfeiçoado e nos dias que se alongaram conforme nos tornamos mais rápidos. O vínculo emocional entre agricultores e galinheiros, humanos e galinhas, foi fortalecido e com o processo pudemos também fomentar criatividade e inovação dando aos agricultores a chance de aprender para que futuramente eles possam ensinar.



A esperança de sucesso alimenta nossa alma enquanto os dias de trabalho nos dão a oportunidade de compartilhar refeições que aliviam a fome latente. O ugali com feijão nos dá forças, mas apenas sacia temporariamente a fome por resultados. A gente não quer só comida, a gente quer omelete!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

2012 e suas pequenas vitórias

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2012 está chegando ao fim, meu terceiro ano na Tanzânia e com isso meu terceiro tudo na Tanzânia: aniversário sem dança (mas este ano teve bolo), Natal sem ceia (mas com pilau, arroz com especiarias, depois de uma missa de 6 horas), Reveillon sem fogos (mas com praia pelo segundo ano seguido), dia dos namorados sem namorado (neste caso sem mas :S), final do campeonato brasileiro sem TV (mas com internet pra saber os resultados), carnaval sem samba (acho que este deve ser ainda mais difícil que o dia dos namorados...).
Eu sei que parece óbvio que se estou há três anos na Tanzânia vivi três vezes o ciclo do ano na Tanzânia, mas pra quem está longe essas coisas acontecem desconectadas e as duas frases que parecem dizer a mesma coisa são sentidas de forma muito diferente.

2012 foi um ano de crescimento, de muita reavaliação, de me posicionar de forma diferente, de viver de forma diferente, de reavaliar parcerias. 2012 foi um ano de correções; para fazer melhor, ser melhor; deixar pra trás coisas que um dia foram muito importantes e correr atrás de outras que ficaram momentaneamente em segundo plano. Foi um ano de novos erros e novos acertos, de reconhecer erros doloridos, realinhar expectativas (work in progress), de buscar.


Acho que desde que vim para a Tanzânia apenas duas coisas jamais mudaram: as saudades que sinto de vocês e o desejo de desencalhar baleias. Assim vou seguindo, e como este trabalho é feito de pequenas vitórias, cada uma delas um pequeno movimento de uma pequena baleia, gostaria de compartilhar algumas pequenas vitórias de 2012 com vocês:

1.    Os alunos de Kijango, segunda escola do projeto Magoma, comeram na escola pela primeira vez em suas vidas, resultado de seu trabalho criando galinhas e produzindo ovos;
2.    Os agricultores de Bombo Majimoto produziram vegetais pela primeira vez e venderam em grandes mercados da Tanzânia;
3.    Os agricultores de Bungu produziram e venderam, juntos, mais de cinco toneladas de vegetais;
4.    Os agricultores de Kijungumoto resistiram juntos à seca e plantaram 845 plantas de jiló em sua primeira produção de vegetais;
5.    Alguns de nossos agricultores de Bungu e Magoma viram o mar pela primeira vez ao lideraram um de nossos meet-ups para outras organizações em Dar es Salaam, uma iniciativa do projeto Masoko;
6.    Os agricultores de Lutindi, também pela primeira vez, coordenaram um calendário para produção coletiva que os permitirá colher consistentemente vegetais de alta qualidade. A expectativa é que nossos parceiros colham mais de 200 toneladas de vegetais em uma única estação;
7.    Shabani (13 anos), um dos mais dedicados estudantes do projeto Magoma, liderou pela primeira vez treinamentos para nossos parceiros de outros projetos, todos adultos, através do projeto Korogwe. O garoto, que acaba de se formar no ensino fundamental, agora diz com um sorriso no rosto que quer ser professor;
8.    Nossos agricultores de Kwakiliga plantaram a mais bela shamba-darasa (fazenda-escola) de mandioca que já vi, cantando e fazendo piada enquanto trabalhavam sob o sol escaldante mesmo estando com os corpos magrinhos depois de três anos de seca;
9.    Como uma organização focada em desenvolvimento de capital humano, tivemos nossa primeira sessão de feedback para os coordenadores de projeto e com ela criamos estrutura para seu crescimento ao longo do ano;
10. Talvez nosso maior sucesso, presente em muitos dos itens acima,; coordenamos uma transição eficiente entre grupos de coordenadores de projeto (cada grupo fica na Tanzânia por aproximadamente um ano), o que permitiu que os novos coordenadores de projeto se adaptassem a seus postos sem que perdêssemos momentum com nossos parceiros.


Logicamente que todas essas pequenas vitórias são apenas um começo, mas justamente por isso, por serem um começo, é que são tão importantes.

Que 2013 nos permita mais começos e mais meios!
Feliz Natal e um 2013 de oportunidades para todos :)