terça-feira, 7 de maio de 2013

Apresentando: Mzee Rubeni




Mzee Rubeni: o doce solteirão de Kwak, sempre cavalheiro, sempre romântico, buscando uma mulher que cuide dele e que lhe dê amor. Claro que ele já foi casado, algumas vezes, mas como bom romântico é um belo galanteador.

Mzee Rubeni compra DVDs em Korogwe, filmes de ação e luta, e os exibe em seu vídeo-show, uma TV em sua sala-de-estar, o que lhe garante uma pequena renda mensal e complementa sua aposentadoria (luxo que muito poucos têm na Tanzânia e herança de seu passado trabalhando na indústria de sisal).

Agricultor de coração ele não mede esforços para manter um jardinzinho fora de casa e uma roça (que infelizmente não tem crescido, como mostra a foto do que deveria ser uma plantação de mandioca).

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Apresentando: Mzee Mcharo

Temos parceiros fantásticos em Kwak e esta semana vou me dedicar a escrever um pouco sobre cada um deles, um parceiro por dia =)

Começando com nosso Mwenikiti, o líder do grupo, apresento Mzee Mcharo:




O melhor agricultor da vila, Mzee Mcharo faz sempre tudo certo e tem uma família doce e unida. Sua esposa, Mama Mcharo, começou a vender hafi-keki (Swahili for half-cake, um bolinho quadrado frito, duro, feito de farinha, água e um pouco de açúcar) para trazer renda para a família quando a lavoura secou.

Os Mcharo têm um filho e três filhas. As meninas do meio foram aprovadas em escolas secundárias de qualidade mesmo vindo de uma escola primária que mal tem paredes. A anuidade é cara, mas Mzee Mcharo diz que se elas foram competentes para entrar ele não vai pará-las por falta de dinheiro – e assim a família se espreme para pagar educação.

Mzee Mcharo tenta de tudo, sempre no tempo certo, nunca está atrasado para o cultivo e mesmo assim amargou um período de fome excruciante depois de 3 anos sem chuva. Ainda me lembro da primeira vez que pisei em Kwak, em 2010, quando comemos melancias da horta de Mzee Mcharo (que desde então não viu uma espiga de milho).

Os Mcharo são muito magros, beiram 0% de gordura corporal, mas dividem o pouco que têm e vivem com amor e alegria. O chá de gengibre de Mama Mcharo é imbatível!

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Um oásis no meio do sertão: transformando sonhos em omeletes





Já escrevi bastante sobre Kwakiliga, esta vila de terra vermelha e sem fontes de água que tem pessoas que trabalham cantando mesmo quando estão com fome e que riem da sua sorte para evitar as lágrimas.
Há três anos não chove em Kwak. Há três anos não há colheita.

Em nosso último summit em Korogwe, reunião em que representantes de todos os projetos se reunem para discutir seu progresso e desafios, meus olhos marejaram de orgulho de Kwakiliga: não tínhamos resultados para mostrar, mais uma vez, e os desafios pareciam abismos se abrindo sob nossos pés.
Nossos parceiros resumiram nossa história com uma lista de fracassos agrícolas: milho, lentilha, mais milho, girassol e até mesmo mandioca, a mais resistente das raízes, que sobrevive quase (palavra-chave) sem água.
Quando o salão secou em silêncio e todos se entreolharam tristes, Mama Halima, a secretária do grupo, levantou os olhos e disse: mas nós não desistimos! Vamos criar galinhas!

O que me encanta na 2Seeds é que aqui não temos um projeto de plantar girassol, milho ou lentilha. Nossos projetos carregam os nomes das vilas e a força de nossos parceiros. Kwakiliga é o melhor exemplo de que sucesso e fracasso são conceitos mais complexos do que números de colheita. Enquanto a lavoura morria, ano após ano, o grupo se fortalecia e sua perseverança se apoiava no senso de união.

Desde janeiro vejo os calos e as cicatrizes se multiplicarem no mesmo ritmo em que o brilho dos olhos de nossos parceiros ofusca o cansaço. Começamos a construir nossos galinheiros, inspirados num modelo integrado e sustentável brasileiro (veja post anterior) com nossas próprias mãos.
Há duas semanas os galinheiros completos (e lindos) receberam suas primeiras galinhas. Começamos devagar (34 galinhas no galinheiro #1, 34 galinhas no galinheiro #2 e 33 galinhas no galinheiro #3) para reduzir o risco e o investimento até que nossos parceiros ganhem o conhecimento e a experiência necessários para prosperar. Ao redor dos galinheiro plantamos 106 árvores, uma forma de devolver à terra a madeira que usamos e também de criar uma sombra futura em terra de sol latente. As árvores integram nosso sistema sustentável e nossa esperança é que elas nos ajudem a reabilitar o solo para que comecemos a desenhar o nosso oásis.


Números:
3 galinheiros + 101 galinhas + 6 meses de comida para galinhas + 6 meses de remédios para galinhas + 106 árvores + arroz e feijão para os dias de trabalho + treinamentos = US$3,300 (dos quais já arrecadamos US$1,100).

Meu objetivo é arrecadar R$4.000,00.
Todos os contribuintes receberão, como sempre, atualizações sobre o andamento do projeto e um relatório financeiro explicando como o dinheiro foi gasto. 

Nos ajudem a transformar sonhos em omeletes!


Para contribuir:

Pelo site da 2Seeds é possível contribuir via PayPal ou cartão de crédito:
http://www.2seeds.org/donate/
Não se esqueça de especificar que a doação se destina a Kwakiliga.

Para depósito em conta-corrente continuo usando minha conta pessoal no Brasil e transferindo o dinheiro para a organização (postarei os comprovantes):
Banco Itaú
Agência 0192
C/C 18513-0
Ana Alexandrina Rocha
CPF 115.069.598-65
Não se esqueça de especificar que a doação se destina a Kwakiliga.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Sangue, suor e omeletes

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Nosso grupo de agricultores em Kwakiliga, o mais antigo da 2Seeds, tem sofrido com a seca desde 2010 e viu cada uma de suas temporadas agrícolas falhar: milho, kunde (uma espécie de lentilha), girassol e até mesmo a resistente mandioca. Nossos parceiros se orgulham de sua resiliência na falta de um resultado para ostentar, mas como consequência dos últimos anos estão enfrentando um período assolador de fome.

Desde janeiro, estamos construindo galinheiros em Kwakiliga. Decidimos migrar de agricultura para pecuária na esperança de gerar oportunidades que não sequem nos campos. O modelo dos galinheiros veio do Brasil: PAIS, produção agroecológica integrada sustentável, um sistema que integra a criação de galinhas a agricultura e reflorestamento. Decidimos começar com as galinhas e adaptar o modelo para nossa realidade.

O grupo, de nove famílias, foi dividido em três subgrupos e cada três famílias será responsável por um galinheiro. A construção, no entanto, foi trabalho de equipe, todos trabalhando juntos em cada etapa:
1)   A marcação do terreno, formado por círculos concêntricos e uma área de recreio para as galinhas, transformou os terrenos de Kwakiliga em campos de sonhos, que poderiam facilmente representar a nossa civilização e suas crenças naquele determinado momento. Esta etapa teve a inspiradora colaboração de todos os coordenadores de projeto da 2Seeds;
2)   A colocação das estacas teve que perfurar um solo duro e sem vida, que mesmo em um dia de chuva não permite que a água o penetre 10cm;
3)   O teto foi feito com telhas de alumínio já que o desmatamento garantiu a indisponibilidade de folhas ou palha – uma terra tropical em que não crescem nem ervas daninhas;
4)   O arame forte que circunda os galinheiros fatiou nossos dedos;
5)   A área de recreio foi cercada com um arame mais leve e contínuo já que a preocupação com a segurança das galinhas é menor durante o dia;
6)   A construção dos túneis pelos os quais as galinhas irão do galinheiro para o recreio e voltarão ao galinheiro foi guiada pelo nosso cuidado em criar um ambiente seguro para as aves.

A construção de três galinheiros nos permitiu aprimoramento constante e o resultado pode ser visto no design aperfeiçoado e nos dias que se alongaram conforme nos tornamos mais rápidos. O vínculo emocional entre agricultores e galinheiros, humanos e galinhas, foi fortalecido e com o processo pudemos também fomentar criatividade e inovação dando aos agricultores a chance de aprender para que futuramente eles possam ensinar.



A esperança de sucesso alimenta nossa alma enquanto os dias de trabalho nos dão a oportunidade de compartilhar refeições que aliviam a fome latente. O ugali com feijão nos dá forças, mas apenas sacia temporariamente a fome por resultados. A gente não quer só comida, a gente quer omelete!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

2012 e suas pequenas vitórias

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2012 está chegando ao fim, meu terceiro ano na Tanzânia e com isso meu terceiro tudo na Tanzânia: aniversário sem dança (mas este ano teve bolo), Natal sem ceia (mas com pilau, arroz com especiarias, depois de uma missa de 6 horas), Reveillon sem fogos (mas com praia pelo segundo ano seguido), dia dos namorados sem namorado (neste caso sem mas :S), final do campeonato brasileiro sem TV (mas com internet pra saber os resultados), carnaval sem samba (acho que este deve ser ainda mais difícil que o dia dos namorados...).
Eu sei que parece óbvio que se estou há três anos na Tanzânia vivi três vezes o ciclo do ano na Tanzânia, mas pra quem está longe essas coisas acontecem desconectadas e as duas frases que parecem dizer a mesma coisa são sentidas de forma muito diferente.

2012 foi um ano de crescimento, de muita reavaliação, de me posicionar de forma diferente, de viver de forma diferente, de reavaliar parcerias. 2012 foi um ano de correções; para fazer melhor, ser melhor; deixar pra trás coisas que um dia foram muito importantes e correr atrás de outras que ficaram momentaneamente em segundo plano. Foi um ano de novos erros e novos acertos, de reconhecer erros doloridos, realinhar expectativas (work in progress), de buscar.


Acho que desde que vim para a Tanzânia apenas duas coisas jamais mudaram: as saudades que sinto de vocês e o desejo de desencalhar baleias. Assim vou seguindo, e como este trabalho é feito de pequenas vitórias, cada uma delas um pequeno movimento de uma pequena baleia, gostaria de compartilhar algumas pequenas vitórias de 2012 com vocês:

1.    Os alunos de Kijango, segunda escola do projeto Magoma, comeram na escola pela primeira vez em suas vidas, resultado de seu trabalho criando galinhas e produzindo ovos;
2.    Os agricultores de Bombo Majimoto produziram vegetais pela primeira vez e venderam em grandes mercados da Tanzânia;
3.    Os agricultores de Bungu produziram e venderam, juntos, mais de cinco toneladas de vegetais;
4.    Os agricultores de Kijungumoto resistiram juntos à seca e plantaram 845 plantas de jiló em sua primeira produção de vegetais;
5.    Alguns de nossos agricultores de Bungu e Magoma viram o mar pela primeira vez ao lideraram um de nossos meet-ups para outras organizações em Dar es Salaam, uma iniciativa do projeto Masoko;
6.    Os agricultores de Lutindi, também pela primeira vez, coordenaram um calendário para produção coletiva que os permitirá colher consistentemente vegetais de alta qualidade. A expectativa é que nossos parceiros colham mais de 200 toneladas de vegetais em uma única estação;
7.    Shabani (13 anos), um dos mais dedicados estudantes do projeto Magoma, liderou pela primeira vez treinamentos para nossos parceiros de outros projetos, todos adultos, através do projeto Korogwe. O garoto, que acaba de se formar no ensino fundamental, agora diz com um sorriso no rosto que quer ser professor;
8.    Nossos agricultores de Kwakiliga plantaram a mais bela shamba-darasa (fazenda-escola) de mandioca que já vi, cantando e fazendo piada enquanto trabalhavam sob o sol escaldante mesmo estando com os corpos magrinhos depois de três anos de seca;
9.    Como uma organização focada em desenvolvimento de capital humano, tivemos nossa primeira sessão de feedback para os coordenadores de projeto e com ela criamos estrutura para seu crescimento ao longo do ano;
10. Talvez nosso maior sucesso, presente em muitos dos itens acima,; coordenamos uma transição eficiente entre grupos de coordenadores de projeto (cada grupo fica na Tanzânia por aproximadamente um ano), o que permitiu que os novos coordenadores de projeto se adaptassem a seus postos sem que perdêssemos momentum com nossos parceiros.


Logicamente que todas essas pequenas vitórias são apenas um começo, mas justamente por isso, por serem um começo, é que são tão importantes.

Que 2013 nos permita mais começos e mais meios!
Feliz Natal e um 2013 de oportunidades para todos :)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Sorrisos que alimentam a alma

Mzee Mcharo peparando sementes de mandioca
 


Raimondi preparando sementes de mandioca

Mama Halima preparando sementes de mandioca


A mandioca à espera da chuva

Plantando
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Kwakiliga é uma de nossas vilas na planície (tecnicamente uma sub-vila), com cerca de 1000 habitantes. Estabelecida em uma área muito seca e sem acesso a água, eu muitas vezes me pergunto o que levou nossos parceiros em Kwakiliga a viverem ali. A resposta correta para esta pergunta é, provavelmente, disponibilidade de terras em um país em que cada pedacinho de solo é plantado para subsistência. Minha resposta poética para esta pergunta paira no que me encanta em Kwakiliga: sua paisagem de tirar o fôlego, com céu sempre azul e solo vermelho; o mais belo pôr-do-sol da Tanzânia; o vento forte que bate incessantemente; o Mkwajo, árvore de copa grande e frutos amargos que marca o centro da vila e por último, mas não menos importante, o sorriso contagiante dos habitantes de Kwakiliga que jamais perdem uma oportunidade para se divertir e sobrevivem à fome se alimentando de alegria.

Este ano não temos coordenadores de projeto em Kwakiliga pois dois dos candidatos selecionados desistiram de vir à Tanzânia e por ser a o projeto mais próximo a Korogwe (14km) e por sua longa estória com a 2Seeds, Kwakiliga se tornou responsabilidade minha e do Sam (o outro diretor de desenvolvimento de projetos). Nossos corações batem forte com a responsabilidade e nós temos um desejo visceral, uma necessidade mesmo, de levar o projeto em Kwakiliga adiante e encontrar formas de criar oportunidades para esta comunidade que encarou tantos insucessos. 

 
Hoje passei o fim da tarde em Kwakiliga, plantando mandioca com nossos parceiros. Mandioca será, provavelmente, nossa última tentativa de cultivo já que se a chuva não for suficiente para que a mandioca floresça não será suficiente para mais nada. Nós arriscamos ao comprar as sementes após um único dia de chuva, o único em muito tempo, e nossos parceiros estão trabalhando muito para que as plantas sobrevivam já que o período de fome em Kwakiliga tem sido mais intenso a cada ano.
O momento mais forte do dia foi a alegria com que nossos parceiros trabalharam na shamba, com seus corpos muito magros e sorrisos largos, cantando, fazendo piada (o que me proporcionou um candidato a marido, é claro) e incentivando uns aos outros.


O desafio é que não importa o volume de esforço que colocamos na nossa shamba, se a chuva não vier não teremos o que comer e esta falta de controle sobre o processo, a relação falha entre causa e consequência, é muito dolorosa para mim.

Para resolver esta questão estamos iniciando a construção de galinheiros e temos uma nova iniciativa, focada em segurança financeira, que é a produção de ovos.


Contarei mais detalhes sobre nossas aventuras no mundo das galinhas muito em breve, mas por agora peço que todos cruzem seus dedos e soprem as nuvens em nossa direção. A mandioca precisa de chuva para sobreviver e ter esta segurança crescendo no solo significa muito para nossos fortes parceiros. Eles acreditam que a chuva está vindo; eu também (tenho que acreditar), e não há um único segundo do dia em que eu não busque sinais no sentido do vento ou no barulho fora da janela que indiquem que estamos certos.

Que venha a chuva, porque não consigo pensar em um lugar do mundo que precise (ou mereça) mais se deliciar com as gotas que caem do céu!

sábado, 3 de novembro de 2012

Chuva que encharca as lágrimas

Já é quase 1h00 da manhã aqui na Tanzânia e estou no escuro do meu quarto escrevendo este post ao som misturado de música brasileira e chuva. Usiku, minha cachorra, está dormindo na cama dela, aos pés da minha.

Faz tempo que não chove em Korogwe. Faz tempo que não chove nas vilas. Faz tempo que o milho morreu seco e até onde os olhos enxergam só se vê árvores retorcidas e seca no vale e na planície. Hoje está chovendo e eu sempre acreditei que a chuva traz mudança, que a chuva movimenta, faz a vida girar e mexe as peças do lugar.

Ontem choveu muito no vale e meu telefone recebeu mensagens e mais mensagens de coordenadores de projeto felizes, dançando na chuva. O calor era muito, ignorava a sola dos sapatos e queimava nossos pés sem piedade. Ao ver a chuva, os coordenadores enviaram mensagens uns aos outros, como que para checar se a chuva não era apenas uma alucinação, mas ao perceber que não estavam loucos se permitiram curtir como crianças as gotas pesadas que caíam do céu.

Esta tarde tive uma reunião em Kwakiliga, um dos nossos projetos que mais sofrem com a seca (um ano sem chuva e nenhum rio por perto) e a primeira de nossas vilas onde ouvi as pessoas pensando em se mudar para outro lugar; se não para viver, para plantar - a fome que brota em descrença. Com a chuva, vamos, finalmente, plantar mandioca.

Muito do que se passa em Kwakiliga este ano segue modelos brasileiros: nossos parceiros estão ansiosos para aprender a cozinhar mandioca como nós cozinhamos, a fazer biju e tapioca, e também a criar galinhas e plantar de acordo com o sistema PAIS (produção agroecológica integrada sustentável). O desafio será colossal em Kwakiliga, mas temos que sonhar grande e pensar que um dia, como a chuva veio encharcar nossas lágrimas de fome, outros milagres acontecerão.

"Quem é ateu e viu milagres como eu
Sabe que os deuses sem Deus
Não cessam de brotar, nem cansam de esperar"