terça-feira, 17 de abril de 2012

Bungu - a vila que as montanhas escondem


Esta temporada de despedidas tem me levado a rodar bastante para visitar todos os nossos projetos, falar sobre a transição com nossos parceiros e criar momentum para motivá-los a seguir em frente e buscar resultados. O discurso se repete: nosso destino é uma vida melhor, mas para chegar lá temos que abrir a trilha e seguir sempre em frente, sem andar para trás nem se perder. Estamos juntos neste caminho.

Ontem fui à Bungu, uma de nossas vilas nas montanhas (a outra é Lutindi). A belíssima vila parece um retiro espiritual que esconde excelentes agricultores, hábeis para plantar em penhascos inclinados e para usar as nascentes de água para irrigar suas plantações. Mas ainda que pela descrição e pela paisagem Bungu pareça uma vila cheia de recursos, as montanhas também escondem pobreza.

O clima temperado de Bungu atrai muitas ONGs, que veem nas montanhas uma relativa facilidade para trabalhar e fazem promessas que muitas vezes não são cumpridas. Uma das cenas mais chocantes da Tanzânia são as pilhas de recursos desperdiçados que se amontoam em tantos cantos, dinheiro usado para comprar materiais que nunca construirão nada, ou máquinas que nunca serão usadas enquanto pessoas passam fome sem ter nada.
Muitos agricultores de Bungu decidiram, depois de perder tempo e energia com diferentes ONGs, não trabalhar mais com nenhuma organização. Dois destes agricultores estão em nosso grupo em Bungu.

Semana passada, Abby, Pei e Jessica, as coordenadores de projeto de Bungu, decidiram perguntar a estes dois agricultores o por que de, não querendo se associar a qualquer ONG, eles estavam trabalhando conosco. E a resposta imediata foi: porque vocês estão aqui todos os dias. E formaram um grupo de excelentes agricultores dispostos a correr riscos para alcançar resultados.

A principal diferença do modelo 2Seeds está nos relacionamentos, baseados em confiança, que somos capazes de formar com nossos parceiros. Em Bungu, nossas coordenadoras carregam baldes de água na cabeça montanha acima, sobem e descem ladeiras diárias para visitar todas as vilas e ouviram, de cabeça e coração abertos, os desejos dos agricultores. Deste trabalho nasceu um pequeno e promissor grupo, que recebeu treinamentos em negócios, conceitos básicos de economia e tomada de decisões. Nós não dissemos aos agricultores: você agora faz parte deste grupo. Nós dissemos: nós vamos te oferecer treinamento e informação para que você decida conscientemente se quer trabalhar conosco. Dos doze agricultores convidados inicialmente, um decidiu que o grupo não atenderia suas expectativas.

A despedida de Abby e Jessica, que partem em uma semana (Pei fica até junho) foi animada por muita música e pilau (arroz com especiarias que é sinônimo de festa na Tanzânia). Belos discursos, algumas lágrimas e muitos sorrisos celebrando os primeiros passos de um projeto que, acreditamos todos nós, nos levará longe.


Para saber mais sobre o Projeto Bungu (em inglês):

Kwakiliga – a água que (só) se vê nos olhos


Kwakiliga é o nosso mais antigo projeto, começado em 2009 por Sam (o diretor de desenvolvimento de projetos que trabalha comigo) e Jesse (arquiteto formado por Stanford que não faz mais parte da organização).

Por uma sucessão de razões, incluindo o fato e que começamos em Kwakiliga antes de a organização estar conceitualmente formada e ter a experiência necessária para formar projetos sólidos, muitos projetos foram iniciados e descontinuados em Kwakiliga sem que resultados concretos fossem obtidos. Conscientes disso, esta temporada decidimos consolidar o grupo de agricultores com o qual trabalhamos, que chamamos de Kikundi (grupo em Swahili), mantendo apenas os participantes dedicados ao grupo e dispostos a tomar decisões coletivas e seguir um caminho comum. E fomos muito cautelosos ao planejar nossos próximos passos.

Domingo fui visitar Kwakiliga e passar a noite sob a brisa e a escuridão da vila de terra vermelha. Quase todos os membros do grupo compareceram (e chegaram pontualmente) à reunião semanal, que além de servir para a troca de informações foi a despedida de Sarah, uma das coordenadoras de projeto que mora na vila e que volta aos Estados Unidos no final do mês.

Passamos os últimos nove meses trabalhando com nossos parceiros de Kwakiliga no desenvolvimento do plantio de girassol. Treinamentos, pesquisa de mercado, projeções de lucratividade e muito planejamento que agora espera pelas chuvas para se tornar real – estamos em meados de abril e as chuvas de março ainda não começaram.
Kwakiliga é seca, provavelmente a mais seca de todas as nossas vilas. Não há rio ou poço artesiano e a chuva tem sido mais inconsistente ano após ano. Nossos parceiros, pessoas muito especiais, são muito magros, têm a pele curtida de sol e mesmo trabalhando em terra dura permitem que seus olhos brilhem com a perspectiva do sucesso futuro.


As pessoas não choram na Tanzânia, acho que a vida já é muito difícil e as despedidas muito frequentes, com as baixas expectativas de vida e a necessidade dos filhos de se mudar para estudar ou trabalhar se desejarem ter alguma perspectiva.

Domingo, em Kwakiliga, a chuva não veio.

Domingo em Kwakiliga eu vi água brotar nos olhos dos membros do Kikundi e das coordenadoras de projeto pela despedida que se aproxima. Só me resta desejar que a água se multiplique e que os céus, compadecidos pelas lágrimas, chorem também e com suas lágrimas deem uma chance ao girassol para florir.


Para saber mais sobre o Projeto Kwakiliga (em inglês):

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Bombo dos corações quentes

Bombo Majimoto é uma das vilas em que temos projetos no vale (as outras são Magoma/Kijango e Kijungumoto). Eu já descrevi aqui no blog a maneira particular como Bombo foi selecionada e ressaltei minha conexão com aquela pequena e isolada comunidade mais de uma vez. Eu batalhei para que tivéssemos um projeto em Bombo e minha visita à vila esta semana provou que foi uma boa escolha.

Bombo recebeu três coordenadores de projeto; Shosh, Erin e Jake. Eles ajudaram um grupo de doze agricultores a se organizar e hoje eles cultivam pimentões verdes. O grupo, que em sua maioria jamais havia cultivado vegetais, recebeu treinamento sobre a preparação da terra, o cultivo e, principalmente sobre o planejamento do investimento, o processo de tomada de decisão e o acesso a mercados, além de um empréstimo para a compra de sementes, químicos e pagamento de transporte.
O projeto se baseia no cultivo de vegetais durante o período de seca, para que os vegetais cheguem ao mercado antes de este ser “inundado” por produtos resultantes da estação de chuvas – Bombo fica a cerca de 60km de Korogwe em uma área bastante isolada, então o transporte dos produtos durante as chuvas é inviável já que a estrada fica intrafegável. Além disso, pela lei de mercado, o preço dos vegetais cai quando, após as chuvas, a oferta é muito grande.

Este começo de semana fui a Bombo ver um dos treinamentos e visitar as shambas (sítios). Sr. Mbazi, o consultor em agricultura de Magoma e um dos melhores profissionais que já conheci na Tanzânia, ensinou os agricultores a colher, separar seus produtos por qualidade e  embalá-los. Depois do treinamento fomos a uma das shambas avaliar o desempenho do grupo e aprender na prática como identificar os pimentões que estão prontos para colheita. A shamba escolhida foi a de Mama Tatu (Mãe Três – sim, este é seu nome), uma agricultora que nunca havia plantado pimentões, mas aprendeu cada lição ensinada nos treinamentos e será a primeira a vender frutos no fim desta semana.


Depois do treinamento passei algum tempo conversando com Shosh, Jake e Erin e ao final da tarde fui visitar Mama Tatu e Mama Lukia, uma senhora doce que foi a primeira mama a me receber em Bombo, um ano e meio atrás, e com quem tenho uma conexão muito forte. Mas quem disse que eu as achei em casa?
Ao chegar nas casas fui informada de que todos haviam ido a suas shambas e ao seguir o mesmo caminho e atravessar o rio me deparei com Mama Tatu e Mama Lukia, cada uma trabalhando em sua terra. O trabalho não é leve e irrigar com baldes meio acre exige dedicação. Passei o fim de tarde ajudando Mama Lukia, que irrigava enquanto seu marido aplicava inseticida, e juntas conseguimos finalizar um terço do sítio. Mama Lukia e seu marido não são mais crianças e o esforço era visível em seu semblante, enquanto ela me dizia “é pesado, mas eu não vou fracassar, nós vamos conseguir” para então me perguntar “você acha que a gente vai conseguir?”, pergunta que sempre terá um sim convicto (ou nem tanto) como resposta.

Claro que nem todos os agricultores estão em dia com suas shambas, como é o caso de Kasimu, um jovem que vive a dez passos de sua terra e ainda assim não se dedica ao projeto com a intensidade necessária. Mas o brilho no olho de Mama Tatu ao ter sua shamba sendo usada como exemplo e ao receber os muitos parabéns de todos nós pelo seu excelente trabalho mostra que o caminho está certo, e que para os que não tem medo de sol e trabalho duro há um caminho sendo desenhado pelas enxadas.

A noite acabou com Mama Lukia me preparando um banquete, muito acima de suas possibilidades, com ugali (pasta de milho), quiabo, feijão e laranja para sobremesa. Um jantar em família à luz do lampião de querosene que me aqueceu o coração e manteve a tradição de Bombo Majimoto – não apenas uma terra de água quente, como sugere o nome, mas de corações quentes e, agora, de oportunidades.


Para saber mais sobre o Projeto Bombo Majimoto (em inglês):
http://www.2seeds.org/bombomajimoto/
http://thebombomajimotoproject.wordpress.com/

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Sempre linda, minha Magoma


Este fim de semana estive em Magoma. Tive a chance de celebrar a Páscoa com minha família tanzaniana, de ir à sempre doce e cômica igreja de Magoma e de me sentir em casa novamente.

Como já escrevi muito sobre Magoma neste blog, não vou dar detalhes sobre a vila, mas vale um update sobre o projeto.

Kwata, a escola em que Kristina e eu começamos a trabalhar em 2010, está se preparando para mais uma temporada. A terra foi arada com animais e os estudantes estão preparando as camas para o plantio do berçário.
Em Kijango, a segunda escola do projeto, o galinheiro acabou de ser construído e em muito breve serão compradas galinhas para dar início à produção de ovos.

O projeto está se consolidando com UM modelo e DUAS formas de trabalho: para escolas em que existe água para irrigação, o projeto se baseia em agricultura e o desenvolvimento de uma camada da sociedade de mente aberta e capacidade crítica é viabilizado pelas decisões tomadas na shamba (sítio) e pela análise de resultados provenientes dela, somados às atividades paralelas geradas pelo projeto. Em escolas onde não há água, e portanto não é possível trabalhar com agricultura, o modelo se desenvolve com a criação de galinhas e os mesmos resultados são buscados ainda que por um caminho diferente. Trata-se de UM projeto, que engloba VÁRIAS escolas (duas até o momento, mas temos a expectativa de crescer).

Lindsay (norte-americana) e Cíntia (brasileira) foram as coordenadoras de projeto que trabalharam em Magoma nesta temporada. Lindsay volta pra casa em duas semanas, como a maioria dos coordenares, e Cíntia fica em Magoma até o final de junho (7 coordenadores estenderam sua temporada).


Continuamos trabalhando para seguir em frente e deixar minha linda Magoma ainda mais linda.


Para saber mais sobre o Projeto Magoma (em inglês):

http://themagomaproject.tumblr.com/
http://www.2seeds.org/magoma/

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Lutindi, a montanha dos WaSambaa


Sambaa (pronuncia-se sambáá e infelizmente não tem nada a ver com samba) é a tribo predominante na região de Korogwe.  Espalhados por todos os nossos projetos, os WaSambaa (pessoas da tribo Sambaa) predominam no Vale e nas Montanhas e preservam sua língua e costumes com muito orgulho.

Lutindi é um dos nossos projetos localizados no topo das montanhas Usambara. Lá os agricultores plantam nas encostas e ir para a shamba (sítio) significa subir e descer ladeiras e se pendurar nas ribanceiras. Os WaSambaa de Lutindi agem com a maior naturalidade diante de um penhasco e a nós só nos resta aprender com eles como caminhar graciosamente por terrenos escorregadios.

Em Lutindi temos um grupo de agricultores que trabalha conosco desde 2010 e, com as condições climáticas favoráveis que apenas as montanhas oferecem por aqui, são capazes de produzir verduras, legumes, frutas, feijão, temperos e milho. Nossa principal meta em Lutindi é ajudar os agricultores a se organizarem através de um sistema de gerenciamento eficaz, que melhore suas oportunidades de mercado através de conexões e planejamento. Gerenciamento e planejamento são dois conceitos-chave para qualquer projeto aqui na Tanzânia (e em qualquer lugar) e portanto não é de se estranhar que sejam dois dos maiores desafios que enfrentamos.

O grupo Umoja wa Wakulima Lutindi (União dos Agricultores de Lutindi) está organizado em comitês (mercado, agricultura, comunicação, disciplina, finanças), mas como os membros do grupo moram em 6 sub-vilas diferentes e há, literalmente, uma montanha entre uma vila e outra, os comitês não estavam funcionando adequadamente.

Hoje subi a montanha de pikipiki (motocicleta) para uma reunião muito produtiva na qual conseguimos dar um importante passo na reestruturação dos comitês ao incluir um membro de cada sub-vila em cada comitê. A escolha dos membros foi baseada na descrição do trabalho e nas qualidades que seus membros devem ter (tudo definido pelo próprio grupo).

Ao final da reunião caiu uma tempestade, chuva de pedra (que os Tanzanianos chamam de chuva de ovos). A comemoração foi intensa já que o tempo quente e o sol forte têm dominado o que deveria ser a estação chuvosa. Os membros do grupo me agradeceram por eu ter levado sorte às montanhas e eu ganhei mais um nome em KiSambaa, Mfyee wa Chengo, significando a mãe de todos, que zela por sua família.


O passo lento das montanhas, característico de quem vive na subida, se mostrou certeiro no desejo de mudança. E eu voltei para Korogwe secretamente celebrando a chuva, que para mim simboliza renovação de energia. Seguimos em frente!


Para saber mais sobre o Projeto Lutindi acesse (em inglês):


quarta-feira, 28 de março de 2012

Kijungumoto - Kmoto para os íntimos


Kijungumoto é uma das vilas em que trabalhamos no Vale. Fica a 1km de Mashewa, vila grande e diversificada, mas tem uma população originária de poucas famílias, que se casaram entre si, e pobre. A vila é dividida em cinco sub-vilas das quais três são intensamente populadas e organizadas ao longo da estrada principal, de terra. Esta estrada sai de Korogwe e passa por Magoma, chegando até Tanga, cidade que dá nome ao distrito, no litoral, mas não é muito utilizada por sua má conservação. Kijungumoto tem cerca de 2000 habitantes.

Kate, Kelly e Lizzie são as três coordenadoras de projeto que vivem em Kijungumoto (ou Kmoto, como apelidaram sua área) e iniciaram um programa de educação para agricultores através de uma fazenda-escola de milho.

A fazenda-escola (shamba-darasa em Swahili) tem cerca de um acre e foi dividida em oito plotes nos quais diferentes técnicas de cultivo estão sendo testadas lado a lado, abrangendo o uso de sementes locais e sementes híbridas, adubo animal e intercrop com kunde (plantando na mesma área milho e kunde, um tipo de feijão, o solo é fertilizado pelo nitrogênio lançado no solo pelo kunde), adubo diluído (uma técnica de permacultura para aumentar a volume de adubo produzido através de sua diluição em água), uso de químicos ou cultivo orgânico e diferentes intensidades de poda de ervas daninhas.
O programa desenvolvido conta com um grupo de 16 agricultores que trabalha com as coordenadoras de projeto na shamba-darasa todas as terças-feiras por 3 horas, aprendendo as diferentes técnicas e comparando seus resultados. Cada agricultor cultiva, paralelamente, um acre em sua própria shamba empregando as técnicas aprendidas que se adaptem melhor à sua terra e à sua realidade. E para este acre tem acesso a ferramentas (enxadas, sprays, baldes) e químicos (contra fungos, insetos e para conservação do milho depois da colheita).
A última etapa desta primeira temporada do projeto oferecerá treinamento aos agricultores para que com conhecimento de mercado eles estoquem parte de sua produção e a vendam apenas quando os preços estiverem altos (na entressafra, quando não há milho disponível).

Ontem eu passei a noite em Kijungumoto e trabalhei na shamba por 3 horas com o grupo. Com um sorriso de orelha a orelha revirei o solo com a enxada e arranquei as ervas daninhas de 2/8 da shamba-darasa. O milho está crescendo na maioria do terreno, mas o atraso das chuvas (que deveriam ter começado há duas semanas) coloca uma interrogação no sucesso da colheita. Os agricultores rezam e nós torcemos para que neste mundo de incertezas em que vivemos caia água do céu para refrescar nosso suor e matar a sede do milho.

Para saber mais sobre o Projeto Kijungumoto acesse (em inglês):
http://www.2seeds.org/kijungumoto/
http://thekijungumotoproject.wordpress.com/

domingo, 25 de março de 2012

Ter cachorros na Tanzânia


Por quase dois anos eu resisti bravamente à tentação de ter cachorros aqui na Tanzânia. Ciente da temporariedade da minha estadia e preocupada em criar uma relação de confiança que os prejudicaria, fiz de tudo para ignorar minha paixão pelos bichos e para não me apegar a nenhum peludo específico.

Quando mudei para minha casa em Korogwe , isso ficou muito mais difícil. Mama, uma vira-lata amarela forte, tinha acabado de ter filhotes no meu jardim. Todos os dias ela vinha com os filhotes e me cumprimentava; às vezes eles me viam na rua e pulavam em mim, os seis (Mama e cinco filhotes) me deixando coberta de lama (no meio da estação chuvosa). As pessoas foram pegando alguns dos filhotes e restaram três (inicialmente eram nove), sempre passando pelo meu quintal. Um dia, algo aconteceu a um deles, que veio morrer na minha porta para minha tristeza. As duas fêmeas restantes estavam sempre por perto, mas eu, consciente de que não deveria ter PETs, limitava minha interação a um cafuné sempre que as via.

Tudo mudou no dia em que a menorzinha delas foi atropelada na rua. De casa eu ouvi os gritos e corri para resgatá-la de uma vala, de onde ela tremia e chorava. Pequena e magra, eu a trouxe para dentro, limpei e cuidei dos ferimentos. O atropelamento foi de raspão, nada sério (ainda bem já que não há veterinários em Korogwe). As duas cachorras, ainda sem nome, continuaram rodeando a casa, tendo as portas abertas para descansar na sombra, mas vivendo na rua.
Um dia, voltando de visita a um dos projetos, encontrei a pequena (a mesma do atropelamento) muito doente. Ela era só pele e osso e mal tinha forças para caminhar. Todos acharam que ela morreria, mas eu não podia deixar isso acontecer sem pelo menos tentar ajudar. Eu comprava comida e ela não comia quase nada, muito fraquinha. Mas com o tempo foi ganhando vida e com isso ganhou um nome, Maisha (vida em Swahili).

Desde então Maisha e Usiku (sua irmã) são minhas cachorras, como dizem as coleiras que fiz com cinto de criança, tampa de curry (onde gravei seus nomes com uma faca) e kanga (tecido para revestir o couro). Eu as alimento quase todos os dias e quando elas querem, quase sempre, elas passam a noite dentro de casa. Procuro mantê-las um pouquinho independentes já que eu viajo bastante e quando não estou aqui elas têm que se virar sozinhas. Nesses dias elas rodeiam minha vizinha, que sabe seus nomes a aprecia a segurança que elas trazem para a casa, mas não as alimenta ou toca nelas (e não as maltratar já é uma grande coisa em um país de muitos muçulmanos, para os quais os cachorros são animais sujos, e onde ninguém desenvolveu uma relação de afeto com os bichos).

Usiku (Noite em Swahili, por suas costas negras) é independente, não gosta de multidões ou de ser pega no colo e algumas noites prefere dormir na rua. É esperta e excelente caçadora, sempre conseguindo um pedaço de carne ou osso, que muitas vezes ela tenta esconder na minha casa – e me obriga e “caçar” a carne pelo cheiro insuportável que isso provoca.

Maisha é doce e boba. Ultrapassou Usiku em tamanho, está sempre com fome e suas patas dizem que será ainda maior. Suas orelhas estão sempre tortas, uma apontando para cima e a outra caída de lado. Além do atropelamento e da doença, foi vítima de óleo quente e tem algumas falhas no pelo como consequência.

Todos os dias, pelo menos seis cachorros passam pela minha casa: Maisha, Usiku, Mama, Mama Mdogo (Tia em Swahili, fêmea adulta), Baba (Pai em Swahili, um cachorro incrivelmente bonito que parece um labrador e que se não tomo cuidado marca território na minha sala) e Pepo (Paraíso em Swahili – este foi nomeado por Aly, uma das PCs, que queria levá-lo para Dar es Salaam, mas não conseguiu convencer o namorado – filhote e macho, também incrivelmente bonito e como todo menino adolescente, morto de fome). E o número vai aumentar já que Mama está enorme e pode parir a qualquer momento.

Ter os cachorros por perto aumenta a minha felicidade e a quantidade de trabalho diário. Tenho que me policiar para não transformar a casa em um canil e tenho tentando alimentar apenas Maisha e Usiku (Mama enquanto grávida) e apenas as duas têm permissão de passar a noite aqui. Consegui vacinar todos os filhotes contra raiva e quando eu voltar pro Brasil ou seguir para meu próximo destino terei duas cachorras viajando comigo. Maisha e Usiku ganharam meu coração e eu ganhei um compromisso com elas pelo resto de suas vidas.