quinta-feira, 22 de março de 2012

Momento de transição


Esta semana se encerrou o prazo para recrutamento de coordenadores de projeto para a temporada de 2012/2013. A seleção segue até o fim de abril e em maio saberemos quantos novos rostos receberei aqui em agosto (sempre torcendo para que tenhamos brasileiros que me permitam umas palavrinhas em português).

O encerramento da seleção para coordenadores de projeto significa que a temporada do grupo que está aqui está chegando ao final. O grupo, que hoje tem 20 pessoas, está trabalhando nos documentos necessários para a transição, para que os novos coordenadores tenham as informações necessárias para fazer um bom trabalho. Para a próxima temporada nossa prioridade será fortalecer os projetos existentes e garantir que a transição seja um processo orgânico e contínuo.

Uma coisa que aprendi depois de trabalhar e viver aqui por tanto tempo é que iniciar um projeto na Tanzânia é um grande desafio, mas não o maior deles. O maior desafio é tornar este projeto mais robusto ano após ano e multiplicar os resultados e as oportunidades geradas para as comunidades. Manter o foco, o momentum e o engajamento das comunidades depende de muito trabalho e da seleção dos parceiros corretos. E de uma transição eficaz, que não crie zonas de incerteza.

Por nossas vilas eu fico aqui para mais uma temporada. Por Magoma, que tem meu coração, e também por Bombo, Kijungu, Lutindi, Bungu, Tabora e Kwakiliga. Este trabalho é um aprendizado diário, há sempre o que melhorar, e vamos buscando soluções mais eficazes a cada dia.  Acho que ainda não esgotei minha capacidade ou meu desejo de construir a máquina de desencalhar baleias. A caminho da excelência.

terça-feira, 20 de março de 2012

Tempo tempo tempo tempo


Quando me dei conta de que já fazem três meses que escrevi neste blog não acreditei. Não sei o que acontece com o tempo aqui, que corre sem sentido e para em esquinas inesperadas, fica parece que pra sempre, escondido, mas quando a gente pisca desaparece da nossa frente como que fugido. Isso é uma coisa que todos devem saber sobre a Tanzânia: o tempo aqui corre diferente. E falo isso no sentido figurado, mas também no sentido real.

Aqui o tempo é contado em turnos de doze horas que se iniciam com o nascer e com o pôr-do-sol. Assim, 1h00 são 7h00, a primeira hora com luz do sol, 6h00 são meio-dia e 12h00 são 18h00. Imagina isso associado a dizer as horas em Swahili... Confuso né? Para minha sorte esta contagem faz com que o horário na Tanzânia bata com o horário brasileiro quando o Brasil não está em horário de verão e mantém meu coração sempre perto de casa.

No sentido figurado, o tempo é um grande desafio. Tantos são os dias em que tudo anda devagar e as pessoas não dão atenção ao tempo. Na Tanzânia, tempo não é dinheiro, não há dinheiro, o que vale são relacionamentos e não eficiência. E relacionamentos incluem cumprimentar todos os vizinhos não apenas com um oi, mas com uma conversa de meia hora. Relacionamentos incluem funerais de dois dias aos quais vão toda a vila e vêm amigos de longe. Relacionamentos incluem não medir o tempo, mas viver pelas pessoas e se perder no tempo, perder o tempo, de forma que o mais longo dos dias pode não oferecer tempo para o que precisa ser feito. Se não tomarmos cuidado os prazos se estendem por meses além do previsto e em meio à angústia da espera nos perdemos na sensação de que todo o tempo do mundo não é suficiente. Quando nos damos conta, a data de finalizar o trabalho está batendo à porta sem que todos os dias tenham se passado por inteiro.

“De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...”

Caetano Veloso


Publico este post às 6:26 daqui, como aí. Estou em casa =)


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Um 2012 de escolhas para todos nós!


Ontem recebi um texto muito bonito de uma amiga, Chris Mazzotta, sobre uma psicóloga chamada Debora Noal que trabalha para os Médicos sem Fronteiras em regiões de conflito, catástrofes naturais e guerra civil. E foi muito interessante, porque fiquei pensando se o que faço aqui na Tanzânia é suficiente, se eu também não deveria me enredar pelo mundo das grandes desgraças humanas. Mas conforme fui lendo o texto fui fazendo paralelos com minha vida aqui na Tanzânia, teoricamente um país de paz se considerarmos que a guerra só nos aparece vestida de armas e sangue.

Logo após ler o texto, tive que levar uma de nossas voluntárias ao hospital. Ela estava passando muito mal e nossa esperança de que fosse malária (e portanto passível de tratamento relativamente fácil) não se confirmou. Ficamos internadas o dia inteiro, ela sem cor e sem forças para levantar em uma enfermaria com cerca de 30 pacientes. As enfermeiras se revezavam com suas mãos duras para pendurar soro e muitas vezes fazer procedimentos que envolvem sangue sem luvas nas mãos em uma país de alta incidência de HIV. As luvas estavam disponíveis, a gente compra todo o material descartável e remédios, subsidiados pelo governo e pela grana de assistência internacional que vem para este mundo. Na mesma enfermaria havia uma senhora morrendo, que não sei se teve a chance de conhecer 2012, mulheres com malária severa, uma senhora que não respira sem o tanque de oxigênio, uma moça recém saída de cirurgia, uma maluca que gritava e se arrastava no chão e, Lindsay, a voluntária de quem eu estava cuidando.

Fui pensando nisso, pensando no que me trouxe à Tanzânia e no trabalho que faço. Muitas coisas me fazem falta aqui, nenhuma delas é dinheiro. A maioria das pessoas não entende o que eu vim fazer aqui ou porque me importo com esse mundo que elas acham que não me pertence, já que pessoas como nós têm o privilégio de escolher o mundo em que vivem. Eu aceitei esta escolha e me cerquei de pessoas que morrem de doenças tratáveis, que andam quilômetros com baldes na cabeça para conseguir água, cujas crianças têm umbigo saltado porque não têm assistência ao nascer, em que a fome dói no estômago todos os anos, quando os funerais de multiplicam ao mesmo passo que o milho escassa.

O texto e o hospital me fizeram lembrar de tudo isso. Me fizeram lembrar que ainda que eu não me exponha aos perigos que a Debora se expõe, eu estou criando oportunidades para que não haja guerra civil aqui e para que as pessoas tenham alternativas pacíficas para atacar a violência que as assola. Sim, porque para mim a fome é uma violência, pessoas morrendo de doenças tão tratáveis quanto uma pneumonia leve é uma violência, um hospital em que se espera 7,5 horas em meio a gritos pelo resultado de um exame que demora 10 minutos para ser executado e chega incompleto por falta de reagentes químicos é uma violência.

Eu vim trabalhar na Tanzânia para criar oportunidades para pessoas. Para que essas pessoas que me agradecem por eu estar aqui tenham realmente motivos para me agradecer. Para gerar alternativas, possibilitar escolhas, viver onde ninguém mais quer viver para que no futuro alguém queira viver aqui.

Sim, eu sinto falta dos meus amigos, da minha família, das cachorras, de dançar levemente e de ver o sol nascer na praia. Sinto falta de deitar no colo das minhas amigas e ganhar cafuné, da liberdade de viver sem amarras, de amar sem amarras, de me preocupar apenas com as minhas escolhas. Como eu disse, sinto falta de muitas coisas, mas nenhuma delas é dinheiro.
É inegável que sonhar com escolhas para os outros cria tensão, que ser a fonte de inspiração para comunidades inteiras exige uma força inesgotável, que carregar a imagem de todo um mundo longe (ou percebido como longe) daqui é exaustivo, que gerar ideias diárias para que sistemas tão simples quanto partilha de comida funcionem e vê-las falhar dia após dia exige perseverança infinita e compreensão para que a culpa não seja superficialmente (e erroneamente) atribuída. Sou mais forte hoje do que jamais sonhei ser. Não vim aqui buscar força, mas como muitas coisas que não se procura, fui encontrada por ela.

Desejo que em 2012 o mundo seja mais bacana, que cada um de nós encontre sua própria e singular forma de gerar energia boa e de irradiar cores. Desejo que as pessoas aqui na Tanzânia agarrem algumas das oportunidades que estamos gerando e que façamos um bom trabalho para que estas oportunidades sejam duradouras. Desejo que as pessoas aí no Brasil, ou em Portugal, tenham os amigos, o colo, o cafuné, o sorvete de pistache, o nascer do sol na praia e todas as coisas deliciosas que esse mundo nos proporciona. Que um dia isso seja uma possibilidade para todo mundo! Que tenhamos escolhas! E que estejamos aqui para ver esse lindo amanhecer juntos! Feliz 2012!

Pp. A Lindsay está melhorando. Ainda não sabemos exatamente qual é o problema, mas ela já tem cor e agora esboça um sorriso. E a matéria, muito bonita, sobre Debora Noal, você encontra neste link:

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Cabeça, alma e a Paz Mundial

Desde julho, tenho dividido minha vida e trabalho com o Sam, Diretor de Desenvolvimento de Projetos que trabalha comigo. Somos os dois únicos funcionários da 2Seeds e planejamos basicamente todos os passos da organização, de quem vai levar o PC com malária ao hospital ao plano de expansão para outros países. Frequentemente a coisa fica tão complexa que nos perguntamos: que tal discutirmos um assunto mais ameno, como a Paz Mundial, para relaxar? Dividimos o trabalho, a casa e a nossa dedicação incondicional a tornar o (quase) impossível possível.

Sam tem 23 anos e se formou em Estudos Africanos em Harvard. É inteligente, muito carismático e, digamos assim, um moleque.
Eu, que sempre me achei jovem (e sou!), me tornei a mãe de todas as famílias (significado de Mamuugu, meu nome em Kisambaa), de todos os Coordenadores de Projeto e... do Sam.
Nossas diferenças formam uma equipe forte, com base acadêmica (Sam) e experiência prática e cultural (eu). As diferenças são claras na maneira que descrevemos o mundo ou falamos Swahili (que eu aprendi em Magoma e Sam aprendeu em Harvard). Sam é a cabeça e eu sou a alma.

Momento de mudança, cabeça e alma se separam fisicamente muito em breve. A temporada do Sam aqui na Tanzânia está acabando e no sábado ele volta pros Estados Unidos (que ele insiste em chamar de América e eu aceito chamar de tudo, menos América).


Sam e eu batalhamos muito, quase sempre juntos, para equilibrar alma e cabeça. Foi impressionante ver como ele descobriu sua alma nos últimos 6 meses, se jogou, se questionou, passou por momentos difíceis, teve que se conhecer melhor e vocalizar seus medos. Tivemos momentos em que ele, emocionalmente abalado, teve que sair da sala para se recompor enquanto eu, calmamente, lhe oferecia meus argumentos.

Sam e eu discutimos todo o tempo (quem mais no mundo discutiria as diferenças entre moral e consciência às 23h00, depois de trabalhar 16 horas?), nos desafiamos e nos respeitamos. Se eu não lhe tiver ensinado mais nada, pelo menos sei que o ensinei a não usar a toalha de rosto pra limpar o chão (e tenho certeza que Maelis, sua namorada, me agradecerá eternamente por isso).


O trabalho aqui não é fácil e os objetivos são ambiciosos.
Batalhamos para que pessoas que aprendem a contar, número por número, de 1 a 1.000.000 (isso mesmo, as crianças continuam a aprender adição na sétima série para chegar a 1.000.000) consigam projetar lucros e tomem decisões fundamentadas.
Batalhamos para que um agricultor que não sabe quantos dias tem uma semana negocie a venda de sua colheita e poupe dinheiro para reinvestimentos.
Batalhamos para que as pessoas batalhem por seu próprio destino e para que mais estrelas cadentes sejam vistas no céu da Tanzânia e mais pedidos sejam feitos sobre a terra vermelha (Sam jamais descreveria nosso trabalho assim).
Precisamos de cabeça(s) e de alma(s). Precisamos acreditar na Paz Mundial.


Sam, I wish you could read some Portuguese so you could read how proud I am of everything we've done together. Cheers to your soul! Cheers to my mind! On the way to the World Peace! Tuko pamoja ;)

sábado, 19 de novembro de 2011

As mudanças que chegam com o vento. O dentro que muda com a chuva.


Está chovendo. As chuvas de final de ano (período curto de chuvas) parecem ter chegado e isso, espero, é boa notícia pras nossas vilas. A chuva traz possibilidades aos agricultores de subsistência e também traz desconforto e um certo perigo. Estamos torcendo para ter muita água caindo do céu para alimentar os girassóis em Kwakiliga e para que não seja água suficiente para inundar a shamba em Magoma. Queremos um pouco sem querer demais. Em Swahili dizemos mvua imeniesha, o que em tradução literal significa “está chovendo a chuva”.

Quando chove aqui na Tanzânia as pessoas se escondem, o que sempre me deixa triste já que tenho aquela ideia poética de que em sertão, água que cai do céu é recebida como presente. Os rios de lama dominam a paisagem (em terras inférteis a chuva não penetra no solo, fica na superfície formando barro) e as pessoas aqui não gostam de se sujar (dá tanto trabalho lavar roupa...).
Viajar fica (mais) difícil, pneus carecas derrapam daqui e de lá, pés descalços escorregam pelas trilhas. Com tanta água caindo do céu, as torneiras desacostumadas à fartura entopem-se de lama e folhas e falta água.

Eu sempre adorei a chuva e quando chove sinto meu corpo querendo se renovar. Parece que tudo que tenho pensado, todos esses sentimentos que se misturam, ficam prontos pra serem lavados e levados pela enxurrada. E aí é hora de mudança, de renovação – água na cabeça agita meus pensamentos.

Uma das partes difíceis do meu trabalho é que eu e ele somos um, e ele é maior do que eu. Então por mais que eu queira me deixar levar pelas águas tenho cada gota da chuva me cutucando e me lembrando que minha imagem é a imagem do que faço. Não posso correr na chuva e deixar a roupa ficar transparente, não posso me deixar escorregar na lama (ainda que às vezes eu caia sem querer mesmo) e ficar com cara de boba (ok, talvez isso eu não possa evitar).

Sempre gostei de chuva na casa da avó, minha avó querida que não tenho mais comigo em São Paulo e que por muito tempo morou em uma casa grande, com janelas venezianas por onde os pingos da chuva faziam sombra enquanto eu deitava em sua cama e ganhava cafuné.
Aqui na Tanzânia, amo a chuva na casa de Crazy Bibi, minha avó de Magoma, onde a água faz barulho quando bate nas telhas de plástico e interrompe nossa conversa ou me obriga a sorrir e fingir que continuo ouvindo-a enquanto dois rios se formam nas duas entradas da casa e nos ilham do lado de dentro.
Eu tento ir embora, correndo contra o tempo ou evitando ser alimentada, mas Crazy Bibi me convence a ficar mais um pouquinho pela trigésima vez e quando eu, depois de algumas horas, pareço irredutível (só pareço, porque Crazi Bibi sempre me ganha), vejo Crazy Bibi tirando um molho de chaves do meio de seus peitos e começando sua busca pela chave que gira a desproporcional fechadura do seu quartinho do lado de fora. Invariavelmente, depois de tentar cada uma da quase uma dúzia de chaves diversas vezes, ela consegue abrir a porta e se apressa em me entregar um guarda-chuva gigantesco. Muitas vezes, além do guarda-chuva, vejo seu gato de estimação, que ela carinhosamente chama de Paka (gato em Swahili), me olhando agradecido já que havia sido trancado por engano no depósito escuro.
(Aqui vale uma curta explicação: Crazy Bibi é a pessoa mais velha de Magoma, eu acho, quase 90 anos e nenhum dente na boca. Ela vive em uma casa muito simples, dois quartos  divididos por um corredor pequeno que serve como sala, cozinha, copa e estoque. No total a casa tem cinco portas, contando a do quartinho de fora em que vive o guarda-chuva e às vezes o gato Paka. Três das cinco portas são fechadas com fechaduras de madeira e não com chaves, o que sempre me deixou curiosa sobre que portas o molho de chaves que se esconde no peito de Crazi Bibi é capaz de abrir).

Eu defendo com alma e dentes a rotação de PCs no nosso modelo 2Seeds. Estamos adaptando os detalhes ano a ano para garantir a efetividade de nossos projetos e trazer ideias novas e pessoas com diferentes experiências para gerar inovação é parte essencial do processo. Mas eu, Ana, queria poder ir a Magoma sempre que tenho tempo (ou vontade, que é maior do que tempo) e ouvir a chuva sentada no banquinho de madeira mais baixo do mundo, quase no chão, na casa de Crazy Bibi.

Meu trabalho é maior do que eu e eu sou menor do que meu amor pela minha linda Magoma. Então ouço a chuva me chamando, mas respiro fundo e deixo a vida seguir seu caminho torcendo para que, amanhã, eu tenha a chance de mostrar a Crazy Bibi quantas saudades estou sentindo...

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O "como" e o "o que"


Não tenho entendido o tempo por aqui, parece que quanto mais desejo escrever mais ele desaparece da minha frente. A vida aqui na Tanzânia continua intensa, muita coisa acontecendo, o lado de dentro transbordando e eu batalhando de todos os lados. Tem tanto de mim pra ser dito, mas também tem muito sobre os projetos e sobre tudo que temos todos vivido. E é dos projetos que vou falar hoje.

Começando pelos continuing projects, aqueles que foram iniciados ano passado ou retrasado.

Magoma teve uma inundação na nossa querida shamba e tudo que estava plantado foi perdido. Todo o lugar virou um rio, digno de rafting, com as chuvas fora de época. Lindsay e Cíntia, as duas coordenadoras de projeto, tiveram seu momento e suas diferenças ao enxergar a água lavando o sonho. Paralelamente, desolação pelo que foi perdido e a chance de um novo começo brotaram da água, lágrimas se juntaram ao rio e a mais importante lição nasceu para elas com a experiência: aqui a resiliência é a maior qualidade de um ser humano. Saber cair, levantar e seguir em frente é não só essencial como a única maneira de seguir com a vida. Caímos, levantamos e seguimos, sempre em frente, afinal o destino final ilumina nosso caminho.
Um novo berçário de cebolas e pimentões foi plantado e os desafios não secam com a água que evapora. E os professores, de quem tanto reclamei aqui, se envolveram e nos ajudaram a levantar.

Kwakiliga teve seu turning point, quando Andrea e Sarah abraçaram o projeto que receberam, encararam suas deficiências como parte de sua missão e colocaram suas jembes (enxadas) nos ombros para distribuir sementes de girassol aos membros do grupo. Kwaks será, esperamos, uma vila produtora de lindas flores amarelas que quando murcharem e secarem estarão prontas para alimentar barrigas e sonhos (é a beleza das flores murchas que estamos buscando). O caminho ainda é longo, mas fomos mais longe nas últimas semanas do que nos últimos anos.

Lutindi se tornou um revés, temos que voltar para trás para seguir em frente, já que nosso grupo de agricultores de subsistência ainda se descobre e se esconde. As razões que uniram os membros do grupo sob o mesmo nome se mostraram equivocadas e estamos tentando descobrir a veia que conecta todos. Muitas vezes, em países como a Tanzânia, as pessoas se unem em torno de uma ideia não pela ideia em si, mas pela assistência que desejam receber. Como nosso trabalho é diferente, essa assistência financeira não será entregue a não ser que seja parte de um projeto consistente com objetivos de longo prazo. É essa consistência que estamos buscando em Lutindi.

Os projetos especializados seguem seu caminho aprendendo e analisando os treinamentos, as organizações e os mercados da Tanzânia. Korogwe ainda estuda a melhor maneira de conectar agricultores e proporcionar treinamentos necessários e efetivos. Kariakoo colecionou informações e analisou variações de mercado para entender os padrões produtivos e de consumo. Ambos estão trabalhando muito bem, mas ainda tateando para formular soluções.

Os projetos greenfield, que estão sendo iniciados este ano (Kijungumoto, Bombo Majimoto, Tabora e Bungu), estão em fase de seleção. A responsabilidade de escolher com quem trabalhar, como e em que pesa neste momento sobre os ombros dos PCs. Eles ainda não sabem que o que faz um projeto dar certo por aqui é o “como”, não o “o que”. Vamos aprendendo no caminho ;)

domingo, 9 de outubro de 2011

Alma, carne, mundo

Estou a escrever do escuro no quarto do Econolodge, hotel em Dar em que já me hospedei tantas vezes que tem um "que" de casa. As pessoas me conhecem, desde o staff até os que moram na pequena rua que leva ao hotel, e as figuras desdentadas e pobres não me assustam, ao contrário, me aceitam.

Dormi o dia inteiro, sensação que em 1 ano e meio de Tanzânia tive pela primeira vez. Estou em Dar esperando o Sam, que está em Pangani com a namorada e me encontrará aqui na terça para que eu finalmente a conheça pouco antes da sua partida, fruto de infinitas conversas em nossas noites de trabalho. Então seguiremos para Korogwe juntos, na quarta, e ele me ajudará a carregar minha mala, que mal consigo levantar de tão pesada, cheia de comida brasileira e quitutes saudáveis que me ajudarão a encontrar minha forma perdida (e contentar minha alma saudosa).

 

Estou no escuro porque quero, desta vez temos luz aqui em Dar, e estava a ler o blog do Gonçalo, amigo português que conheci em Nairobi e que se aproxima do final de uma viagem magnífica pela África. Confesso que sempre que leio seu blog sinto as formigas se mexendo na sola de meus pés e tenho muita vontade de reaver meu espírito mochileiro e seguir o sol. Aí respiro fundo e me lembro porque estou aqui, vejo algumas fotos de Magoma (sim, ainda dona do meu coração) e me aquieto. A verdade é que não sei por quanto tempo conseguirei me aquietar, mas minhas Havaianas sem sola têm me mantido muito firme na busca desse meu destino.

 

A viagem ao Brasil foi incrível e comer pão de queijo (duro, depois de 2 dias de viagem) no quarto do hotel me traz à boca o sabor do meu país. A última vez que estive no Brasil foi estranha, eu não estava em um bom momento e foi uma viagem de despedida: de Magoma, da minha avó, do meu trabalho como Coordenadora de Projeto e de uma imagem que eu tinha na minha cabeça de como seria voltar pra casa depois de tanto tempo. Infantilmente criamos conceitos de sucessos e fracassos e esperamos que apenas os sucessos sejam vistos quando regressamos de uma experiência tão definitiva. Ao olhar para o espelho e ver os fracassos refletidos senti vergonha e quis me esconder.

Só que o crescimento que vim viver na Tanzânia me ensinou o valor dos fracassos no caminho do sucesso e o que significa aprender, nem na escola nem no livro, mas na alma, na carne.

 

O Brasil é minha casa, finalmente sinto isso depois dos últimos dez dias. É o país cuja bandeira me enche os olhos de lágrimas e cujos defeitos me irritam acima de tudo. É minha saudades, meu sabor, minha música. Minha alma de brasileira em um corpo que chacoalha sem medo.

A Tanzânia é o país em que cumpro minha missão, em que me fiz aceitar e sou lenda, mais do que sou eu. É minha flexibilidade e meu tapa na cara, onde eu sou menos importante pra mim mesma – no bom e no mau sentido.

 

Meu coração está, neste escuro quarto de hotel, em algum lugar entre os dois mundos. As saudades apertam, o dever chama e eu cresço enquanto me sinto pequena e me escondo enquanto me exponho.

 

Aqui sou alma, sou carne e sou mundo.