sábado, 19 de novembro de 2011

As mudanças que chegam com o vento. O dentro que muda com a chuva.


Está chovendo. As chuvas de final de ano (período curto de chuvas) parecem ter chegado e isso, espero, é boa notícia pras nossas vilas. A chuva traz possibilidades aos agricultores de subsistência e também traz desconforto e um certo perigo. Estamos torcendo para ter muita água caindo do céu para alimentar os girassóis em Kwakiliga e para que não seja água suficiente para inundar a shamba em Magoma. Queremos um pouco sem querer demais. Em Swahili dizemos mvua imeniesha, o que em tradução literal significa “está chovendo a chuva”.

Quando chove aqui na Tanzânia as pessoas se escondem, o que sempre me deixa triste já que tenho aquela ideia poética de que em sertão, água que cai do céu é recebida como presente. Os rios de lama dominam a paisagem (em terras inférteis a chuva não penetra no solo, fica na superfície formando barro) e as pessoas aqui não gostam de se sujar (dá tanto trabalho lavar roupa...).
Viajar fica (mais) difícil, pneus carecas derrapam daqui e de lá, pés descalços escorregam pelas trilhas. Com tanta água caindo do céu, as torneiras desacostumadas à fartura entopem-se de lama e folhas e falta água.

Eu sempre adorei a chuva e quando chove sinto meu corpo querendo se renovar. Parece que tudo que tenho pensado, todos esses sentimentos que se misturam, ficam prontos pra serem lavados e levados pela enxurrada. E aí é hora de mudança, de renovação – água na cabeça agita meus pensamentos.

Uma das partes difíceis do meu trabalho é que eu e ele somos um, e ele é maior do que eu. Então por mais que eu queira me deixar levar pelas águas tenho cada gota da chuva me cutucando e me lembrando que minha imagem é a imagem do que faço. Não posso correr na chuva e deixar a roupa ficar transparente, não posso me deixar escorregar na lama (ainda que às vezes eu caia sem querer mesmo) e ficar com cara de boba (ok, talvez isso eu não possa evitar).

Sempre gostei de chuva na casa da avó, minha avó querida que não tenho mais comigo em São Paulo e que por muito tempo morou em uma casa grande, com janelas venezianas por onde os pingos da chuva faziam sombra enquanto eu deitava em sua cama e ganhava cafuné.
Aqui na Tanzânia, amo a chuva na casa de Crazy Bibi, minha avó de Magoma, onde a água faz barulho quando bate nas telhas de plástico e interrompe nossa conversa ou me obriga a sorrir e fingir que continuo ouvindo-a enquanto dois rios se formam nas duas entradas da casa e nos ilham do lado de dentro.
Eu tento ir embora, correndo contra o tempo ou evitando ser alimentada, mas Crazy Bibi me convence a ficar mais um pouquinho pela trigésima vez e quando eu, depois de algumas horas, pareço irredutível (só pareço, porque Crazi Bibi sempre me ganha), vejo Crazy Bibi tirando um molho de chaves do meio de seus peitos e começando sua busca pela chave que gira a desproporcional fechadura do seu quartinho do lado de fora. Invariavelmente, depois de tentar cada uma da quase uma dúzia de chaves diversas vezes, ela consegue abrir a porta e se apressa em me entregar um guarda-chuva gigantesco. Muitas vezes, além do guarda-chuva, vejo seu gato de estimação, que ela carinhosamente chama de Paka (gato em Swahili), me olhando agradecido já que havia sido trancado por engano no depósito escuro.
(Aqui vale uma curta explicação: Crazy Bibi é a pessoa mais velha de Magoma, eu acho, quase 90 anos e nenhum dente na boca. Ela vive em uma casa muito simples, dois quartos  divididos por um corredor pequeno que serve como sala, cozinha, copa e estoque. No total a casa tem cinco portas, contando a do quartinho de fora em que vive o guarda-chuva e às vezes o gato Paka. Três das cinco portas são fechadas com fechaduras de madeira e não com chaves, o que sempre me deixou curiosa sobre que portas o molho de chaves que se esconde no peito de Crazi Bibi é capaz de abrir).

Eu defendo com alma e dentes a rotação de PCs no nosso modelo 2Seeds. Estamos adaptando os detalhes ano a ano para garantir a efetividade de nossos projetos e trazer ideias novas e pessoas com diferentes experiências para gerar inovação é parte essencial do processo. Mas eu, Ana, queria poder ir a Magoma sempre que tenho tempo (ou vontade, que é maior do que tempo) e ouvir a chuva sentada no banquinho de madeira mais baixo do mundo, quase no chão, na casa de Crazy Bibi.

Meu trabalho é maior do que eu e eu sou menor do que meu amor pela minha linda Magoma. Então ouço a chuva me chamando, mas respiro fundo e deixo a vida seguir seu caminho torcendo para que, amanhã, eu tenha a chance de mostrar a Crazy Bibi quantas saudades estou sentindo...

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O "como" e o "o que"


Não tenho entendido o tempo por aqui, parece que quanto mais desejo escrever mais ele desaparece da minha frente. A vida aqui na Tanzânia continua intensa, muita coisa acontecendo, o lado de dentro transbordando e eu batalhando de todos os lados. Tem tanto de mim pra ser dito, mas também tem muito sobre os projetos e sobre tudo que temos todos vivido. E é dos projetos que vou falar hoje.

Começando pelos continuing projects, aqueles que foram iniciados ano passado ou retrasado.

Magoma teve uma inundação na nossa querida shamba e tudo que estava plantado foi perdido. Todo o lugar virou um rio, digno de rafting, com as chuvas fora de época. Lindsay e Cíntia, as duas coordenadoras de projeto, tiveram seu momento e suas diferenças ao enxergar a água lavando o sonho. Paralelamente, desolação pelo que foi perdido e a chance de um novo começo brotaram da água, lágrimas se juntaram ao rio e a mais importante lição nasceu para elas com a experiência: aqui a resiliência é a maior qualidade de um ser humano. Saber cair, levantar e seguir em frente é não só essencial como a única maneira de seguir com a vida. Caímos, levantamos e seguimos, sempre em frente, afinal o destino final ilumina nosso caminho.
Um novo berçário de cebolas e pimentões foi plantado e os desafios não secam com a água que evapora. E os professores, de quem tanto reclamei aqui, se envolveram e nos ajudaram a levantar.

Kwakiliga teve seu turning point, quando Andrea e Sarah abraçaram o projeto que receberam, encararam suas deficiências como parte de sua missão e colocaram suas jembes (enxadas) nos ombros para distribuir sementes de girassol aos membros do grupo. Kwaks será, esperamos, uma vila produtora de lindas flores amarelas que quando murcharem e secarem estarão prontas para alimentar barrigas e sonhos (é a beleza das flores murchas que estamos buscando). O caminho ainda é longo, mas fomos mais longe nas últimas semanas do que nos últimos anos.

Lutindi se tornou um revés, temos que voltar para trás para seguir em frente, já que nosso grupo de agricultores de subsistência ainda se descobre e se esconde. As razões que uniram os membros do grupo sob o mesmo nome se mostraram equivocadas e estamos tentando descobrir a veia que conecta todos. Muitas vezes, em países como a Tanzânia, as pessoas se unem em torno de uma ideia não pela ideia em si, mas pela assistência que desejam receber. Como nosso trabalho é diferente, essa assistência financeira não será entregue a não ser que seja parte de um projeto consistente com objetivos de longo prazo. É essa consistência que estamos buscando em Lutindi.

Os projetos especializados seguem seu caminho aprendendo e analisando os treinamentos, as organizações e os mercados da Tanzânia. Korogwe ainda estuda a melhor maneira de conectar agricultores e proporcionar treinamentos necessários e efetivos. Kariakoo colecionou informações e analisou variações de mercado para entender os padrões produtivos e de consumo. Ambos estão trabalhando muito bem, mas ainda tateando para formular soluções.

Os projetos greenfield, que estão sendo iniciados este ano (Kijungumoto, Bombo Majimoto, Tabora e Bungu), estão em fase de seleção. A responsabilidade de escolher com quem trabalhar, como e em que pesa neste momento sobre os ombros dos PCs. Eles ainda não sabem que o que faz um projeto dar certo por aqui é o “como”, não o “o que”. Vamos aprendendo no caminho ;)

domingo, 9 de outubro de 2011

Alma, carne, mundo

Estou a escrever do escuro no quarto do Econolodge, hotel em Dar em que já me hospedei tantas vezes que tem um "que" de casa. As pessoas me conhecem, desde o staff até os que moram na pequena rua que leva ao hotel, e as figuras desdentadas e pobres não me assustam, ao contrário, me aceitam.

Dormi o dia inteiro, sensação que em 1 ano e meio de Tanzânia tive pela primeira vez. Estou em Dar esperando o Sam, que está em Pangani com a namorada e me encontrará aqui na terça para que eu finalmente a conheça pouco antes da sua partida, fruto de infinitas conversas em nossas noites de trabalho. Então seguiremos para Korogwe juntos, na quarta, e ele me ajudará a carregar minha mala, que mal consigo levantar de tão pesada, cheia de comida brasileira e quitutes saudáveis que me ajudarão a encontrar minha forma perdida (e contentar minha alma saudosa).

 

Estou no escuro porque quero, desta vez temos luz aqui em Dar, e estava a ler o blog do Gonçalo, amigo português que conheci em Nairobi e que se aproxima do final de uma viagem magnífica pela África. Confesso que sempre que leio seu blog sinto as formigas se mexendo na sola de meus pés e tenho muita vontade de reaver meu espírito mochileiro e seguir o sol. Aí respiro fundo e me lembro porque estou aqui, vejo algumas fotos de Magoma (sim, ainda dona do meu coração) e me aquieto. A verdade é que não sei por quanto tempo conseguirei me aquietar, mas minhas Havaianas sem sola têm me mantido muito firme na busca desse meu destino.

 

A viagem ao Brasil foi incrível e comer pão de queijo (duro, depois de 2 dias de viagem) no quarto do hotel me traz à boca o sabor do meu país. A última vez que estive no Brasil foi estranha, eu não estava em um bom momento e foi uma viagem de despedida: de Magoma, da minha avó, do meu trabalho como Coordenadora de Projeto e de uma imagem que eu tinha na minha cabeça de como seria voltar pra casa depois de tanto tempo. Infantilmente criamos conceitos de sucessos e fracassos e esperamos que apenas os sucessos sejam vistos quando regressamos de uma experiência tão definitiva. Ao olhar para o espelho e ver os fracassos refletidos senti vergonha e quis me esconder.

Só que o crescimento que vim viver na Tanzânia me ensinou o valor dos fracassos no caminho do sucesso e o que significa aprender, nem na escola nem no livro, mas na alma, na carne.

 

O Brasil é minha casa, finalmente sinto isso depois dos últimos dez dias. É o país cuja bandeira me enche os olhos de lágrimas e cujos defeitos me irritam acima de tudo. É minha saudades, meu sabor, minha música. Minha alma de brasileira em um corpo que chacoalha sem medo.

A Tanzânia é o país em que cumpro minha missão, em que me fiz aceitar e sou lenda, mais do que sou eu. É minha flexibilidade e meu tapa na cara, onde eu sou menos importante pra mim mesma – no bom e no mau sentido.

 

Meu coração está, neste escuro quarto de hotel, em algum lugar entre os dois mundos. As saudades apertam, o dever chama e eu cresço enquanto me sinto pequena e me escondo enquanto me exponho.

 

Aqui sou alma, sou carne e sou mundo.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Graduação em Magoma

Estou exausta e ainda tenho que fazer minha mala para a viagem ao
Brasil. Hoje foi meu último dia em Korogwe antes da viagem, amanhã
pela manhã vou pra Dar es Salaam para viajar no domingo. Hoje foi
também um dia muito especial e por mais cansada que eu esteja não
poderia deixar de dividi-lo com vocês.

Ontem choveu a noite inteira e hoje choveu boa parte do dia. Não
sabemos se o período curto de chuvas que deveria chegar em meio de
outubro veio mais cedo ou se toda esta chuva é um alarme falso e as
nuvens desaparecerão daqui a pouco. As pessoas estão correndo para as
shambas (sítios) para plantar já que muita gente (muita mesmo) não tem
comida em função das chuvas loucas que tivemos no começo do ano (a
chuva atrasou muito e quando veio foi demais e inconsistente).

Mas o que tornou o dia de hoje tão especial foi a graduação da 7ª
série em Magoma.

Eu havia me programado para ir à festa, que deveria começar às 10
horas, mas toda a chuva me deixou hesitante já que rios de lama
transbordam pela estrada em tempos de chuva. O resultado é que já eram
quase 10 horas quando me perguntei "você é uma mulher ou é um rato?",
montei Bwana Mtoto (carro da 2Seeds recém adquirido e recém
ressuscitado da oficina – nosso carro é velhinho, mas nós o amamos. O
nome significa Senhor Criança) e decidi encarar a estrada, confiante
na minha habilidade off-road. 45 minutos depois cheguei a Magoma, a
casa para qual eu tinha que ir antes de ir pra casa, e tive um dia de
felicidade em meio ao (delicioso) caos de Magoma.

A cerimônia que deveria começar às 10 horas estava atrasada (o que eu
esperava?) e eu tinha uma reunião com os coordenadores de projeto
greenfield aqui em Korogwe às 14h00. Às 13h00 vi uma sala de aula
simples e lindamente decorada (aproximadamente 3 horas de esforços dos
professores) e às 13h15 vi toda a decoração ser desmontada já que
aparentemente a sala era pequena demais para todos os presentes (ah
Tanzania...).

Enquanto isso os estudantes ensaiavam seus cantos vestidos em suas
melhores roupas. As meninas vestiam as saias laranjas (a maioria
emprestada) que são uniforme da escola secundária – algumas tinham
cabelos trançados ou pelo menos recém raspados. Os meninos vestiam
gravata com camisa social, muitos com sapatos lustrosos.

De todas as crianças que começam a escola, cerca de 50% se formam.
Deles, cerca de 30% devem ir para escola secundária e eu ficarei
surpresa se mais de 10% se formarem na escola secundária– queria muito
poder dizer que nosso projeto, 9 meses de idade, já é capaz de mudar
esses números, mas ainda temos muito trabalho pela frente pra colher
resultados diferentes.

A 7ª série da Kwata (escola primária de Magoma) teve força e garra pra
trabalhar com um sorriso no rosto, me ensinar Swahili e garantir
refeições na escola para 813 estudantes. Eles me inspiraram a cada
dia, me enlouqueceram incontáveis vezes, se encharcaram comigo
irrigando a shamba e calcularam lucro na aula de matemática. Crianças
como Henry Godfrey, as duas Marias, Aisha, Miriam e Issa me deram
motivos pra nunca desistir – eles nunca desistiram.

Bwana Mtoto saiu revigorado da viagem – se provou um carro pronto pra
encarar kijijini (vila). Eu saí emocionada da viagem desejando um
mundo de oportunidades para os estudantes que se despedem e um mundo
de esperança e garra para os que ficam. O projeto Magoma viu sua
primeira formatura (que venham muitas!) . As novas voluntárias tiveram
a chance de se apaixonar pelo projeto e de receber energia para
fazê-lo melhor.

Não são poucas as vezes que me pergunto "o que eu vim fazer aqui?". Em
dias como hoje a resposta é tão fácil que nem precisa de palavras pra
ficar clara.


Pp. Para fazer o dia ainda melhor eu também:

a) Visitei Crazy Bibi, a última avó que me restou (ainda que quase sem
dentes na boca), que amo com todo meu coração e apesar de velhinha
havia ido visitar sua filha (e consultar um médico – varizes e
glaucoma) em Morogoro (cidade a 6 horas de Magoma). O abraço que
ganhei de Crazy Bibi faz a vida valer a pena.
b) Conversei com Babu, meu avô com o qual falo todos os dias, mas de
quem sinto saudades todos os dias também.
c) Cheguei atrasada, mas participei da reunião com os projetos
greenfield aqui em Korogwe e pude trocar experiências com o barulhento
e alegre grupo de PCs.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Subindo e descendo montanhas

Faz muito tempo que não escrevo porque o trabalho tem ocupado cada
minuto de todos os meus dias. Não moro mais em Magoma e assumi minha
posição de Diretora de Desenvolvimento e Projetos em agosto. Agora são
9 projetos, 23 voluntários e 2 diretores aqui na Tanzânia. Estou
vivendo em Korogwe.

Escreverei mais de agora em diante e darei detalhes sobre cada
projeto, mas hoje quero me dedicar mais ao que tenho sentido do que ao
trabalho em si.

Ontem fui a Lutindi, vila que fica lindamente cravada no alto de uma
montanha. Desde a primeira viagem, ano passado com o time de Lutindi,
descer aquela montanha me faz pensar e me coloca a sentir as saudades,
a encarar as dúvidas, a lembrar os sonhos. Ano passado, o fim da tarde
escondeu as lágrimas que expunham as saudades de tudo que havia
deixado no Brasil, o medo e o frio na barriga, o susto por estar
realmente aqui.

Eu vim pra muito longe, mais longe que longe, fazer algo tão simples
como salvar o mundo – salvar um mundo. Parece coisa de filme quando
falamos assim...
Na parede do meu quarto em Korogwe pendurei minhas havaianas
sobreviventes de Magoma. A terra e o barro repuxaram a borracha, a
sola esburacou, o azul ficou meio branco e meio marrom. As havaianas
de Magoma me lembram quem eu sou, me lembram o que eu vivi e me
lembram por que estou aqui. As havaianas de Magoma são como eu na
Tanzânia: meio fora de forma, muitas cicatrizes do caminho adornando a
bandeirinha do Brasil e um cansaço que não se esconde, mas que não as
impede de estarem prontas pra mais um dia na shamba, pra mais uma
conversa em KiSwahili (ou KiSambaa), pra mais um pedra no caminho.
Prontas pra mais.

Na Tanzânia quando falta, falta, faz falta. Eu não sei muito sobre
muita coisa, mas aqui tenho que saber quem eu sou. E este eu é forte,
pra se encarar sozinho, pra entender as variações de sozinho, pra
viver sem. Tento inspirar as 23 pessoas que seguem meu caminho e às
vezes acho que consigo, às vezes falho. Na vida que escolhi, falhar é
cotidiano, é passo. Mas o vento que a moto joga no meu rosto também
lembra que no meio das falhas surgem os acertos e que no meio das
falhas eu não falhei quando vim pra cá. 813 crianças comem todos os
dias os frutos de 9 meses de falhas. Minhas falhas estão enchendo
barrigas há 7 meses. Que venham mais pedras.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Uma janela para um outro mundo: nem tão perto, nem tão distante, logo ali.




Tenho tanto a escrever e tanta experiência a compartilhar que sou perseguida pela sensação de que estou devendo estórias - e estou. Neste momento de transição os sentimentos também querem ser escritos, assim como as experiências na minha linda Magoma. Tem muito acontecendo do lado de dentro e do lado de fora.

Dia 10 de junho tivemos um momento mágico em Magoma, o festival de cinema Tanz Cine Brazil.
Eu percorri a vila convidando as pessoas para comparecerem ao mercado às 7 da noite e assistirem cinema brasileiro: “cinema, como uma TV grandona, venham que vocês vão gostar”.
Depois de mobilizar a equipe do festival prometendo uma noite Cinema Paradiso, eu estava ansiosa e um pouco receosa de que não tivéssemos público. Para ajudar teríamos concorrência, já que a mesquita decidiu fazer uma semana de pregação ao ar livre passando filmes religiosos sempre no último volume e com péssima qualidade de áudio nos alto-falantes (vida de Magoma é assim, som sempre muito alto, qualidade sempre muito baixa e nenhuma chance de cada pessoa guardar o que acredita e o que quer ouvir para si mesma).

Começou a escurecer enquanto preparávamos o cinema. Projetor e tela vindos dos escritórios de agricultura e educação de Korogwe (Mr. Mjema e Mr. Shemzighwa sempre me apoiando incondicionalmente); Babu, Mr. Bodo e Mw. Mary (a nova diretora da escola), incansáveis, supervisionando a preparação; a produção e eu buscando bancos na igreja, cadeiras na ADP, um tapetão na máquina de farinha e diversas outras coisas com os vizinhos; as crianças trazendo baldes para iluminação com velas – em Magoma a gente nunca tem tudo que precisa, cada coisa vem de um canto, todo evento é um evento comunitário.

A exibição começou com meia hora de atraso:
(Animação escolhida a dedo por não ter falas e mostrar um pouco do nosso nordeste; sertão brasileiro nos olhos do sertão tanzaniano)

Olhei em volta e vi cerca de 400 pessoas sentadas entre o tapetão, os bancos e as cadeiras, sorrindo e dando risada. O coração pulou...

A sessão continuou com:

Ainda que tanto Sambatown como Naiá sejam muito poéticos e carreguem analogias que não se traduzem facilmente para a cultura tanzaniana, até aqui eu sabia que as pessoas adorariam; selecionamos estes filmes para mostrar um pouco da nossa dança e da nossa floresta, todos quase sem diálogos.  Já a partir daqui teríamos uma nova barreira, a língua: em Magoma as pessoas não falam inglês e muito menos português. Os filmes estavam em português, obviamente, e com legendas em inglês.

(Momento “agora é que a vaca foi pro brejo” quando nos demos conta que as legendas deste filme estavam em português...)


As legendas em português (?!) e inglês não impediram que minha linda e doce Magoma aproveitasse cada minuto do festival. As 400 pessoas permaneceram com os olhos fixos na tela durante as três horas de sessão e nós adaptamos, desconstruindo o conceito de festival de cinema e mostrando trechos de diversos filmes para ter variedade na tela e nos pensamentos. E funcionou.
A arte é universal. E Magoma ganhou uma janela para o mundo, ou pelo menos para um outro mundo: nem tão perto, nem tão distante, logo ali.

Momentos especiais:
  1. Pessoas vindas de Mkwajuni, a vila mais distante que forma Magoma, curtiram 3 horas de festival mesmo tendo que atravessar o rio pra ir embora pra casa;
  2. Os senhores e senhoras de Magoma, alguns apoiados em bengalas, estavam lá;
  3. Mostrar Eu Tu Eles foi um momento especial para mim, que quis fazê-lo desde que cheguei a Magoma. As risadas veladas das mamas, únicas capazes de entender as entrelinhas das intenções sexuais do filme, foram deliciosas;
  4. O ahhhhhhhhh que Igor (um dos produtores do festival) e eu ganhamos ao parar Eu Tu Eles no momento da primeira cena de sexo mostra que Magoma também tem malícia;
  5. As risadas que cada beijo mostrado na tela arrancou da inocente platéia (as pessoas não beijam na Tanzânia);
  6. Pessoas me perguntando no dia seguinte sobre como a índia Naiá se tornou uma planta e como é essa planta (lenda da vitória-régia) mostra que a arte comunica sem palavras.
  7. A lua cheia fechou o cenário e iluminou o caminho de todos na volta pra casa.

A ligação do sertão brasileiro com o sertão de Magoma se mostrou tão forte que até mesmo a minha experiência aqui ganhou um novo sentido. As pessoas puderam se conectar com uma realidade parecida a um oceano de distância. Minha alma, meio brasileira meio magomense, pode conectar os dois mundos que formam quem eu sou neste momento.

Brasil e Magoma.

Pode parecer que não há nada em comum, mas somos apenas pessoas dividindo sonhos e espiando por nossas janelas para o mundo. Dia 10 de junho estivemos juntos. Fomos um.

Pp. Obrigada Cecília Queiroz, Estefania Chaves, Ronaldo Vieira, Igor Pirola, Sebastião Braga e Ramadham!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Bombo Majimoto

Foi dentro da minha nova função, que ainda que se torne oficial apenas em agosto venho exercendo desde janeiro, que selecionei com nossos parceiros locais as vilas para os novos projetos. Uma dessas vilas se chama Bombo Majimoto.

Bombo fica perto de Magoma (cerca de 16 km – lembrando que na Tanzânia a distância varia de acordo com quem a mede), mas na região das montanhas, chamada Kizara. É uma vila isolada em que crianças fugiram de mim em minha primeira visita porque nunca haviam visto uma pessoa branca (e eu jamais me descreveria como branca sendo brasileira).
O lugar é lindo, no sopé da montanha. O nome surgiu pela nascente de água que abastece toda a vila. A água deveria ser quente (maji = água, moto = quente), mas todas as vezes que estive lá encontrei água fresca e fria.

Quando os diretores da 2Seeds vieram visitar a Tanzânia em fevereiro, os levei a Bombo Majimoto. Apesar de eu tê-los avisado com antecedência que deveriam esperar uma vila pobre (todas as casas são de pau-a-pique), com uma comunidade muito simples (2.000 agricultores de subsistência), suas expectativas foram ultrapassadas – para pior. Toda a comunidade estava nos esperando e celebrando, desde a manhã, nossa visita. Considerando que chegamos no meio da tarde, nos deparamos com uma comunidade bêbada...

Bombo quase perdeu a chance de receber um projeto pelo excesso de felicidade que o vislumbre de um projeto trouxe para a comunidade. Eu batalhei pela vila: depois de conversar com nossos parceiros locais e ter sua garantia de que o lugar é seguro, passei três dias em Bombo dormindo em casa de pau-a-pique e tomando banho ao relento, para testar as condições de segurança. E me apaixonei.
Meu fim de semana em Bombo aconteceu no meio da estação da fome que assola muitas de nossas vilas, de março a junho, todos os anos. Em Bombo eu fui para a shamba procurar vegetais com Mama Lukia para termos almoço, dividi uma espiga de milho em três e carreguei os vegetais e o milho na cabeça.
A comunidade, com toda a sua pobreza e isolamento, expele doçura por todos os seus poros. Meu nome em Kisambaa (língua local, da tribo Sambaa) chegou a Bombo, e por onde ando ouço Mamuugu ou Makihio, as duas variações para “mãe de todas as famílias”.

Minha felicidade ao voltar a Bombo semana passada carregando a notícia de que começaremos um projeto por lá me embriagou. Não precisei beber pombe (pinga local, fermentada de cana-de-açúcar ou coco) para sair de Bombo na garupa da pikipiki (moto táxi) com água escorrendo pelos olhos escondida debaixo dos óculos escuros.
Um brinde a Bombo!

Pp. O time que chega a Bombo viverá em casa de alvenaria, com forro no teto e todo o conforto possível para a pequena vila. Há apenas uma casa assim em toda a vila, que está sendo finalizada para recebê-los.