3 pedras
Estamos na Tanzânia para trabalhar conjuntamente com a comunidade local, juntando nossos históricos e habilidades diferentes por um objetivo comum – 2 sementes plantadas juntas gerando uma única vida.
Uma parte significativa dos primeiros meses foi dedicada a encontrar os melhores parceiros e construir uma relação de confiança que nos permitisse extrair o melhor de todos os envolvidos e montar o projeto de forma sustentável e longeva.
Mzee Francis disse que para cozinhar à lenha, como acontece aqui na Tanzânia, são necessárias 3 pedras. Essas 3 pedras conseguem sustentar a panela no chão e manter a eficiência do fogo.
Nós temos 3 pedras segurando uma grande panela que, se tudo correr bem, cozinhará 813 refeições diárias, temperará a vida de 813 estudantes e servirá cabeças pensantes e ativas a uma sociedade que precisa desesperadamente de pensamento crítico e possibilidades.
É com grande orgulho que apresento nossos 3 principais parceiros:
Mr. Bodo – Gerente de Relacionamento (à esquerda)
Mr. Bodo é chairman do Comitê de Pais e Responsáveis da Escola Primária, do Comitê da Água para Uso Doméstico, do Comitê da Escola. É também membro do Banco Comunitário VICOBA, super interessante, em que as pessoas se organizam para ampliar suas possibilidades de investimento. Muçulmano, tem uma linda família – esposa, 4 filhos e (muitos!) agregados – e toma conta de diversos negócios da vila, como a Máquina de Farinha e um pequeno Café (que na verdade acontece na rua).
Acabou de comprar um modem para aprender a usar a internet no computador de seu irmão, o único em Magoma com exceção dos nossos notebooks e dos computadores das ONGs – esta semana fomos tentar ajudá-los a usar o tal computador e nos deparamos com as caixas ainda fechadas, servindo de mesa de cabeceira para Mzee Malingumu (o irmão) e sua esposa (a máquina foi comprada há 2 anos, mas nunca foi usada já que eles não sabem como ligá-la).
Mr. Bodo está sonhando em buscar fundos para comprar computadores para a escola assim que o empréstimo feito pela 2Seeds for pago e ambos os pedaços de terra da escola estiverem produtivos gerando refeições para os estudantes.
Mr. Simoni Mvung / Mwalimu Mkuu (Professor Chefe) – Gerente de Agricultura (no centro)
Mwalimu é um entusiasta, estudou em escola agrícola e entende de irrigação. Esta semana ele levou 2 grupos de alunos, 4ª, 5ª e 6ª séries, para plantar melancia. Ele não só é capaz de coordenar sozinho grupos que variaram de 25 a 80 crianças, como está se dedicando a garantir que cada um desses estudantes aprenda como fazer os jardins (pequenas áreas circundadas por canais por onde a água deve passar) e usar a bomba de irrigação.
Sua esposa também ensina na Escola Primária. Eles têm 4 filhos.
Mwalimu está batalhando para não ser transferido de Magoma e poder tocar o projeto por longo tempo. No início do ano, antes de chegarmos aqui, ele usou seu próprio dinheiro para comprar sementes e montar a pequena fazenda de milho que gerou comida para os alunos durante as provas.
Mzee Francis Mwankai – Gerente de Meio-Ambiente (à direita)
Mzee é um senhor, deve ter cerca de 70 anos (a idade exata não é divulgada). Membro da Igreja Anglicana, tem a habilidade de trabalhar em conjunto com pessoas de todas as religiões presentes em Magoma e de olhar para a pessoa, não para suas crenças. Faz parte de todos os comitês que visitamos até agora, trabalha ativamente pelo desenvolvimento da região.
Num lugar de poucos sonhos, Mzee cultiva um pequeno jardim no quintal de sua casa de pau-a-pique. As mudas são usadas para reflorestamento.
Mzee será responsável pela “floresta” que estamos começando na terra da escola, escolhendo as árvores mais adequadas e ensinando os estudantes a cuidar delas. Ele diz que a geração dele só consumiu os recursos e precisa ensinar a nova geração a gerar recursos antes que a Tanzânia se transforme em um deserto.
E não se engane pela idade, nosso querido Mzee passou o dia plantando melancias ontem conosco, com a enxada sobre o ombro e debaixo de 35° de sol.
Mzee também criou nosso slogan “Growing a New Generation” e definiu nosso grupo como “as 3 pedras”.
sábado, 16 de outubro de 2010
Curtas de Magoma
Estávamos voltando de Korogwe, carregando 55L de combustível no ônibus para abastecer a bomba de irrigação. O ônibus estava lotado, como sempre.
Em uma das primeiras vilas na estrada de terra, a moça que estava sentada conosco, com sua filha no colo, precisou descer. Nós estávamos no fundo do ônibus, que tem apenas uma porta junto ao motorista.
A irmã da moça se dirigiu à frente do ônibus para dizer “shusha” (desce) – os ônibus param em absolutamente qualquer lugar que você queira, incluindo paradas a 10 metros de distância uma da outra para pegar 2 grupos de pessoas que poderiam esperar juntos e contribuir para que os 38km de Magoma a Korogwe fossem percorridos em menos de 2 horas.
O ônibus parou e a moça, carregando o bebê de pouquíssimos meses, começou a se movimentar. Uma discussão intensa tomou conta da multidão. Em alguns segundos o ônibus decidiu que a melhor forma de lidar com a situação seria passar o bebê pela janela para alguém que estivesse no chão enquanto a mãe se espremia para alcançar a porta.
O bebê passou de mão em mão até o projeto estar completo. A mãe o recuperou alguns minutos depois quando finalmente conseguiu descer.
A propósito, o combustível chegou bem e já está sendo usado. Os galões, que inicialmente continham ácido sulfúrico 98%, foram exaustivamente lavados por Kristina e eu, com muita água e sabão, deixando marcas em nossas roupas. Tive que caminhar por todo o mercado no SOL em busca de galões (não, eles não são vendidos no posto de gasolina) até pagar TSH12000 por dois containers azuis que deveriam comportar 70L de combustível após serem bem lavados – comportaram 55L.
Em uma das primeiras vilas na estrada de terra, a moça que estava sentada conosco, com sua filha no colo, precisou descer. Nós estávamos no fundo do ônibus, que tem apenas uma porta junto ao motorista.
A irmã da moça se dirigiu à frente do ônibus para dizer “shusha” (desce) – os ônibus param em absolutamente qualquer lugar que você queira, incluindo paradas a 10 metros de distância uma da outra para pegar 2 grupos de pessoas que poderiam esperar juntos e contribuir para que os 38km de Magoma a Korogwe fossem percorridos em menos de 2 horas.
O ônibus parou e a moça, carregando o bebê de pouquíssimos meses, começou a se movimentar. Uma discussão intensa tomou conta da multidão. Em alguns segundos o ônibus decidiu que a melhor forma de lidar com a situação seria passar o bebê pela janela para alguém que estivesse no chão enquanto a mãe se espremia para alcançar a porta.
O bebê passou de mão em mão até o projeto estar completo. A mãe o recuperou alguns minutos depois quando finalmente conseguiu descer.
A propósito, o combustível chegou bem e já está sendo usado. Os galões, que inicialmente continham ácido sulfúrico 98%, foram exaustivamente lavados por Kristina e eu, com muita água e sabão, deixando marcas em nossas roupas. Tive que caminhar por todo o mercado no SOL em busca de galões (não, eles não são vendidos no posto de gasolina) até pagar TSH12000 por dois containers azuis que deveriam comportar 70L de combustível após serem bem lavados – comportaram 55L.
Marcadores:
Magoma TMP Tanzania combustível
sábado, 9 de outubro de 2010
The saga of the sexy tractor
Estou parafraseando o título do blog da Kristina (http://themagomaproject.tumblr.com) – Kristina, do you read my blog?
Fase 1 - A terra da escola foi limpa por dois homens que trabalham pesado (palavras dos nossos parceiros – TSH60.000 / US$42).
Fase 2 – Kristina e eu compramos sementes de melancia, pimentão verde e uma variedade africana de berinjela; além de fungicidas e fertilizantes. As duas pequenas caixas estão aqui no meu quarto e olho para elas todas as noites vendo 813 refeições diárias durante três meses – motivador, apavorante e cheio de significado (TSH176.500 – US$122).
Fase 3 - Fui com Mwalimu Mkuu (diretor da escola e nosso Gerente da Fazenda) comprar uma pumping machine para bombear a água do rio e irrigar a terra. Compramos a máquina, 200m de mangueiras, um tubo que vai do rio até a máquina (TSH620.000 pelo conjunto – US$430) e 20L de combustível (TSH33.000 – US$23).
Fase 4 – aí é que começa a história...
Com a terra limpa, o próximo passo seria ará-la com o trator (TSH80.000 – US$55,40), já que ela não vinha sendo cultivada há algum tempo.
Não existem tratores em Magoma, as pessoas não têm dinheiro pra usá-los. Mas fomos informadas sobre três possibilidades de tratores que poderíamos contratar. Mwalimu disse que bastava ele ligar e o trator viria.
Ouvimos que o trator estava trabalhando em outra terra. Ouvimos que o outro trator tinha um problema no arado. Ouvimos que o primeiro trator estava quebrado. Ouvimos que o trator estava a caminho (longo caminho já que não chegou).
Foi uma versão por dia durante uma semana, até que Mwalimu e Mr. Bodo (nosso Gerente de Relacionamento) subiram em uma moto e foram para Kerenge (próximo ward*, algumas vilas de distância) para resolver o problema.
Levou dois dias, mas o trator chegou. E quebrou.
Quando vimos o trator ficou fácil entender o problema: máquina de 1975 (tem uma plaquinha do Brasil soldada na lataria!), zero de manutenção. Os pneus furam todo o tempo, o que se explica pela ausência de borracha.
Kristina deu o apelido de sexy tractor, não sei bem por que. Podemos considerar sexy o grupo de estudantes + 2Seeds + parceiros tanzanianos empurrando o trator, diversas vezes, para pegar no tranco (não, ele não tem bateria para ignição).
De qualquer forma nosso sexy tractor passou o dia trabalhando na terra ontem (comigo sentada sobre a roda fotografando a ação). Mais um dia (que será hoje se o motorista comparecer) e ele termina o trabalho.
Mzee (senhor, no sentido de o mais velho) Francis (nosso Gerente de Reflorestamento) está acompanhando cada etapa e supervisionando o trabalho. Aliás, a maneira como nossos parceiros têm trabalhado bem juntos, dividindo tarefas, se empenhando e tomando decisões em conjunto tem sido a parte mais motivadora da semana de espera pelo trator (afinal eles farão o projeto acontecer quando nós não estivermos aqui).
Próximas etapas:
1- Fazer os jardins (pequenas fileiras de terra com um “vale” de cada lado. As sementes ficam nas fileiras e os vales trazem água). Simultaneamente, montar um berçário para as plantas no cantinho da terra, até que elas estejam fortes o suficiente para serem transplantadas.
2- Irrigar a área com a pumping machine.
3- Estudantes plantando.
Que venha a primeira montanha!
* Magoma é uma divisão dentro do Distrito de Korogwe. A divisão tem quatro wards (deve ter um nome para isso em português, mas não me vem à cabeça): Kerenge, Magoma (sim, mesmo nome), Mashewa e Kizara. Os quatro wards juntos englobam 25 vilas, 28 escolas primárias, 4 escolas secundárias e 50.000 pessoas, aproximadamente)
Fase 1 - A terra da escola foi limpa por dois homens que trabalham pesado (palavras dos nossos parceiros – TSH60.000 / US$42).
Fase 2 – Kristina e eu compramos sementes de melancia, pimentão verde e uma variedade africana de berinjela; além de fungicidas e fertilizantes. As duas pequenas caixas estão aqui no meu quarto e olho para elas todas as noites vendo 813 refeições diárias durante três meses – motivador, apavorante e cheio de significado (TSH176.500 – US$122).
Fase 3 - Fui com Mwalimu Mkuu (diretor da escola e nosso Gerente da Fazenda) comprar uma pumping machine para bombear a água do rio e irrigar a terra. Compramos a máquina, 200m de mangueiras, um tubo que vai do rio até a máquina (TSH620.000 pelo conjunto – US$430) e 20L de combustível (TSH33.000 – US$23).
Fase 4 – aí é que começa a história...
Com a terra limpa, o próximo passo seria ará-la com o trator (TSH80.000 – US$55,40), já que ela não vinha sendo cultivada há algum tempo.
Não existem tratores em Magoma, as pessoas não têm dinheiro pra usá-los. Mas fomos informadas sobre três possibilidades de tratores que poderíamos contratar. Mwalimu disse que bastava ele ligar e o trator viria.
Ouvimos que o trator estava trabalhando em outra terra. Ouvimos que o outro trator tinha um problema no arado. Ouvimos que o primeiro trator estava quebrado. Ouvimos que o trator estava a caminho (longo caminho já que não chegou).
Foi uma versão por dia durante uma semana, até que Mwalimu e Mr. Bodo (nosso Gerente de Relacionamento) subiram em uma moto e foram para Kerenge (próximo ward*, algumas vilas de distância) para resolver o problema.
Levou dois dias, mas o trator chegou. E quebrou.
Quando vimos o trator ficou fácil entender o problema: máquina de 1975 (tem uma plaquinha do Brasil soldada na lataria!), zero de manutenção. Os pneus furam todo o tempo, o que se explica pela ausência de borracha.
Kristina deu o apelido de sexy tractor, não sei bem por que. Podemos considerar sexy o grupo de estudantes + 2Seeds + parceiros tanzanianos empurrando o trator, diversas vezes, para pegar no tranco (não, ele não tem bateria para ignição).
De qualquer forma nosso sexy tractor passou o dia trabalhando na terra ontem (comigo sentada sobre a roda fotografando a ação). Mais um dia (que será hoje se o motorista comparecer) e ele termina o trabalho.
Mzee (senhor, no sentido de o mais velho) Francis (nosso Gerente de Reflorestamento) está acompanhando cada etapa e supervisionando o trabalho. Aliás, a maneira como nossos parceiros têm trabalhado bem juntos, dividindo tarefas, se empenhando e tomando decisões em conjunto tem sido a parte mais motivadora da semana de espera pelo trator (afinal eles farão o projeto acontecer quando nós não estivermos aqui).
Próximas etapas:
1- Fazer os jardins (pequenas fileiras de terra com um “vale” de cada lado. As sementes ficam nas fileiras e os vales trazem água). Simultaneamente, montar um berçário para as plantas no cantinho da terra, até que elas estejam fortes o suficiente para serem transplantadas.
2- Irrigar a área com a pumping machine.
3- Estudantes plantando.
Que venha a primeira montanha!
* Magoma é uma divisão dentro do Distrito de Korogwe. A divisão tem quatro wards (deve ter um nome para isso em português, mas não me vem à cabeça): Kerenge, Magoma (sim, mesmo nome), Mashewa e Kizara. Os quatro wards juntos englobam 25 vilas, 28 escolas primárias, 4 escolas secundárias e 50.000 pessoas, aproximadamente)
Correndo ao nascer do sol
A que horas é possível correr em uma vila em que as pessoas sentam para assistir as wazungu (brancas) lavando roupas e malhar é palavra ausente no dicionário?
Para responder a esta pergunta tenho acordado às 5h30 da manhã todos os dias. O corpo funciona cheio de energia, despertando antes do alarme, desde que sentiu o gostinho da corrida ao nascer do sol.
Correr é engraçado. Eu odeio correr, sempre odiei, mas sempre corri esperando o dia em que vou sentir aquele click, aquele que todo maratonista menciona, e me sentir flutuando.
Não, este click não foi ouvido em Magoma (será que tenho que correr 42 km ou sou surda mesmo?).
Mas correr tem me feito um bem sem fim: sinto-me livre, sinto-me jovem; pronta para enfrentar qualquer desafio – endorfinas provando a teoria dos gurus da malhação.
Ontem estava correndo até Songea (próxima vila, 5 km). O fôlego estava faltando, mas pensei “só vou andar depois daquela árvore”. Foi quando ouvi “Pole sana!” (sinto muito). A árvore ficou muito longe, eu estava gargalhando! Duas mamas (mulheres adultas) estavam a caminho da shamba (fazenda de subsistência) e sentiam muito pelo meu esforço :S
Magoma fica no vale entre duas montanhas, uma mais baixa, a outra mais alta. Vamos escalar a primeira montanha depois de plantar e planejamos escalar a segunda depois da colheita (qualquer simbologia não é mera coincidência).
O sol nasce atrás da montanha mais alta e é um espetáculo ver tudo mudando de cor. No mesmo dia do “pole sana” três Timão cruzaram a trilha (não, o Pumba não estava presente).
Não consigo pensar em nada que eu odeie tanto e me faça sentir melhor.
Eu amo odiar correr todas as manhãs!
Para responder a esta pergunta tenho acordado às 5h30 da manhã todos os dias. O corpo funciona cheio de energia, despertando antes do alarme, desde que sentiu o gostinho da corrida ao nascer do sol.
Correr é engraçado. Eu odeio correr, sempre odiei, mas sempre corri esperando o dia em que vou sentir aquele click, aquele que todo maratonista menciona, e me sentir flutuando.
Não, este click não foi ouvido em Magoma (será que tenho que correr 42 km ou sou surda mesmo?).
Mas correr tem me feito um bem sem fim: sinto-me livre, sinto-me jovem; pronta para enfrentar qualquer desafio – endorfinas provando a teoria dos gurus da malhação.
Ontem estava correndo até Songea (próxima vila, 5 km). O fôlego estava faltando, mas pensei “só vou andar depois daquela árvore”. Foi quando ouvi “Pole sana!” (sinto muito). A árvore ficou muito longe, eu estava gargalhando! Duas mamas (mulheres adultas) estavam a caminho da shamba (fazenda de subsistência) e sentiam muito pelo meu esforço :S
Magoma fica no vale entre duas montanhas, uma mais baixa, a outra mais alta. Vamos escalar a primeira montanha depois de plantar e planejamos escalar a segunda depois da colheita (qualquer simbologia não é mera coincidência).
O sol nasce atrás da montanha mais alta e é um espetáculo ver tudo mudando de cor. No mesmo dia do “pole sana” três Timão cruzaram a trilha (não, o Pumba não estava presente).
Não consigo pensar em nada que eu odeie tanto e me faça sentir melhor.
Eu amo odiar correr todas as manhãs!
Comida em Magoma
Variedade não é a palavra adequada para descrever nossas possibilidades de cardápio em Magoma. Meus colegas americanos (como americanos comem!) sempre brincam que temos que garantir nossa segurança alimentar para poder batalhar pela segurança alimentar dos outros – “Prezados passageiros, em caso de acidente vista primeiramente sua máscara de oxigênio para depois ajudar a criança a seu lado”.
Faz sentido, ainda que seja brincadeira. Não estamos, em nenhuma circunstância, perto de insegurança alimentar - tenho até comido demais. O problema está na variedade e não na quantidade.
Costumo dizer que nossa principal fonte de proteína são as formigas (tempero presente em grãos, açúcar, farinha...).
Ovos, quando os achamos, parecem ovos de codorna – a não ser quando temos a sorte de tropeçar em lindos ovos de pata que fazem nossos olhos gulosos brilhar (são vendidos pelo mesmo preço, vai entender).
Vemos cabras por todos os lados (Kristina adora carne de cabra, eu sou vegetariana), mas nunca vemos pessoas comendo carne de cabra (o que é intrigante porque tenho certeza que elas as criam com essa intenção).
De vez em quando comemos folhas não identificadas – os chumaços murchando no mercado me partem o coração e sei que ninguém mais vai comprá-las. Às vezes algumas flores brotam antes de cozinhá-las, às vezes os cabos são inquebráveis mesmo para os dentes mais afiados.
Também compro raízes esquisitas, sou uma pessoa curiosa, mas Kristina tem medo de comê-las e serem venenosas (alguém precisa explicar a essa menina os princípios da Permacultura).
O chilli no domingo foi um capítulo à parte (agradeço Chris e Fabis por isso). Tínhamos apenas metade dos ingredientes, mas e daí?
Chris me disse que para fazer pimenta calabresa eu teria apenas que torrar as sementes de qualquer pimenta vermelha disponível. Hum, parece fácil...
Dedos ardendo – parte da minha rotina (eu ADORO pimenta, Kristina diz que seus hábitos alimentares foram alterados permanentemente depois de viver comigo).
Olhos ardendo – devia ter tirado as lentes de contato.
Tosse incontrolável – será que estou fazendo certo?
Falta de ar, incapacidade de respirar – socorro!
A fumaça dominou a casa e não conseguimos entrar por 20 minutos. Eu tossia sem parar, meu rosto vermelho e ardendo como se eu tivesse dormido no sol sem protetor. Kristina lavava roupas no quintal, longe da cena do crime, e chorava de tanto tossir.
O resultado foi usado no nosso delicioso chilli: uma colher de sobremesa de pimenta (quem disse que qualidade se mede pela quantidade?).
Também inventei uma receita de veggie burguer que levou meu estômago a SP.
E claro, achamos um peixe no meio dos nossos amendoins :)
Faz sentido, ainda que seja brincadeira. Não estamos, em nenhuma circunstância, perto de insegurança alimentar - tenho até comido demais. O problema está na variedade e não na quantidade.
Costumo dizer que nossa principal fonte de proteína são as formigas (tempero presente em grãos, açúcar, farinha...).
Ovos, quando os achamos, parecem ovos de codorna – a não ser quando temos a sorte de tropeçar em lindos ovos de pata que fazem nossos olhos gulosos brilhar (são vendidos pelo mesmo preço, vai entender).
Vemos cabras por todos os lados (Kristina adora carne de cabra, eu sou vegetariana), mas nunca vemos pessoas comendo carne de cabra (o que é intrigante porque tenho certeza que elas as criam com essa intenção).
De vez em quando comemos folhas não identificadas – os chumaços murchando no mercado me partem o coração e sei que ninguém mais vai comprá-las. Às vezes algumas flores brotam antes de cozinhá-las, às vezes os cabos são inquebráveis mesmo para os dentes mais afiados.
Também compro raízes esquisitas, sou uma pessoa curiosa, mas Kristina tem medo de comê-las e serem venenosas (alguém precisa explicar a essa menina os princípios da Permacultura).
O chilli no domingo foi um capítulo à parte (agradeço Chris e Fabis por isso). Tínhamos apenas metade dos ingredientes, mas e daí?
Chris me disse que para fazer pimenta calabresa eu teria apenas que torrar as sementes de qualquer pimenta vermelha disponível. Hum, parece fácil...
Dedos ardendo – parte da minha rotina (eu ADORO pimenta, Kristina diz que seus hábitos alimentares foram alterados permanentemente depois de viver comigo).
Olhos ardendo – devia ter tirado as lentes de contato.
Tosse incontrolável – será que estou fazendo certo?
Falta de ar, incapacidade de respirar – socorro!
A fumaça dominou a casa e não conseguimos entrar por 20 minutos. Eu tossia sem parar, meu rosto vermelho e ardendo como se eu tivesse dormido no sol sem protetor. Kristina lavava roupas no quintal, longe da cena do crime, e chorava de tanto tossir.
O resultado foi usado no nosso delicioso chilli: uma colher de sobremesa de pimenta (quem disse que qualidade se mede pela quantidade?).
Também inventei uma receita de veggie burguer que levou meu estômago a SP.
E claro, achamos um peixe no meio dos nossos amendoins :)
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Growing a new generation
Como é Magoma:
Este lugar que se tornou minha casa tem terra vermelha, vento, sol forte e lama quando chove. Às vezes tem água, que as mulheres carregam em baldes sobre a cabeça. Às vezes não tem (estamos sem água há 2 dias e em breve terei que ir ao rio abastecer meu balde).
E é neste cenário que 813 crianças vão à escola todos os dias, da primeira à sétima série.
São 16 professores para 813 crianças e, acreditem, esta é uma boa média (a escola secundária tem 5 professores para 540 estudantes). A escola não tem energia elétrica e só recebe água duas horas por dia. Os uniformes brancos não são muito brancos (aqui, cada vez que pisamos fora de casa estamos sujos de poeira, não tem jeito. E a água que lava essa poeira é marrom, vem do rio).
As crianças estudam das 7h00 às 14h00 sem comer nada. Muitas delas não encontram refeições quando voltam pra casa também. Falar em nutrição é utopia pura.
Foi neste cenário que começamos a desenvolver o projeto. Pensamos em oferecer refeições aos estudantes. Pensamos em aumentar o valor nutricional do que eles estão comendo. Pensamos, principalmente, em proporcionar conhecimento para que esses estudantes possam buscar novos caminhos para batalhar pelos seus sonhos (e ajudar suas famílias a trabalhar sua terra de forma mais apurada).
Assim nasce o Projeto Magoma :)
A escola tem um pedaço de terra árida que está sendo subutilizada. Estamos trabalhando nesta terra para plantar árvores frutíferas, árvores para reflorestamento e árvores repelentes (se alguém conhecer alguma me avise, malária é um problemão aqui e seria de grande ajuda).
Primeiro passo: plantar uma cerca - viva de sisal (idéia do meu herói, John Mntambo) para que as cabras e vacas não comam as árvores.
A escola acabou de alugar um pedaço de terra fértil perto do rio, 2 acres. Neste pedaço de terra vamos plantar melancias, berinjela africana e pimentão (primeira temporada) e cebolas, espinafre e repolho (segunda temporada). Estamos trabalhando esta projeção para garantir:
a) Que os estudantes tenham a oportunidade de receber treinamento e aprender a lidar com diferentes culturas
b) Que o projeto seja lucrativo e proporcione dinheiro para a escola.
Com este dinheiro, estamos montando o orçamento para um Programa de Alimentação, uma refeição por dia para cada estudante.
Próximo passo: o primeiro passo já foi dado, escolher a terra e negociar o contrato. A terra começará a ser limpa amanhã, o que levará uma semana. Depois disso vamos contratar um trator para preparar o solo.
Temos um sem fim de sonhos e objetivos dentro deste projeto. Mas vamos começar assim:
a) 1 escola primária com 813 estudantes e 16 professores
b) 1 fazenda produtiva e lucrativa para retorno de curto prazo (assim esperamos)
c) 1 fazenda de árvores para retorno de longo prazo (que ajudará a estreitar a relação das pessoas com o meio-ambiente)
d) Treinamento para os estudantes sobre como lidar com o solo, melhores práticas de agricultura, como irrigar a área, como dividir o trabalho entre homens e mulheres
e) Treinamento para os estudantes sobre como planejar sua plantação orientando-a para o mercado: fazendo projeções de lucros e custos, escolhendo a opção mais atrativa e acessando os melhores mercados para vender a produção.
f) Um Programa de Merenda Escolar com uma refeição diária para cada estudante, financiado com dinheiro gerado pela própria escola e seus estudantes (e, portanto, sustentável)
A partir daí temos muitos caminhos para crescer, em número de escolas e em possibilidades. Mas este é o começo que estamos todos construindo juntos.
Se tudo der certo teremos uma Magoma com novas possibilidades em breve. E os jovens não precisarão deixar Magoma porque terão possibilidades de encarar suas fazendas como um negócio que pode gerar segurança alimentar e segurança financeira.
Dedicamos muito tempo a buscar as pessoas certas na comunidade e envolvê-las no projeto. Acho que temos algumas pessoas fantásticas trabalhando juntas, sobre as quais vou escrever mais, em breve.
E já temos um slogan, criado por um de nossos parceiros locais, Mzee Francis:
The Magoma Project – Growing a new Generation :)
Este lugar que se tornou minha casa tem terra vermelha, vento, sol forte e lama quando chove. Às vezes tem água, que as mulheres carregam em baldes sobre a cabeça. Às vezes não tem (estamos sem água há 2 dias e em breve terei que ir ao rio abastecer meu balde).
E é neste cenário que 813 crianças vão à escola todos os dias, da primeira à sétima série.
São 16 professores para 813 crianças e, acreditem, esta é uma boa média (a escola secundária tem 5 professores para 540 estudantes). A escola não tem energia elétrica e só recebe água duas horas por dia. Os uniformes brancos não são muito brancos (aqui, cada vez que pisamos fora de casa estamos sujos de poeira, não tem jeito. E a água que lava essa poeira é marrom, vem do rio).
As crianças estudam das 7h00 às 14h00 sem comer nada. Muitas delas não encontram refeições quando voltam pra casa também. Falar em nutrição é utopia pura.
Foi neste cenário que começamos a desenvolver o projeto. Pensamos em oferecer refeições aos estudantes. Pensamos em aumentar o valor nutricional do que eles estão comendo. Pensamos, principalmente, em proporcionar conhecimento para que esses estudantes possam buscar novos caminhos para batalhar pelos seus sonhos (e ajudar suas famílias a trabalhar sua terra de forma mais apurada).
Assim nasce o Projeto Magoma :)
A escola tem um pedaço de terra árida que está sendo subutilizada. Estamos trabalhando nesta terra para plantar árvores frutíferas, árvores para reflorestamento e árvores repelentes (se alguém conhecer alguma me avise, malária é um problemão aqui e seria de grande ajuda).
Primeiro passo: plantar uma cerca - viva de sisal (idéia do meu herói, John Mntambo) para que as cabras e vacas não comam as árvores.
A escola acabou de alugar um pedaço de terra fértil perto do rio, 2 acres. Neste pedaço de terra vamos plantar melancias, berinjela africana e pimentão (primeira temporada) e cebolas, espinafre e repolho (segunda temporada). Estamos trabalhando esta projeção para garantir:
a) Que os estudantes tenham a oportunidade de receber treinamento e aprender a lidar com diferentes culturas
b) Que o projeto seja lucrativo e proporcione dinheiro para a escola.
Com este dinheiro, estamos montando o orçamento para um Programa de Alimentação, uma refeição por dia para cada estudante.
Próximo passo: o primeiro passo já foi dado, escolher a terra e negociar o contrato. A terra começará a ser limpa amanhã, o que levará uma semana. Depois disso vamos contratar um trator para preparar o solo.
Temos um sem fim de sonhos e objetivos dentro deste projeto. Mas vamos começar assim:
a) 1 escola primária com 813 estudantes e 16 professores
b) 1 fazenda produtiva e lucrativa para retorno de curto prazo (assim esperamos)
c) 1 fazenda de árvores para retorno de longo prazo (que ajudará a estreitar a relação das pessoas com o meio-ambiente)
d) Treinamento para os estudantes sobre como lidar com o solo, melhores práticas de agricultura, como irrigar a área, como dividir o trabalho entre homens e mulheres
e) Treinamento para os estudantes sobre como planejar sua plantação orientando-a para o mercado: fazendo projeções de lucros e custos, escolhendo a opção mais atrativa e acessando os melhores mercados para vender a produção.
f) Um Programa de Merenda Escolar com uma refeição diária para cada estudante, financiado com dinheiro gerado pela própria escola e seus estudantes (e, portanto, sustentável)
A partir daí temos muitos caminhos para crescer, em número de escolas e em possibilidades. Mas este é o começo que estamos todos construindo juntos.
Se tudo der certo teremos uma Magoma com novas possibilidades em breve. E os jovens não precisarão deixar Magoma porque terão possibilidades de encarar suas fazendas como um negócio que pode gerar segurança alimentar e segurança financeira.
Dedicamos muito tempo a buscar as pessoas certas na comunidade e envolvê-las no projeto. Acho que temos algumas pessoas fantásticas trabalhando juntas, sobre as quais vou escrever mais, em breve.
E já temos um slogan, criado por um de nossos parceiros locais, Mzee Francis:
The Magoma Project – Growing a new Generation :)
Marcadores:
Magoma escola growing a new generation
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Estrelas cadentes
Outro dia o coordenador de projeto da World Vision Magoma veio jantar aqui conosco. Não acontece com freqüência termos visita para o jantar e confesso que acho divertido ainda que seja bem trabalhoso cozinhar com uma única boca de fogareiro movido a querosene e sem geladeira ou forno.
Precisávamos de tomates (ele avisou que viria quase na hora do jantar e não há supermercados em Magoma). Maria me disse que há uma vendinha aqui perto, eu não conhecia, então fomos juntas. Na verdade é uma casa, em que a dona vende tomates, cebolas e ovos na janela. A noite estava linda, magnífica na verdade.
Infelizmente não tenho aproveitado muito as noites de Magoma, não há muito que fazer, especialmente para mulheres. Como não há iluminação pública e 90% das casas não têm energia elétrica, é possível ver milhões de estrelas.
Quando a lua está cheia ando sem lanterna, mas quando não há lua vou com a lanterna do celular, já que há buracos para queimar o lixo espalhados pelo chão e não seria muito agradável cair em um deles.
Nessa noite, com Maria, comentei que adoraria ver uma estrela cadente. E descobri que Maria não faz idéia do que é uma estrela cadente...
Primeiro ela me perguntou se a estrela cairia até o chão. Depois ficou olhando pro céu, admirada.
Não saber o que é uma estrela cadente significa nunca ter feito um pedido para uma estrela cadente. Em Magoma as pessoas não fazem pedidos para estrelas, não sopram velas de aniversário, sonhos são raros. E isso sempre me deixa triste porque é um dos símbolos da falta de perspectiva, da ausência de desejos e tradições doces e frívolas. A vida não tem essa leveza e provavelmente ninguém acreditaria que um pedido a uma estrela possa se realizar.
Eu estou aqui, batalhando por Magoma. E buscando pessoas de Magoma dispostas a batalhar por Magoma também. Encontrei algumas, mas todas tão temporárias quanto eu. Tanzanianos não gostam de Magoma e não desejam estar aqui, especialmente os jovens. Sempre que viajamos e dizemos a qualquer pessoa que vivemos em Magoma ouvimos risadas seguidas de “O que você come?”, “Você bebe a água?”.
Para encontrar jovens magomenses dispostos a lutar por uma Magoma melhor, precisamos primeiro criar condições para que viver em Magoma seja uma opção, não falta de perspectivas. Se conseguirmos mostrar aos jovens de Magoma novos caminhos ou, melhor ainda, lhes mostrar uma forma de encontrá-los por conta própria, talvez tenhamos uma nova realidade dominando o espaço. Espero que essa nova realidade nos traga um pouco de criatividade, certamente ajudaria muito.
Eu vou seguindo minha vida e procurando minha estrela cadente para fazer meu pedido: desejo que as pessoas de Magoma descubram que existem estrelas cadentes nesse lindo céu negro e comecem a fazer pedidos e correr atrás de seus sonhos. Como eu estou correndo atrás do meu.
Precisávamos de tomates (ele avisou que viria quase na hora do jantar e não há supermercados em Magoma). Maria me disse que há uma vendinha aqui perto, eu não conhecia, então fomos juntas. Na verdade é uma casa, em que a dona vende tomates, cebolas e ovos na janela. A noite estava linda, magnífica na verdade.
Infelizmente não tenho aproveitado muito as noites de Magoma, não há muito que fazer, especialmente para mulheres. Como não há iluminação pública e 90% das casas não têm energia elétrica, é possível ver milhões de estrelas.
Quando a lua está cheia ando sem lanterna, mas quando não há lua vou com a lanterna do celular, já que há buracos para queimar o lixo espalhados pelo chão e não seria muito agradável cair em um deles.
Nessa noite, com Maria, comentei que adoraria ver uma estrela cadente. E descobri que Maria não faz idéia do que é uma estrela cadente...
Primeiro ela me perguntou se a estrela cairia até o chão. Depois ficou olhando pro céu, admirada.
Não saber o que é uma estrela cadente significa nunca ter feito um pedido para uma estrela cadente. Em Magoma as pessoas não fazem pedidos para estrelas, não sopram velas de aniversário, sonhos são raros. E isso sempre me deixa triste porque é um dos símbolos da falta de perspectiva, da ausência de desejos e tradições doces e frívolas. A vida não tem essa leveza e provavelmente ninguém acreditaria que um pedido a uma estrela possa se realizar.
Eu estou aqui, batalhando por Magoma. E buscando pessoas de Magoma dispostas a batalhar por Magoma também. Encontrei algumas, mas todas tão temporárias quanto eu. Tanzanianos não gostam de Magoma e não desejam estar aqui, especialmente os jovens. Sempre que viajamos e dizemos a qualquer pessoa que vivemos em Magoma ouvimos risadas seguidas de “O que você come?”, “Você bebe a água?”.
Para encontrar jovens magomenses dispostos a lutar por uma Magoma melhor, precisamos primeiro criar condições para que viver em Magoma seja uma opção, não falta de perspectivas. Se conseguirmos mostrar aos jovens de Magoma novos caminhos ou, melhor ainda, lhes mostrar uma forma de encontrá-los por conta própria, talvez tenhamos uma nova realidade dominando o espaço. Espero que essa nova realidade nos traga um pouco de criatividade, certamente ajudaria muito.
Eu vou seguindo minha vida e procurando minha estrela cadente para fazer meu pedido: desejo que as pessoas de Magoma descubram que existem estrelas cadentes nesse lindo céu negro e comecem a fazer pedidos e correr atrás de seus sonhos. Como eu estou correndo atrás do meu.
Assinar:
Postagens (Atom)
